Covid no balaio: feiras de Salvador têm aglomerações e feirantes sem máscara

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30.06.2021, 05:00:00
Nas feiras de Salvador, é comum ver pessoas sem máscara (Nara Gentil/ CORREIO)

Covid no balaio: feiras de Salvador têm aglomerações e feirantes sem máscara

Especialistas dizem que é possível ser contaminado mesmo em espaços ao ar livre

São 11h da manhã e a Feira de São Joaquim está lotada. A feirante Neide Pereira, 48 anos, não se incomoda em ficar sem máscara. Ela grita anunciando as frutas e verduras que vende em sua barraca como se não houvesse pandemia. Se ela tiver infectada pela covid-19, os perdigotos, ou seja, gotículas contaminadas de saliva vão sair da sua boca e atingir até dois metros de distância. O cliente que passar pelo seu ponto de venda sem máscara e sem esse distanciamento vai ser contaminado pelo vírus. 

Segundo os especialistas, quem não usa máscara tem um potencial de transmissão ou infecção da doença aumentado exponencialmente. “Num diálogo, para você ter quase 100% de proteção, é preciso que os dois usem a máscara e fiquem distanciados. Se um tira o equipamento, a chance de contaminação reduz pela metade. Se os dois não usam, estão totalmente vulneráveis à infecção”, alerta a coordenadora do curso de medicina da Faculdade UnesulBahia (Rede UniFTC), a epidemiologista Lucélia Magalhães. 

Na barraca da dona Neide, ela até tenta manter o distanciamento entre outros profissionais, mas às vezes vários clientes se aproximavam ao mesmo tempo, pegam na mercadoria, ficam pertos uns dos outros e uma inevitável aglomeração é formada. Por causa da quantidade de pessoas no local, alguns ainda precisam gritar para serem escutados, o que ajuda ainda mais na disseminação do vírus.    

“Normalmente, ninguém reclama por eu estar assim. Eu também sempre uso, mas é que agora eu mandei pegar o almoço e estava tomando água. Por isso que tirei”, justificou a feirante. Mas em todo o momento que a reportagem esteve no local, Neide não colocou a máscara no rosto. “Medo a gente tem de pegar o vírus, mas eu considero que me cuido sim”, disse. 

Os gritos não são a única maneira de espalhar os perdigotos. De acordo com Lucélia, isso acontece também quando as pessoas tossem, espirram e até falam. “Se a pessoa gritar e geralmente em feira eles fazem isso, se o lugar não tiver com muita ventilação e becos de feira não tem, e se a pessoa tiver com menos de 1,5 metro de distância, são altas as chances de contaminação”, explica a médica, alertando para a necessidade do uso do equipamento.  

“Use máscara. Essa é uma recomendação importante. A feira, mesmo sendo ao ar livre, tem momentos de muita proximidade. Às vezes as pessoas se afastam, mas logo depois estão juntas, passam por um local apertado. É nesse instante que a contaminação pode ocorrer”, diz. 

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Desinformação atrapalha implementação de medidas de segurança 
Na entrada da Feira de São Joaquim, o carreteiro Moacir Araújo, 40 anos, nem se importava de usar a máscara no queixo. Ele falava de forma tranquila e sem distanciamento com dois amigos motoboys – que também não usavam corretamente o equipamento - enquanto aguardavam aparecer um trabalho. A atitude do grupo contrastava com o que se lia na placa instalada pelo Sindicato dos Feirantes (SindFeira): “Use máscara. A covid-19 não é uma gripezinha". 

"Não tenho medo de me contaminar, pois sou de Cristo Jesus. E o propósito dele para minha vida é bem maior do que qualquer merdinha", explicou Moacir, quando foi questionado sobre o uso incorreto do equipamento de proteção. "Quem me protege é Deus. É algo espiritual isso. Não pego nada", disse, convicto. Se Moacir for contaminado e desenvolver a forma grave da doença, poderá precisar de uma UTI. Às 19h dessa quarta-feira (16), 79% dos leitos do tipo estavam ocupados em Salvador.  

“Nesse momento em que estamos da pandemia, não usar máscara é uma atitude que vai na contramão da ciência e que nos gera uma preocupação imensa para que não aconteça um colapso no sistema de saúde nas próximas semanas”, alerta o imunologista e professor da UniFTC, Celso Santana. Para o especialista, o que acontece na Feira de São Joaquim é um misto de desinformação com falta de fiscalização.  

“A informação qualificada não está chegando para essas pessoas. Na minha opinião, elas não estão conscientes do risco que correm. Agora, também está faltando fiscalização. É preciso enviar brigadas voluntárias de pessoas distribuindo máscaras de graça e informando sobre a importância das suas atitudes”, defende. 

Infectologista da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Adielma Nizarala explica que não há fiscalização que dê conta de tanto desrespeito. É preciso, para ela, mais conscientização da população. “É uma cadeia de eventos que acontece através do não uso da máscara. Além de não se proteger e não proteger o outro, essas pessoas ajudam a normalizar esse comportamento. Outros a imitam e aí o vírus se espalha, aumentam os casos, internação e óbitos”, lamenta.  

“O cenário ideal é distribuir o volume imenso de pessoas que circulam por lá ao longo do dia. As pessoas podem também escolher ir nos horários mais vazios. Não dá para o poder público fiscalizar tudo. É algo que depende mais da conscientização e responsabilidade social. Se eu vi que um local está cheio, não entro, vou para outro que está mais vazio”, explica. 

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Feira de São Joaquim é espaço tradicional do mercado informal soteropolitano 
Segundo o SindFeira, entre feirantes, carreteiros, ambulantes e outras ocupações, cerca de cinco mil pessoas trabalham no local que tem, em média, 2,5 mil boxes e 1,2 mil bancas. O local é considerado um polo de abastecimento de Salvador, Região Metropolitana e Recôncavo Baiano. De lá, saem também materiais artesanais e religiosos. O povo de santo, por exemplo, é frequentador da Feira, onde são encontrados artigos fundamentais para obrigações.  

A ialorixá Ana Vitória, 50 anos, vai toda a semana a Feira de São Joaquim e chega a gastar até R$ 1 mil por mês no local. “O axé é grande, a demanda é grande e temos que dar conta”, explica. Ela, no entanto, não usava máscara enquanto fazia as compras. “Apesar de estarmos numa pandemia, não sinto medo nenhum, pois o pessoal aqui busca estar protegido. Eu acho que é um ambiente seguro”, afirmou.  

Mas a epidemiologista Lucélia Magalhães lembra que, mesmo que Ana Vitória só frequente barracas onde os feirantes usam máscara, ela pode ser contaminada. “O ideal é que todos usem máscara. O equipamento mais ideal é a chamada máscara N95, o que não costuma ser acessível pelo preço. Então, recomendamos duas máscaras de pano boas, com uma importante vedação”, explica.  

No ano passado, ainda no início da pandemia, em maio de 2020, o CORREIO apurou que já haviam três mortes de trabalhadores no local ligadas à covid-19 e uma feirante estava na UTI. Não há, no entanto, uma contagem oficial da quantidade de casos e óbitos entre os trabalhadores da Feira. “As últimas notícias que a gente tem de óbitos sobre covid foi quando foi publicado essa matéria. Nessa segunda onda, não ouvimos falar”, garantiu o presidente do sindicato, Nilton Ávila.   

“Essa questão das máscaras é um problema mesmo. A gente faz ações colaborativas, chega em cada pessoa, pede mesmo para respeitarem, fazemos informe publicitário. Agora a verdade é que população, a cada dia que passa, parece desrespeitar mais e isso é um problema”, lamenta. 

O ambulante Jackson Pereira dos Santos, 64 anos, mesmo tendo tomado as duas doses da vacina, mantém todos os cuidados e é um bom exemplo no local. “Eu, particularmente, tenho medo. Não quero ser infectado e nem passar para ninguém. Mas ainda existem pessoas que insistem em não usar a máscara. Pelo que escuto, são pessoas que seguem o que o presidente diz. Ele não usa a máscara, influencia os outros a não usar. Só que temos que confiar é na ciência”, afirma. 

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Outras feiras de Salvador têm mais uso de máscara, mas aglomeração é uma realidade 
O CORREIO também circulou por outras feiras de Salvador. Em Itapuã, o movimento era tranquilo e a maioria das pessoas usavam máscara. O mesmo foi observado na Feira das Sete Portas. No entanto, em ambos os locais, segundo os próprios comerciantes, por não haver um controle de acesso, era difícil manter o distanciamento social.  

“Você sabe como é feira, né, meu filho? As vezes a gente tá aqui e não chega ninguém. Mas é só um se aproximar que desperta o interesse no outro e aí não tem jeito. As pessoas ainda precisam se educar. Eu uso minha máscara, tenho meu álcool em gel, já tomei a primeira dose da vacina. Mas não tenho medo de ser contaminado, pois precisamos trabalhar”, disse o feirante Antônio de Oliveira Lima, 51 anos, que trabalha na Sete Portas.  

O Imunologista Celso Santana, lembra que mesmo os que estão vacinados precisam usar a máscara e manter todos os cuidados. “É fundamental que se mantenha o uso do equipamento para conter o avanço da covid-19, pois mesmo as pessoas que foram vacinadas podem transmitir o vírus e podem se contaminar. As pessoas veem nos noticiários que em outros países já não usam máscara, mas lá a vacinação está acelerada. Aqui estamos numa situação dramática”, explica.  

Já na Avenida Joana Angélica, Centro de Salvador, as cenas de aglomerações eram mais constantes, formadas também por causa da circulação de pessoas em direção à Avenida Sete ou Estação da Lapa. Por lá, o uso de máscara entre os feirantes era mais comum, mas ainda assim foi possível enxergar pessoas que não usavam o equipamento de proteção.  

Uma feirante que não quis ser identificada disse que tinha tirado o equipamento para poder comer. No entanto, enquanto ela falava com o CORREIO, não consumia mais nenhum alimento. “Aqui a venda tá fraca, parado mesmo. Mas se vier algum consumidor, eu coloco a máscara”, disse.  

Com apenas 19 anos e longe de ser vacinado, o feirante Alisson Silva sabe que não tem outra saída a não ser se proteger. Ele utilizava uma máscara “Eu não tenho medo dessa doença, mas acho que preciso fazer a minha parte para a pandemia acabar logo. Se todo mundo respeitasse as regras, acho que estaríamos numa situação melhor”, defendeu.  

Em todos os locais, o CORREIO também abordou pessoas que não usavam máscaras que não quiseram se pronunciar sobre o assunto.  

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Máscara N95 é considerada a melhor opção
As máscaras PFF2/N95 conseguem reter melhor as gotículas emitidas quando alguém fala, grita, tosse ou espirra. Por isso, elas são consideradas as melhores do mercado. Mas isso não quer dizer que as outras - sejam as cirúrgicas ou as de tecido - não sejam eficientes. 

Um estudo da Universidade Duke, nos EUA, avaliou 14 tipos de máscaras faciais no ano passado e classificou a N95 como a melhor delas. Contudo, todas as que eram feitas de algodão também tiveram um bom desempenho. Em média, elas conseguiam eliminar de 70% a 90% das gotículas que saíam pela fala. A diferença, segundo a epidemiologista Naiá Ortelan, foi devido ao tom de voz e ao ajuste das máscaras no rosto. 

"Máscaras de algodão e polipropileno se mostraram ainda mais eficazes. Não se recomenda utilizar máscaras feitas com tecidos de camiseta, malhas, crochês ou tecidos com tramas mais abertas, tampouco máscaras feitas com aquele plástico do face shield. Bandanas e lenços dobrados também não são eficazes", alerta Naiá, que é colaboradora da Rede Covida, formada por pesquisadores da Ufba e da Fiocruz. 

Aquelas de camada única feitas de lycra ou elastano também devem ser evitadas. Em todos os casos, precisam estar bem ajustadas ao rosto. Não adianta apenas que o material seja bom, se a máscara está frouxa ou não cobre todo o nariz. Além disso, as de pano devem ser limpas com frequência. Depois de duas horas de uso, precisam ser trocadas e lavadas. 

Elas podem ficar mais seguras desde que a vedação seja bem forte. Na internet, dá para comprar ‘fixadores’, materiais que deixam a máscara bem rente ao rosto. Alguns vídeos ensinam a fazer um em casa com borrachas (veja abaixo), mas tem métodos até mais fáceis. Entre as saídas recomendadas pelos cientistas, há desde usar esparadrapos até combinar duas máscaras - uma cirúrgica (que filtra bem) e uma de pano mais ajustada ao rosto.

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Tipos de máscara e sua eficiência segundo estudo da Universidade de São Paulo (USP) 
N95
- 98%,  
Cirúrgicas - 89% 
TNT - 78% (Esse é considerado o melhor material para a fabricação caseira de máscaras). 
Algodão - Entre 20% e 60% (Não é a melhor opção para máscaras caseiras) 

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 

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