De pele de boi a adesivo de prata, conheça tratamentos para queimaduras

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24.11.2019, 05:55:00
(Marina Silva/CORREIO)

De pele de boi a adesivo de prata, conheça tratamentos para queimaduras

Só no HGE são atendidos, em média, 1,8 mil pacientes por ano

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Os braços e a cabeça de Reinaldo* estão cobertos por uma camada gelatinosa. Horas antes, ele chegou irreconhecível no hospital, depois que um fio de alta tensão o atingiu. Agora, ele repousa numa cama, coberto pelo que, na verdade, são camadas de proteínas extraídas de bois e porcos. O uso de substâncias animais é apenas um dos métodos de tratamento de queimaduras na Bahia que incluem a aplicação de metais preciosos e curativos eletrônicos.

O colágeno dos animais foi colocado sobre o local da pele queimada, depois de retirada, numa cirurgia. Desde a década de 50, a proteína que compõe 70% da pele é utilizada para tratar queimados. Na Bahia, a utilização de proteínas animais na pele de humanos começou na última década. 

No corpo, o colágeno extraído dos animais e transformado em placas transparentes incentivam a produção de uma nova camada de pele. Depois de, em média, 14 dias, o colágeno já foi absorvido completamente pelo organismo do paciente. 

O procedimento é utilizado em casos de queimadura de terceiro grau, quando as três camadas da pele foram atingidas.  Até os músculos e ossos podem ter sido penetrados. No dia 14 de novembro, a queda de um avião em Maraú deixou 10 vítimas de queimaduras - sete sobreviveram e três morreram. Cinco pessoas foram transferidas para o Albert Einstein, em São Paulo, que não informou à reportagem o estado de saúde, nem os tratamentos realizados nos pacientes. 

“Quanto mais rápido se retirar o tecido morto, mais rápido e eficiente será o tratamento”, explica o cirurgião plástico Jiuseppe Greco.

A pele queimada, o maior e mais pesado órgão do corpo, é reparada em etapas, sem que uma exclua ou antecipe a outra. Os curativos, por exemplo, fazem parte de todo o processo. A prata, um dos metais mais preciosos, compõe um dos curativos mais utilizados. 

Na busca pela reconstrução da pele, até a temperatura do ar-condicionado e o uso de esmalte importam.

Cuidados
No segundo andar do Hospital Geral do Estado (HGE), onde funciona o Centro de Tratamento de Queimados, referência baiana no tratamento de queimados, a temperatura não passa dos 23ºC. 

As vítimas de queimaduras tendem a perder calor do corpo. É preciso, então, que os espaços não sejam nem tão quentes, nem tão frios. É um procedimento padrão das unidades. 

Hoje, em Salvador, além do HGE, os hospitais Aliança, Sagrada Família, São Rafael e das Clínicas também possuem setores específicos para o tratamento de queimados. Segundo a direção do HGE, não há superlotação nos 28 leitos da unidade, onde são atendidos, em média, 1,8 mil pacientes por ano. A ocupação é de, em média, 86%. 

Os funcionários circulam sem nenhum objeto nas mãos ou nos dedos. Nas unhas, o esmalte precisa estar intacto, pois o contrário pode resultar num ambiente propício a proliferação de bactérias. 

“Eu sempre digo o seguinte: a queimadura é a maior agressão que o corpo humano pode sofrer e ainda assim sobreviver”, diz Marcus Barroso,  responsável pelo CTQ do HGE.

A camada mais superficial da pele, a epiderme, leva até 28 dias para se regenerar. Já a mais profunda, a derme, chega a levar seis meses.  

Os curativos de prata são vistos na pele de todos os pacientes, independentemente da gravidade. Nos anos 60, pesquisadores descobriram que a prata inha efeito antibiótico. 

Os pacientes também são tratados com curativos eletrônicos. Uma esponja é aplicada sobre o ferimento, vedada por um papel específico, e ligada a um sistema eletrônico. 

Dessa forma, a ferida fica sujeita a uma pressão que incentiva a formação de novas células. A depender da gravidade do caso, uma queimadura que seria cicatrizada em um mês, pode ser ser curada em uma semana.

A recomendação do Ministério da Saúde, que possui uma cartilha específica para o tratamento de queimaduras, é que o ferimento seja interrompido somente com água fria e coberto por um tecido limpo até o paciente chegar ao hospital. 

Chegando até o osso 
O primeiro centro de tratamento de queimaduras para adultos, na Bahia, foi inaugurado em 1968, no extinto Hospital Getúlio Vargas, no bairro do Canela. O HGE, aberto em 1990, seria o sucessor da unidade. 

“Não existia lugar para tratar queimados aqui. Iisso foi acontecendo aos poucos”, lembra George Frempong, cirurgião plástico que participou dos trâmites de abertura. 

Desde então, a tecnologia evoluiu a ponto de os pacientes serem submetidos até a cirurgias completamente microscópicas. Em Salvador, começaram a ser feitas há  três anos. É uma espécie de autotransplante, compara o cirurgião Marcus Barroso. 

Colágeno animal utilizado para tratar queimaduras (Foto: Divulgação) 

Nesses procedimentos, músculos são realocados de um local saudável para o local afetado.  “Imagine um braço que perdeu o bíceps, por causa de uma queimadura. Eu consigo tirar músculo de outro local e fazer com que você mexa de novo”, explica. O fio utilizado para a remodelação é 10 vezes mais fino que um fio de cabelo.  

Nos casos de perda irreversível do tecido, o transplante é a única opção. Na Bahia, os trê únicos foram feitos neste ano. Segundo o Ministério da Saúde, não há fila de espera para transplante no Brasil. 

Hoje, conta o cirurgião Jiuseppe Greco, os esforços estão dedicados a testes com células-troncos. Os pesquisadores começam a se perguntar como, a partir do manejo de células que podem se adaptar a qualquer tecido ou órgão, seria possível reconstruir completamente a pele a partir do que o próprio corpo produz. 

Metade peixe, metade homem
A ideia de um grupo de pesquisadores vinculados à Universidade Federal do Ceará era tratar pacientes queimados com uma pele que incentivasse, principalmente, a cicatrização. Quando descobriram que 99% da pele da tilápia era jogada no lixo, decidiram usá-la. Há quatro anos, aconteceram os primeiros testes. 

Pele de tilápia sobre queimadura (Foto: Arquivo Pessoal/Edmar Maciel)

A pele do peixe foi testada num paciente em 2015. Os pesquisadores descobriram que a pele do peixe de água doce era rica em colágeno 1, importante para a cicratização. Desde então, o método já foi testado em 500 pacientes, contou Edmar Maciel, coordenador da pesquisa.

Ao ser colocada sobre a ferida, ela adere à pele e evita a contaminação de fora para dentro – o que evita, por exemplo, riscos de infecção.

“Ela fica ali, na ferida, até cicatrizar. Torna desnecessário que se troquem os curativos todo dia, o paciente sofre menos”, explica.

É necessário utilizar vaselina para desgrudar pele humana e pele de peixe. Antes de aderir à pele, a tilápia é limpa e esterilizada. Só então os pesquisadores enviam o material a um laboratório de São Paulo, que mata possíveis vírus a partir de jatos de irradiação. 

Agora, segundo Edmar, a ideia está sujeita a finalização de estudos para comercialização. Como ainda não foi liberada oficialmente pelo Ministério da Saúde, apenas a partir de autorizações específicas, a pele de peixe ainda não foi testada em nenhum baiano.

*O caso de Reinaldo*, nome fictício, foi contado por um médico, com preservação da identidade do paciente. 

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