Crochê é mais coisa de homem do que você imagina; saiba por quê

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29.08.2021, 05:00:00
Lucas fez a primeira peça de crochê aos 9 anos, uma borboleta para sua mãe (Divulgação)

Crochê é mais coisa de homem do que você imagina; saiba por quê

Cada vez mais eles aderem às linhas e agulhas e se destacam nas redes sociais; veja quem seguir

Quem disse que crochê não é coisa de homem? A cada geração que chega, o muro da masculinidade tóxica diminui de tamanho e se abre um horizonte bem mais amplo que futebol, cerveja e carros esportivos. Estamos aprendendo a tricotar conteúdo, não rótulos. Até o que parecia coisa de velho, essa nova galera transforma em arte moderna e nos ensina que lugar de homem também é onde ele quiser. Com apenas 13 anos, Lucas Ribeiro faz milagres com uma agulha de crochê e linhas. Tapete, almofada, chaveiro, borboletas, cachecóis, bolsas, nada parece impossível para o jovem baiano. O melhor disso tudo? Ele não está só. Bem-vindo ao mundo dos crocheteiros.

Ainda não tem um estudo mostrando quantos homens aderiram ao crochê, mas não é preciso ir muito longe para constatar que essa arte virou hobby masculino. Basta dar um Google. É presidiário que passou a fazer crochê e mudou de vida, pessoas que transformaram o tricô em profissão, maneira de combater a depressão ou, simplesmente, por diversão, como foi o caso de Lucas. Na verdade, foi uma feliz coincidência.

“Eu achei interessante uma luva de tricô e fui procurar no Youtube sobre ela. O algoritmo me levou a vários vídeos de pessoas ensinando a fazer crochê. Fui me interessando e fazendo. Nunca fiz a tal luva, mas faço de tudo com o crochê”, lembra Lucas, que fez sua primeira peça quando ainda tinha 9 anos. Foi uma borboleta, para a mãe.

Lucas mora em Muritiba, a 114 quilômetros de Salvador. Apesar de ter tias que gostam de artesanato, ninguém além do Youtube ensinou a ele a arte do crochê. Foi a tecnologia a favor da arte. “Eu nunca ensinei um ponto a ele. Aprendi a fazer crochê na minha adolescência, mas nunca fiz nada na frente dele. Ele foi se virar sozinho. Me pediu linha, agulha e foi embora. Começou com pulseira e foi se empolgando. Até que começou a chegar encomendas de tapete, almofada, bolsa... Tudo! A gente, claro, fica empolgado ao ver ele se divertindo com isso”, conta a mãe de Lucas, Dinamara Ribeiro, 48 anos.

Dinamara só tem a agradecer ao crochê pela integridade da casa. “Esse menino gosta de patins e ginástica olímpica. O problema é que ele queria praticar dentro de casa. Com o crochê, ele ficou mais concentrado. E sentado”, brinca a mãe. O crochê também ajudou muito Lucas durante a pandemia.

“Foi o período que eu mais fiz crochê. Foi um pouco de salvação nesta pandemia, pois me deixou ativo. Não fiquei parado”, disse Lucas, que exagerou um pouco no amor pelo crochê. “Quando começou a aula online, tinha vezes, em disciplinas chatas, que eu desligava o vídeo e ficava fazendo crochê”, confessa. “Muitas crianças ficaram ociosas neste período, ele não. Era o Netflix ligado e tome-lhe crochê. Só não gostei quando flagrei ele tricotando durante a aula online”, completa Dinamara, que depois do flagrante obrigou o filho a deixar o vídeo sempre ligado.

Seu Jorge tem um perfil no Instagram específico para mostrar seu tricô (Foto: Reprodução)

Lucas assegura que não é difícil começar uma peça de crochê. “Tem peças que é possível fazer em um dia, como chaveiros, mas outros podem durar semanas, como uma almofada. São desafios. Tem algumas coisas que acabei desistindo no caminho e desmanchei. Outras vou até o fim. É um exercício de paciência, mas vale a pena”, explica. 

Para quem quer iniciar, é preciso ter a agulha que lembra um gancho, linha, paciência e o Youtube ligado para aprender os primeiros passos. Também é bom uma tesoura e pequenas pecinhas chamadas marcadores de ponto. No crochê existem diversos pontos, que são as manipulações feitas na linha que fazem as formas. Para iniciantes, três pontos são fundamentais: alto, baixo e o baixíssimo. A combinação deles faz formas incríveis no crochê. São grandes desafios para o homem que pretende aderir a esta arte, mas muito menos difícil que outro obstáculo: o preconceito.

“Apesar de incentivar, meu marido teve um pouco de resistência, pois ele temia rótulos. Lucas pediu para levar seu trabalho ao colégio. Eu disse 'filho, se alguém te disser qualquer coisa, que não é uma atividade de menino, você já vai preparado. Diz que é um preconceito da pessoa. Independente de idade ou gênero, o crochê é para todo mundo'. O bom é que não foi preciso. A escola, os amigos, todos adoraram”, lembra Dinamara.

Recentemente, a escola de Lucas retornou às aulas presenciais. Ele presenteou todos os professores com chaveiros de crochê. “Fez 15 em apenas um domingo”, completa Dinamara.

Sem rótulos
Para o psicólogo Valter da Mata, o primeiro desafio do homem é quebrar os rótulos que o envolvem. Só assim, poderá fazer o que gosta sem se preocupar com o julgamento de uma sociedade machista. “Um menino que é bom em crochê. Isso remete a uma crença básica que crochê não é coisa de menino. É preciso confrontar esta crença. Isso é tão angustiante e faz parte de um calabouço ideológico que é extremamente limitante e que não resiste a um argumento racional nem por um minuto”, assegura o professor de psicologia da UniFTC, que acrescenta a mudança de valores da cultura moderna que vivemos.

“A palavra honra foi riscada da nossa forma de pensar quanto valor. Hoje queremos falar de sucesso e o sucesso é pessoal. Isso faz com que as pessoas passem a dispensar o rótulo social. Se você não gosta do que eu faço, problema seu”, completa.

O atleta britânico Tom Daley é um bom exemplo de que a luta contra o preconceito é constante. Ele foi medalhista de ouro no salto ornamental das Olímpiadas de Tóquio, mas ganhou destaque ao mostrar serenidade ao crochetar enquanto aguardava sua vez de saltar. Ganhou o ouro e ainda deu tempo de fazer uma porta medalha.

No seu Instagram, Daley exibe um trabalho minucioso com a agulha e linha. Mesmo assim, não deixou de sofrer ataques. A TV russa Rossiya 1 teceu comentários homofóbicos, o chamando de sujo e pervertido. Daley respondeu com a mesma classe com que produz um tapete. “A história mostra que tudo na sociedade foi ditado pela experiência heterossexual, branca e masculina. Se nós pudéssemos nos unir e usar diferentes pontos de vista, o mundo seria um lugar melhor”, disse o atleta ao jornal britânico The Telegraph. Tom é casado com o norte-americano Dustin Lance Black. E daí?

O Vovô do Crochê começou a mexer com a agulhas e linhas após um infarto (Foto: Divulgação)

O crochê mostra que gostar de algo não significa pertencer a rótulos. Assim como Daley, João Stanganelli é casado, mas com dona Marilena. O paulista tem 66 anos, o britânico Daley, 27. Mesmo com as diferenças, ambos amam o crochê. Conhecido como Vovô Crocheteiro, Stanganelli tem 24 mil seguidores no Instagram e se dedica a fazer amigurumi, bonequinhos de crochê. Vovô tem vitiligo desde os 38 anos e resolveu fazer a Vitilinda, personagem infantil com vitiligo. João leva cerca de 5 dias para produzir uma boneca e acredita já ter vendido e doado mais de 200 pelo Brasil. Detalhe: ele também customiza Vitilinda, fazendo-a com as aparências de quem encomenda.

“Essas bonecas são símbolos de autoestima, resiliência, dignidade, resistência, representatividade e empoderamento. O diferente protagoniza nossas vidas, e mais: viver fora dos padrões estabelecidos é um direito inalienável e um exercício de liberdade. Comecei a fazer as bonecas após um enfarte, em 2016. Pode parecer estranho, mas humildemente sou grato pelo infarto. Foi o ponto de mutação e sou feliz pela sorte de estar ainda por aqui e de forma significativa”, disse Vovô Crocheteiro, que atualmente mora em Guarulhos (SP).

Ele também adora jogar basquete, tomar cerveja e ouvir música celta. Antes do infarto, ele trabalhava com panificação, mas atualmente tem orgulho de dizer que é um profissional do crochê.

Aliás, o que não falta é homem largando de besteira e ganhando seu dinheiro com crochê. Aos 28 anos, Rodrigo Morais é interprete de libras, mas também dá curso de crochê e vende seus produtos por todo o Brasil. O seu Instagram (@elenocroche) tem 55 mil seguidores e dá dicas de como fazer bolsas e outros produtos. Sua especialidade é o fio de malha e já contabiliza mais de 400 alunos nos seus cursos online.

“A procura no meu perfil de homens querendo aprender crochê tem sido muito grande. Antes, 90% de meus seguidores eram mulheres. Isso mudou muito. Todos os dias recebo mensagens de homens mandando vídeos e fotos de cestos de crochê que eles estão fazendo e querem dicas para poder presentear seus namorados ou namoradas. Os homens são caprichosos, mas ainda temos um caminho longo a percorrer contra o tabu”, conta Rodrigo.

Terapia
Durante a pandemia, o aumento de homens procurando cursos de crochê chamou atenção de Rodrigo. “Houve um aumento muito grande.  Antes, as pessoas queriam comprar os produtos prontos, mas teve demanda muito grande de pessoas querendo aprender durante o isolamento. É o máximo ver homens e jovens se interessarem pelo artesanato em geral. Antes eram avós, mães, tias. Hoje não existe gênero, nem idade. Isso é muito bom”, completa.

O psicólogo Valter da Mata acha bom o crochê servir como “remédio” para enfrentar este momento, mas não deve ser uma forma de fugir dos problemas. “Não gosto de chamar de fuga. Fuga significa que você não está enfrentando seus problemas. Não é o caso. O crochê é uma boa opção para repensar algumas coisas nesta pandemia.

Ao invés de enfrentar a montanha, uma pessoa que busca este remédio artesanal enxerga que dá para contornar esta montanha e seguir em frente. Esta distração é apenas uma forma de repensar mesmo, um remédio de enfrentamento, uma forma de entrar em contato com ele mesmo ou simplesmente um passatempo. Isso é bom, principalmente quando ele se desafia, criando coisas novas”, diz.

O crochê também pode ressocializar. Em 2019, antes mesmo da pandemia, presos da Penitenciária Adriano Marrey, em Guarulhos (SP), viram seus crochês na principal passarela do país. Detentos que participam do projeto Ponto Firme confeccionaram roupas e acessórios para o São Paulo Fashion Week (SPFW) daquele ano. Alguns detentos que ganharam liberdade, hoje trabalham com o estilista Gustavo Silvestre, que desenha roupas de crochê pelo mundo.

A técnica também é um excelente remédio para a cabeça. “A ação repetitiva dos trabalhos artesanais pode induzir a um estado de relaxamento semelhante ao alcançado em meditações e aulas de ioga, já que liberam serotonina e dopamina e diminuem os hormônios do estresse, o que reduz as dores mentais e físicas. Essas substâncias são as responsáveis pelas sensações de bem-estar e prazer. Além disso, podem ajudar a evitar um declínio na função do cérebro com a idade, reduzindo o risco de falhas leves de memória. Além do mais, a prática também pode reduzir depressão, ansiedade e dor crônica”, diz Emerson Bernardo Cohim, neurologista e professor da medicina da UniFTC. Crochê é vida!

Para seguir:
Ele no Crochê (@elenocroche) – 55,2 mil seguidores. Rodrigo Morais é especialista em bolsas e cestos, mas faz de tudo e ensina técnicas no seu perfil. Também vende peças e promove cursos online para quem pretende ser um crocheteiro;

Vovô Crocheteiro (@joaostanganelli) – 24 mil seguidores. João Stanganelli é um exemplo de superação. Em 2016, após um infarto, Vovô Crocheteiro resolveu aprender crochê com a esposa. Hoje, vende e ensina a fazer amigurumi, bonecos de crochê, com um detalhe: os bonequinhos têm vitiligo, assim como ele;

Júnior Crocheteiro (@juniorcrocheteiro) – 213 mil seguidores. Colcha e peças de moda são as especialidades de Júnior, que também tem canal no Youtube, ensina a fazer as peças e vende seu trabalho. Também faz tutoriais para os primeiros passos do crochê para interessados.

Novelo de Anjo (novelodeanjo) – 41,1 mil. Um perfil especial do artista Seu Jorge, que adora crochetar. Ele mostra seu trabalho com o crochê e dá dicas de material para iniciar na arte. Com agenda cheia, Seu Jorge não tem atualizado muito o perfil. A última publicação foi em junho;

Marcelo Nunes (@marcelonunescroche) – 357 mil seguidores. Crochê designer, Marcelo dá curso para quem quer aprender a fazer bolsas de crochê, mas também oferece videoaulas de graça para iniciantes. Faz tapetes, mesa de centro, tudo que uma agulha e linha podem fazer.

Pablo Crochê (@pablo.croche) – 81,1 mil seguidores. Também Youtuber, Pablo vende de tudo no seu perfil. Tudo que ele faz no crochê, lógico. Vai de conjunto para banheiro até roupa para botijão de gás. Ele aceita encomenda para todo Brasil e ensina também para a turma iniciante.

Tom Daley (@tomdaley) – 3,5 M de seguidores. Atleta britânico do salto ornamental, Tom ficou conhecido no mundo inteiro ao crochetar enquanto aguardava sua vez de saltar nas Olimpíadas de Tóquio. Ele levou ouro e fez uma porta medalha de crochê para seu prêmio. No perfil, não ensina a fazer crochê, mas mostra trabalhos que faz enquanto não está treinando.

Saiba mais
A história do crochê -
O crochê é democrático até na história. Não se sabe ao certo onde ele foi inventado, pois existem evidências de sua prática em diversos pontos do planeta. O que se sabe é que o artesanato é pré-histórico. Na China, bonecos chamados amigurumis já eram desenvolvidos há séculos. Na América do Sul também existem evidências em algumas tribos. Na Europa, acredita-se que chegou da Arábia, via rotas comerciais do Mediterrâneo. As formas e técnicas atuais, sim, tem origem certa. Nasceu na França, justamente onde ganhou este nome. Crochê vem de croké, que significa gancho, aquela ponta da agulha. A francesa Éléonore Riego de la Branchardière é considerada a mãe do crochê. Foi ela quem difundiu a prática e escreveu até livros sobre o tema, lá pelo ano 1800; 

The Guinness book - A maior colcha de crochê tem mais de 11.000 m² e está registrada no livro dos recordes. O indiano Subashri Natarajan foi autor da façanha, mas contou com mais de mil pessoas, que fizeram vários quadrados para depois se juntarem. A colcha dá para cobrir um campo de futebol.

Crochê x Tricô – A primeira diferença é na agulha. Ou melhor, nas agulhas.  Tricô utiliza duas, enquanto no crochê é apenas uma, com um gancho na ponta. As linhas também são diferentes. O tricô utiliza, a grosso modo, apenas lã, mais especificamente o fio Mollet. É mais usado para vestimentas, como luvas e roupas de frio. Já o crochê tem uma infinidade de linhas, como fios sintéticos (acrílico, nylon e poliéster), naturais (bambu e algodão) e animais (lã e caxemira).

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