Conheça o modelo indígena baiano que é estourado na internet e fez sucesso na SPFW

bahia
01.09.2021, 05:30:00
Atualizado: 01.09.2021, 10:33:37
Noah Alef tem 20 anos e é baiano de Jequié (WAY Model/Divulgação)

Conheça o modelo indígena baiano que é estourado na internet e fez sucesso na SPFW

Noah Alef esteve em Brasília na luta contra o Marco Temporal e defende que a moda se abra para mais corpos e perfis

É possível que você conheça Noah Alef, um rosto muito popular no Instagram, onde tem 233 mil seguidores, além de redes sociais como Kwai e Tik Tok, por onde gosta de publicar suas biscoitagens, como ele mesmo gosta de dizer. Indígena de origem pataxó, o baiano de Jequié é mais um da terra que vem conquistando espaço no mundo da moda e contribuindo para construir passarelas mais inclusivas e plurais.

Quem vê a desenvoltura de Noah na modelagem e também escuta a fala segura nem imagina que o rapaz, de 20 anos, classifica a timidez como um de suas grandes características. “A moda está me ajudando a mudar isso, mas ainda sou muito observador e não costumo tomar a iniciativa nem sair falando com todo mundo quando chego a um ambiente novo”, afirma.

O fato é que Noah chama atenção: com 1,85m de altura, ele nem precisou ter muita experiência para ser selecionado pela WAY Model, sua primeira agência e para quem trabalha até hoje, após ser descoberto pelo scouter (palavra em inglês que designa um olheiro) Vivaldo Marques, um dos grandes reveladores e descobridores de talentos aqui na Bahia.

“Vivaldo chegou em mim pelo Instagram quando eu só usava por usar mesmo. Não era modelo nem nada, só gostava de moda por viver num ambiente com muitas costureiras, como minha mãe é”, conta. 

Noah desfilou no São Paulo Fashion Week em 2020

(Foto: Way Model/ Divulgação)

A estreia dele foi no São Paulo Fashion Week (SPFW) do ano passado. “Foi muito legal porque comecei com um trabalho que valorizou muito pessoas negras e indígenas, além de nossa estética. Quero que meu trabalho ajude a valorizar nossos traços, raízes, a moda pode ajudar na autoestima de muita gente”.

Antes de se jogar na moda, Noah era empacotador na mesma empresa que a mãe trabalhava costurando e também fazia bicos como ajudante de pintor. Em Jequié, a Cidade Sol, também trabalhou panfletando e como barman em festas.

“No começo achei que não iria passar porque não tinha ninguém com meu perfil, não via indígena no mercado. Hoje esse perfil existe, há uma busca maior por representatividade e fico feliz por fazer parte disso e talvez ser até pioneiro”.

São paulino, ele também divide o coração com o Bahia, além de ser fã dos Racionais e de Brô MC's (o primeiro grupo de rap indígena do país). Noah sempre teve uma vida muito urbana, mas se aproximou de sua história indígena ouvindo seus avós e busca referências para conhecer mais a si mesmo e continuar inspirando garotos como ele.

O modelo é muito combativo. Na última semana, esteve em Brasília junto aos mais de 6 mil indígenas que ocuparam a Esplanada dos Ministérios lutando contra o marco temporal, que será julgado pelo plenário do Supremo Tribunal Federal hoje.  

Nas mãos dos ministros está a decisão sobre o futuro de 303 demarcações de terras indígenas em andamento no Brasil, um direito fundamental dos povos originários, previsto na Constituição Federal. O STF vai julgar se cabe ou não aplicar sobre as demarcações novas ou em andamento a regra do marco temporal. Defendido por ruralistas, a tese defende que uma terra indígena só poderia ser demarcada se for comprovado que os índios estavam no local até a data da promulgação da Constituição, ou seja, no dia 5 de outubro de 1988. 

Noah percebeu a importância da causa e no acampamento viu o quanto é conhecido: “Fui lá lutar pelos nossos direitos. Foi uma experiência muito legal, senti aquele calor de estar entre família. (...) Nossa história não começou em 1988 e é muito importante que a gente afirme isso”, dá o recado.

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