De terceirização a parcerias inimagináveis, veja como são produzidos alguns carros

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08.05.2021, 05:07:00
Para reduzir custos, o Mercedes-Benz GLB é produzido em uma fábrica da Nissan no México e utiliza um motor feito pela Renault (Foto: Daimler)

De terceirização a parcerias inimagináveis, veja como são produzidos alguns carros

De compartilhamento de câmbio entre os rivais Camaro e Mustang, até motor Renault em carros da Mercedes-Benz, tudo para diminuir os custos

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Quem vê um carro pode não entender quantas empresas estão envolvidas no processo de construção. Vai além da aplicação de componentes fornecidos por teceiros, como a pneus e baterias. A marca do veículo, muitas vezes, é responsável pela concepção, mas em algumas situações nem é ela que monta. Até esse processo pode ser terceirizado, o que já aconteceu no Brasil. E ainda existem parcerias de empresas que não são de um mesmo grupo.

A propulsão, por exemplo, é fundamental para qualquer veículo, mas seu desenvolvimento é muito caro. Muitas vezes um automóvel passa várias gerações com um mesmo motor, que ganha evoluções, mas não muda. Por isso, as empresas trabalham em conjunto para desenvolver componentes e rateiam os custos. É comum entre marcas de um mesmo grupo, mas as vezes as parcerias extrapolam o que seria “normal” entre concorrentes.

Vocês desconfiava que os arquirivais Chevrolet Camaro e Ford Mustang utilizam a mesma transmissão de dez velocidades? No final de 2018, quando lançou a atualização do seu muscle car no Brasil, Carlos Zarlenga, presidente da General Motors Mercosul, explicou esse fato: “é muito difícil para uma marca generalista obter lucro com um produto de imagem, de nicho, como o Camaro e o Mustang. Por serem produtos do mesmo segmento, era uma forma de obter eficiência e redução de custo de forma saudável. Sem comprometer o compromisso de entrega para o cliente”.

A transmissão de 10 velocidades utilizada no Mustang é a mesma do Camaro (Foto: Marcio Bruno/Ford)

Mas não são só os americanos que fazem parcerias com seus concorrentes. O motor 1.6 THP que a Peugeot utiliza até hoje no mercado brasileiro, e que também chegou a ser montado em produtos da Citroën, foi desenvolvido em parceria com a BMW. A empresa alemã equipou, inclusive, os carros da britânica MINI com esses propulsores.

O motor 1.6 turbo do Citroën C4 Lounge foi desenvolvido em conjunto com a BMW (Foto: Pedro Bicudo/ Citroën)

Tem até motor da francesa Renault que estreou primeiro no Brasil a bordo de um carro da alemã Mercedes-Benz. E outro detalhe interessante: esse veículo, o GLB, é feito no México em uma fábrica da japonesa Nissan. Vai além: o mesmo motor vai equipar o Renault Captur a partir de junho, mas diferentemente do que ocorre com o GLB, no modelo francês será bicombustível.

Há também transmissões compartilhadas por veículos bem distintos. A caixa de marchas de oito velocidades produzida pela alemã ZF equipa produtos de várias montadoras: Aston Martin, BMW, Chrysler, Fiat,  Jaguar, Land Rover e vários produtos do Grupo Volkswagen, incluindo Lamborghini Urus e Porsche Cayenne, por exemplo.

A Aisin, uma empresa que faz parte do Grupo Toyota, fornece suas transmissões para diversas marcas. BMW, Chevrolet, Ford, Jeep, Mazda, Suzuki e Volkswagen utilizaram ou ainda utilizam câmbios e componentes dessa fornecedora japonesa.

Barriga de aluguel
Em Graz, na Áustria, cidade natal do ator e político Arnold Schwarzenegger, está instalada a Magna Steyr, subsidiária da empresa canadense Magna International. Essa unidade fabril não tem exclusividade e produz modelos distintos.

SUV elétrico da Jaguar é feito na mesma fábrica que modelos da BMW, Mercedes-Benz e Toyota (Foto: Fernanda Freixosa/ Jaguar)

Atualmente, são feitos lá os BMW Série 5 e Z4, os Jaguar E-Pace e I-Pace, o Mercedes-Benz Classe G e o Toyota Supra. Mas no currículo da empresa estão a produção de modelos da Audi, Fiat, Jeep e Volkswagen. No total, mais de 3,5 milhões de veículos saíram das suas linhas de montagens.

O complexo industrial da Magna Steyr, na Áustria, onde são produzidos carros de várias marcas (Foto: Magna)

A empresa austríaca também fazia as carrocerias de alumínio do Mercedes SLS AMG. Para a marca alemã, a Magna desenvolveu o sistema de tração integral dos Classe E produzidos entre 1996 e 2002. O teto conversível do SLK é feito pela companhia desde o seu lançamento, em 1996.

No Brasil, a Karmann-Ghia, inaugurada em maio de 1960, além de montar os coupés homônimos em parceria com a Volkswagen, produziu os Karmann-Ghia TC e SP-2. Essa unidade, que ficava em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, participou também da produção de veículos como o Ford Escort XR-3 conversível e, entre 1998 e 2005, Land Rover Defender. A Karmann-Ghia teve sua falência decretada no país no final de 2016.

O Land Rover Defender foi montando no Brasil pela Karmann-Ghia (Foto: Marcos Camargo/ Land Rover)

Na Europa, onde surgiu em 1901, ela foi responsável pela montagem de mais de 3 milhões de automóveis. Entre os modelos que passaram por suas instalações estão: Audi 80 e A4, BMW 635 CSI, Chrysler Crossfire, Ford Escort RS Cosworth, Porsche 911 (entre 1966 e 1971), Renault Mégane conversível e Volkswagen Fusca conversível (entre 1949 e 1980).

Troca de etiqueta
Se você viajar para a Argentina, por exemplo, poderá estranhar as logomarcas da Suzuki no Chevrolet Celta. Isso acontecia pois a General Motors, proprietária da marca Chevrolet, era acionista da japonesa Suzuki até 2008. No Brasil, ocorreu o contrário, quando o Suzuki Grand Vitara foi renomeado como Chevrolet Tracker.

Produzido no Brasil, o Chevrolet Celta era exportado para a Argentina como Suzuki Fun (Foto: Divulgação)

Logo no início da fusão entre a Fiat e a Chrysler, que deu origem a já extinta FCA - que já se fundiu com a PSA e formou a Stellantis -, a Fiat começou a produzir no México uma nova opção para o Dodge Journey. Assim, o motor V6 deu espaço para um propulsor de quatro cilindros e o emblema com o carneiro montanhês da Dodge deu espaço à marca italiana. A Fiat foi ao Japão para fazer uma parceria com a Mazda. O fruto disso é o 124, que tem a mesma base do MX-5. 

A parceria entre a BMW e a Toyota, firmada em 2011, prevê a utilização compartilhada de novas células de combustível de hidrogênio, tecnologia de baterias e uma nova plataforma para montagem do BMW Z4 e do Toyota Supra. 

Um mesmo produto, vendido por várias marcas que pertenciam à General Motors (Foto: GM)

Há também um caso de quadrigêmeos: Daewoo G2X, Opel GT (vendido nos EUA pela Buick), Pontiac Solstice e Saturn Sky foram apostas da GM na categoria dos esportivos. Com a mesma plataforma, esses produtos tinham duas opções de motor: 2.4 Ecotec, com 177 cv de potência, e 2.0 turbo, com 260 cv. E o sistema de transmissão podia contar com câmbio automático ou manual.

A nova geração da picape Amarok, da Volkswagen, está sendo desenvolvida pela Ford (Foto: VW)

Em 2023, os picapeiros que defendem seu utilitário de preferência com a mesma paixão de quem torce para um time de futebol terão um problema. Ford Ranger e Volkswagen Amarok serão basicamente o mesmo produto, com desenvolvimento maior feito pela Ford, mais experiente neste segmento do que a VW.

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