Como projetos de Letras, Artes e Humanidades se engajam contra o coronavírus

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19.04.2020, 05:00:00
Atualizado: 21.04.2020, 19:20:41

Como projetos de Letras, Artes e Humanidades se engajam contra o coronavírus

Conheça cinco iniciativas de universidades brasileiras

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Provavelmente, quando você escuta que pesquisadores e universidades têm ajudado no combate ao coronavírus, imagina que se trate de profissionais de Saúde. De fato, estudantes, professores e pesquisadores dos cursos de Saúde estão na linha de frente do enfrentamento à pandemia. 

Mas eles não são os únicos. Mesmo com boa parte das atividades normais paralisadas desde março, projetos de áreas do conhecimento nem tão óbvias também estão engajadas nisso. Tem gente de Linguagens, de Artes, da Ciências Humanas e das Ciências Sociais Aplicadas. 

Tem manual para deixar a casa menos suscetível ao contágio com o vírus, divulgação científica e até comunicação para quem porventura não tenha acesso à informação compartilhada de forma tradicional. Todos, de alguma maneira, buscaram ajudar diante das possibilidades de suas áreas. 

“Com a tradução, o acesso à informação é mais rápido e prático para o pesquisador, para os médicos, para os enfermeiros. É mais democrático", afirma a professora Lucielen Porfírio, do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Ela é responsável pelo projeto de tradução voluntária de artigos científicos sobre a Covid-19, um dos cinco projetos listados pelo CORREIO, entre tantos que têm feito diferença. 

Conheça um pouco mais desses projetos

1. Voluntários traduzem artigos científicos sobre coronavírus na Ufba

Não é novidade que o Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (Ufba) forma professores e tradutores. Até mesmo o Nupel Permanente de Extensão em Letras (Nupel), conhecido por oferecer cursos de idiomas para a sociedade em geral a partir dos professores em formação, tem uma área específica para tradução - também feita por alunos dos cursos de graduação em línguas. 

Até março deste ano, a tradução era concentrada nos sites dos programas de pós-graduação da universidade. O serviço de tradução para inglês e espanhol era destinado aos avaliados com notas a partir de 4 pelo Ministério da Educação. No entanto, com a chegada da epidemia do coronavírus na Bahia - assim como o início das medidas de isolamento social -, as coisas mudaram. 

O momento acabou fazendo com que colocassem em prática um plano antigo - o de que os tradutores trabalhassem com outras coisas além dos sites. Foi assim que nasceu o projeto de tradução de artigos científicos sobre a Covid-19 no Instituto de Letras. Hoje, são 20 pessoas envolvidas - 17 estudantes voluntários e três professores, que são os orientadores. 

"Quando aconteceu a pandemia, a gente ficou pensando: como vamos fazer com os tradutores e professores em formação, se as aulas vão parar?'. Um dos nossos orientadores, o professor Daniel (Vasconcelos, também coordenador do projeto), entrou em contato comigo para ver se a gente poderia ajudar, de alguma maneira, traduzindo", conta a professora Lucielen Porfírio, docente do Ilufba e coordenadora adjunta do Nupel. Além dos dois, a professora Monique Pfau também coordena a iniciativa. 

Uma vez que a proposta foi definida, em apenas uma tarde, os 17 voluntários manifestaram interesse em participar. Parte deles já atuava como professor ou tradutor em formação no Nupel, mas outros estudantes se juntaram.  Todos são dos cursos de Inglês, que a área de formação dos professores envolvidos. 

Antes da quarentena, os tradutores em formação atuavam na sede física do Nupel, na Ufba, sob a coordenação de professores como Lucielen (à direita)
(Foto: Acervo pessoal)

Os artigos podem ser traduzidos nas duas frentes - tanto do Português para o Inglês quanto do Inglês para o Português. Por ser um assunto novo, muitos artigos ainda estão sendo produzidos. Assim, atualmente, os voluntários trabalham em duas traduções. 

"Estamos traduzindo um do Português para o Inglês sobre como lidar com o contágio do coronavírus em presídios. É de um grupo de trabalho de saúde prisional da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Eles acabaram de produzir e estão pedindo para poder conseguir publicar fora do Brasil", adianta a professora. 

O outro artigo é o contrário: escrito por pesquisadores chineses sobre o contágio em crianças, está em inglês e sendo traduzido para o português. 

Nos últimos dias, o grupo firmou uma parceria com a Ufba para divulgar as ações. Assim, com divulgação em listas e redes sociais, esperam ajudar pesquisadores que estejam produzindo material em português no momento. 

"Uma coisa muito importante para a gente da língua inglesa é a questão do acesso à informação. A grande maioria dos pesquisadores não têm proficiência para escrever numa língua estrangeira porque realmente é mais difícil e complexo. O acesso a uma outra língua já coloca essa pesquisa local em outro patamar, porque mais gente vai ter acesso a esse conhecimento", explica. 

Da mesma forma, os artigos traduzidos para o português podem atravessar os muros da comunidade acadêmica, alcançando os profissionais que estão na última ponta do atendimento aos pacientes. 

"A gente sabe que algumas pessoas já leem em inglês. Mas colocando em português, qualquer pessoa vai conseguir ler. A facilidade de leitura é diferente. O acesso à informação é mais rápido e prático para o pesquisador, para os médicos, para os enfermeiros. É mais democrático", reforça Lucielen. 

A tradução é feita pelos estudantes voluntários, que trabalham em pares. Por enquanto, com a demanda atual, eles têm cinco dias para a tradução. Depois disso, os professores têm dois dias para finalizar a orientação, fazer a revisão e eventuais mudanças para a formatação de um artigo científico. 

Um dos tradutores é o estudante Vinicius Ferreira, 21 anos, que é professor de inglês e cursa Línguas Estrangeiras Modernas na Ufba. Ele é um dos responsáveis pelo artigo sobre os sintomas do coronavírus em crianças na China. 

"Muita gente acha que os cursos de Humanidades, em especial Letras, não têm grande relevância para a sociedade, o que é um grande engano. No momento que recebi as mensagens sobre o projeto, não pensei duas vezes em me voluntariar", conta. 

Os professores se reúnem com os tradutores, como Vinicius (no alto, à direita), por videoconferência (Foto: Reprodução)

Para Vinicius, o papel de um tradutor e professor fica nos bastidores. "Alguns tendem a esquecer a relevância de quem desempenha essas funções, mas nós sabemos bem o quão vital ela é e, enquanto eu puder fazer minha parte, estarei fazendo", reforçou. 

Por enquanto, o projeto atende apenas a língua inglesa. No entanto, a depender da demanda, professores de outros idiomas vinculados ao Ilufba já se disponibilizaram a colaborar também. 

2 . Arquitetos lançam manual para evitar o contágio dentro de casa

Nem todo mundo imagina, mas a verdade é que a Arquitetura e a Saúde podem caminhar de mãos dadas. A arquitetura hospitalar é tão importante que, há 15 anos, o professor Antônio Pedro de Carvalho, da Faculdade de Arquitetura da Ufba criou um grupo de pesquisa especificamente sobre o tema - o GEA-Hosp. 

Por isso, logo na primeira semana das medidas de isolamento social no estado, na segunda quinzena de março, o professor Antônio Pedro se reuniu, de forma virtual, com os outros integrantes. Queriam discutir como poderiam contribuir para coombater a pandemia. 

"A arquitetura hospitalar tem normas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que, normalmente, atingem hospitais. Mas nós consideramos que algumas dessas diretrizes poderiam ser aplicadas nas residências das pessoas para proteger do contágio", conta o professor. 

Foi assim que eles criaram o manual 'Orientações da Arquitetura Hospitalar para o controle de contágio: Covid-19 - Ambiente residencial', lançado no início deste mês. A proposta é justamente, com uma linguagem simples, orientar as pessoas sobre cuidados que podem ser tomados em casa para evitar a transmissão do coronavírus. 

O manual é centrado em delimitar uma 'área de transmissão', com o objetivo de proteger os moradores da casa. "A área de transição é onde entra na casa, se faz a higiene, passa álcool gel, tira a roupa. No caso de ter uma pessoa infectada na casa, tem que isolar para uma determinada área com pelo menos um metro da pessoa", orienta Carvalho. 

Um dos cenários previsto no manual é o de casas em como fazer a área de transição em casas sem diagnóstico positivo de Covid-19
(Imagem: Reprodução)

O material foi produzido pelo professor, além de três alunas de pós-graduação, com revisão médica do infectologista Roberto Badaró (também docente da Ufba) e da Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar. Ele também foi disponibilizado gratuitamente em inglês e espanhol.

"A gente tentou fazer uma coisa embasada que pudesse sair o mais rápido possível. Os pontos principais, em Arquitetura e Saúde, são os protocolos e atividades da equipe de saúde. Mas a arquitetura participa dando condições para que as pessoas possam fazer da melhor forma e, no manual, a proposta é a mesma", enfatiza. 

O professor reforça, porém, que a ideia é mostrar que o combate depende de todos. "Não é responsabilidade só de um ou de dois, nem só do governo. Esses manuais e normas são medidas para que todo mundo possa colaborar. Essa é nossa tentativa de ajudar nisso". 


3. Informação para brasileiros que usam outro tipo de linguagem (Libras)

Quando começou o projeto Farol, há um ano, a proposta do professor Anderson Siqueira, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), era dar visibilidade às pessoas surdas. Promovia encontros e ações com a comunidade na cidade de Santo Antônio de Jesus, onde fica um dos campi da instituição. 

Professor da Linguagem Brasileira de Sinais (Libras) e lotado no Centro de Cultura, Línguas e Tecnologias Aplicadas de Santo Amaro, criou um projeto interdisciplinar. Com alunos da área de Saúde, mas, principalmente, da Psicologia, trouxe as Linguagens para o cotidiano daquela população. Só que, assim como nos outros projetos, a pandemia da Covid-19 acabou mudando o rumo das coisas. 

O grupo O Farol, da UFRB, costuma promover encontros com pessoas surdas (Foto: Acervo pessoal)

Já acostumados a produzir vídeos institucionais, decidiram elaborar materiais audiovisuais informativos em Libras.

"A língua é o canal para transmitir informação. Na Bahia, temos 720 mil pessoas com deficiência auditiva, de acordo com o IBGE. Dessas, cerca de 180 mil não escutam nada ou escutam muito pouco. Isso significa que temos uma grande parcela da população que talvez não tenha tido acesso às informações da TV", explica. 

Nem todos os comunicados oficiais, a exemplo de algumas prefeituras do interior, têm contado com a tradução para de Libras. Assim, é possível que os usuários da linguagem estejam mais suscetíveis à desinformação e às fake news. 

A ideia é que o material não seja restrito à Bahia. "Nos reunimos e elaboramos sete possíveis temas, inicialmente, e preparamos vídeos que, aos poucos foram sendo colocados no Instagram. Mas também espalhamos em grupos de WhatsApp, para que possam circular pelo Brasil", conta. 

Agora, o grupo de 18 pessoas - além do professor, são 17 estudantes de graduação - têm preparado vídeos para responder dúvidas que têm chegado. Um dos próximos a ser divulgado é uma animação. Além disso, todos os vídeos contam com legenda (para as pessoas com deficiência auditiva que não sabem Libras) e têm audiodescrição para quem tem deficiência visual. 

A produção começou logo na primeira semana do isolamento social, quando as aulas foram suspensas em todo o estado. Por videoconferência, o grupo se reuniu e definiu os temas e gravações de cada postagem. 

"Como o assunto era urgente e a gente tinha que produzir rápido, os sete primeiros vídeos foram produzidos de uma vez, com cada um em sua casa. Eles foram sendo postados aos poucos", diz o professor. 

O projeto também costuma atualizar as informações. No início, por exemplo, explicaram em vídeo que a orientação para as máscaras era de que apenas pessoas doentes e profissionais de saúde deveriam usá-las. Quando a orientação do Ministério da Saúde mudou, logo fizeram um novo material sobre isso. 

"A língua nos torna humanos e pode significar vida ou não. Se você recebe uma informação na sua língua, você se cuida e cuida do outro. Quando você não tem acesso à informação na sua língua, você se torna, sem querer, um perigo para si e sua volta. Se o diretor da OMS (Organização Mundial da Saúde) fala em inglês, é comum que jornais dublem para atingir toda a população que não fala inglês. As Libras também vêm nesse sentido de dar acesso", reforça. 

4. Professoras usam a musicoterapia para promover a saúde mental no isolamento

O cuidado com a saúde, em tempos de isolamento social, não deve ser entendido apenas como o tratamento do corpo físico. É preciso cuidar das angústias, das ansiedades e do medo do desconhecido. Foi por defender isso que as professoras Renata Fantini e Maria Carolina Leme Joly, especialistas em musicoterapia do Departamento de Artes e Comunicação (DAC) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), criaram o projeto Notas de Saúde. 

A série busca abordar a escuta musical de forma leve e interativa. Desde a semana passada, indicam obras musicais que valorizem união, trabalho colaborativo e diversidade, sempre com abordagem musicoterapêutica. 

"Começamos a pensar como a música poderia trazer uma mudança de pensamento para as pessoas, uma energia que mobilizasse outros sentimentos diferentes dos que a situação de isolamento vinha trazendo", explica a professora Maria Carolina. 

Semanalmente, as professoras apresentam diferentes estilos de música, com mensagens acolhedoras. A ideia é também se conectar aos diferentes gostos musicais. 

A própria UFSCar, após paralisação das aulas, provocou professores a pensar em formas de continuar se comunicando com os alunos e com a comunidade externa. Assim, as Renata e Maria Carolina refletiram sobre como poderiam ajudar nesse contexto. 

As professoras Maria Carolina e Renata, da UFSCar, criaram um projeto de musicoterapia 
(Foto: Acervo pessoal)

Para Maria Carolina, é fundamental oferecer ferramentas de suporte para as pessoas lidarem com as situações, especialmente diante de instabilidades psíquicas. 

"A música tem o poder de trazer as pessoas para junto mesmo que elas estejam separadas e já vimos isso acontecendo em situações de instabilidade social. A musicoterapia surgiu a partir das grandes guerras mundiais, pela necessidade de um acalanto, de sensibilização das pessoas", pontua. 

O projeto deve seguir sendo compartilhado nas páginas do Facebook do Laboratório de Musicalização da UFSCar e da Orquestra Experimental da universidade.

5. Com o jornalismo científico, comunicadores buscam combater a desinformação

Com tantas pesquisas à disposição, a comunicação com a imprensa e com a sociedade em geral ganhou um reforço extra. Foi pensando em contribuir com informação de qualidade e com a própria divulgação científica que doutorandos do programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom) passaram a fazer parte da Rede Covida - Ciência, Informação e Solidariedade. 

Com uma equipe de cerca de 150 pesquisadores de todo o Brasil, coordenados pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), da Fiocruz Bahia, e da Universidade Federal da Bahia (Ufba), a Rede Covida foi criada há pouco mais de um mês, quando a pandemia chegou ao Brasil. 

Mas, entre epidemiologistas, matemáticos, estatísticos e outros profissionais de saúde monitorando o avanço do coronavírus numa abordagem multidisciplinar, era preciso que alguém traduzisse essas informações.  

Dos 28 voluntários que compõem o grupo de comunicação, a maioria passou pela Faculdade de Comunicação (Facom) da Ufba. Muitos são integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-Line (GJOL) e do Grupo de Pesquisa em Gênero, Tecnologias Digitais e Cultura (GIG@). 

Sob a coordenação da jornalista Raíza Tourinho, da Fiocruz; da jornalista Mariana Alcântara, doutoranda em Comunicação e Cultura, e da professora Suzana Barbosa, diretora da Facom, o grupo lançou um glossário de termos científicos e tem preparado um guia de cobertura jornalística para a Covid-19. 

"O que se fala é que a gente vive uma infodemia de Covid-19. A desinformação, por parte da população, com relação à pandemia, tem escancarado cada vez mais a falta de letramento científico por parte da população. As pessoas não sabem o que é ciência, como funciona a ciência e acreditam em remédios e soluções milagrosas", diz Mariana Alcântara. 

Diariamente, o grupo se reúne às 9h para traçar as ações. Os pesquisadores levantam tudo que foi publicado sobre a Covid-19 naquele dia, em todas as plataformas científicas. A partir disso, revisam e fazem relatórios e recomendações sobre a doença. 

"O grupo de comunicação pensa em como comunicar. Estamos fazendo releases para a imprensa, trabalhando com redes sociais, tirando dúvidas, fazendo webnars para um público diversificado e boletins. Tudo é feito de forma fundamentada em ciência", explica Mariana. 

Como a Rede Covida, ainda que sediada na Bahia, tem feito um trabalho a nível nacional, a comunicação também é destinada ao país como um todo. Esta semana, eles uma chamada para estudantes de graduação voluntários que queiram participar da iniciativa. Podem ser inscrever alunos dos cursos de Comunicação, Letras e Bacharelado Interdisciplinar em Artes da Ufba até este domingo (19). 

Os releases, por exemplo, vêm como uma espécie de tradução do jargão científico para uma linguagem mais acessível para os jornalistas. "A gente vê que tem jornalistas de esporte fazendo reportagens sobre coronavírus, por exemplo, mas eles não foram treinados exatamente para o jornalismo científico. A gente quer fazer essa ponte, uma mediação do trabalho dos cientistas para os jornalistas, que, por sua vez, fazem para o grande público", completa. 

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