Desemprego faz soteropolitanos empreenderem mais durante a pandemia

salvador
13.05.2021, 05:00:00
A contadora Jéssica Casal foi convidada para participar da Feira da Cidade, no Shopping Paralela, com a loja que criou na pandemia, de produtos naturais (Acervo Pessoal )

Desemprego faz soteropolitanos empreenderem mais durante a pandemia

Número de MEIs cresceu 22% no último ano

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O estudante Lucas Lira, 25, já tinha aptidão para fazer doces e, com a pandemia da covid-19, decidiu formalizar seu negócio. Em janeiro de 2021, ele se registrou como Microempreendedor Individual (MEI) e, o que começou com a venda de brigadeiros no trabalho, como renda complementar, agora é o foco total do estudante.  

Assim como ele, outras 23.109 pessoas em Salvador se tornaram MEI. O número de microempreendedores individuais cresceu mais 22% na capital baiana, segundo a Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia (Sefaz-BA): são 126.737 em maio de 2021 contra 103.628 em janeiro de 2020.  

Na Bahia, o número também cresceu. De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), eram 540.934 registros de MEI em abril de 2020. Em abril de 2021, são 642.540. Ou seja, 101.606 novas microempresas surgiram no território baiano nos últimos 12 meses, o que equivale a um aumento de 18,8%.  

Do total de registros, os homens estão em maior número que as mulheres: 350.502  contra 292.038. Já os segmentos mais procurados pelos microempreendedores individuais são os de comerciante de artigos do vestuário e acessórios independentes, seguido de cabeleireiro e vendedor independente e, em terceiro lugar, o de merceeiro e vendedor independente (minimercado).  

Com o alto índice de desemprego no estado - que atingiu em 2020 uma taxa média de desocupação de 19,8%, e se tornou líder do desemprego no Brasil, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) -, muitas pessoas resolveram empreender e registrar seu negócio. As perspectivas para o Brasil em 2021 não são boas: devemos ter a maior 14ª maior taxa de desemprego do mundo.

Lei mais: saiba como montar um negócio entre a família

Esse é um dos principais motivos que a gestora do MEI na Bahia, Valquíria de Pádua, atribui ao crescimento. “Com a pandemia, muitas pessoas perderam o emprego e viram uma oportunidade de renda fazendo alguma atividade informalmente, e a facilidade que a formalização do MEI permite. Ele é gratuito, a pessoa vai estar formalizada e com vários direitos garantidos”, avalia Valquíria.  

Doces e beleza

Depois que perdeu o emprego, em setembro de 2020, Lucas resolveu focar na confeitaria @recantodosdoces. Ele sempre gostou de cozinhar, especialmente doces. “Como moro sozinho com minha irmã, sempre me virei na cozinha”, conta. O cardápio começou a crescer depois que os colegas de trabalho começaram a dar um retorno positivo. O mais pedido agora é o pavê de churros. 

Lucas Lira fez o registro de MEI em janeiro de 2021 e vive da renda dos doces da confeitaria. Crédito: Acervo Pessoal. 

Aos poucos, começou a levar a sério e, hoje, vive disso. A mãe ajuda apenas com o aluguel. “Hoje resolvi focar totalmente para ser minha renda principal. Saí da loja de telefonia, na Tim, a pandemia veio e eles tiveram que fechar sete lojas, então decidi investir totalmente nos doces, porque também queria empreender”, relata.  

O lucro dele mensal é em torno de R$ 800 a 1 mil. Ainda não é maior que o antigo salário, mas ele vê perspectiva de crescimento. Lucas decidiu se tornar MEI para cadastrar a loja no Ifood, plataforma de entrega de alimentos. “Coloquei [no Ifood] para ter um alcance maior e melhoraram muito as vendas. Hoje tenho vários clientes novos com um vínculo muito legal, tento captar o máximo deles", acrescenta. Em breve, ele pretende colocar os produtos em outras plataformas.  

No caso de Selma Bittencourt, 51, a entrada no mundo do empreendedorismo aconteceu com o surgimento da pandemia. Ela trabalha há 20 anos em um salão de beleza, que teve que ficar fechado entre março e agosto de 2020 por conta das medidas restritivas de combate ao novo coronavírus. 

“Quando começou a pandemia e vi que tudo fechou e ia demorar para reabrir, falei para Maria Emília [filha]: precisamos fazer alguma coisa. Ela disse para fazer comida, mas não gosto de cozinhar, teria que ser algo que me dá prazer. Então pesquisei um curso de bolo, me inscrevi, e aí pronto”, conta Selma.  

Selma e a filha, Maria Emília, começaram uma confeitaria durante a pandemia. Crédito: Acervo Pessoal. 

O registro de MEI, no entanto, ela fez em janeiro de 2020, porque o salão de beleza fazia os pagamentos por lá. Mas ela só passou a movimentar quando a pandemia começou, quando começaram as vendas. Ela e a filha, Maria Emília, que fazem todos os doces e bolos da @nossaconfeitariassa. “A confeitaria me salvou, não só financeiramente, porque não consegui tirar a mesma coisa que no salão, mas psicologicamente, porque ocupou minha cabeça. Foi uma forma de terapia”, confessa Selma.  

Já a contadora Jéssica Casal, 28, empreendia desde há dois anos como manicure, com a @jess_esmalteriadelivery, que faz também alongamento de fibra e vidro de unhas. O serviço era feito na casa das pessoas, mas, como a pandemia exige distanciamento social, ela precisou escolher outra área. Foi aí que surgiu a @ameervas, de produtos naturais.  

“Com tudo parado com a pandemia, estava me sentindo muito ansiosa e comecei me interessar mais pelas ervas e produtos naturais, como óleos essenciais. Comecei a fazer cursos e resolvi abrir a loja esse ano. Ela deu um boom, fui convidada para fazer parte de duas feiras, e senti essa necessidade de regularizar”, explica Jéssica. Ela criou o registro de MEI em fevereiro de 2021.  

A contadora Jéssica Casal começou a empreender há dois anos, como manicure, mas só criou o registro de MEI em fevereiro de 2021. Crédito: Acervo Pessoal. 

A empreendedora ainda continua com a esmaltaria, mas com um fluxo menor – ela atendia duas pessoas por dia e agora faz duas por semana. Além disso, só atende em casa, onde tem certeza que segue os protocolos sanitários. Ela mesmo que faz todos os produtos, em casa. “Tenho um espaço com tudo energizado. Se eu tiver estressada, não faço o produto”, conta.  

Por que ter/ser MEI? 

A Gestora do MEI na Bahia, Valquíria Pádua, defende que ter o registro de microempreendedor é só vantagem. “Um CNPJ abre portas, permite que tenha uma conta de pessoa jurídica, com tarifas diferenciadas, acesso a créditos com juros diferenciados. Facilita muito a questão do dia a dia da empresa, o recolhimento dos impostos, que é simplificado, de maneira única e de valor fixo. Ele mesmo entra no portal do MEI, imprime o boleto, os impostos, paga, não precisa de um contador, e está assistido pela previdência e licença maternidade”, argumenta Pádua. A renda anual deve ser de até R$ 81 mil, para poder realizar o cadastro.  

Além dos direitos, o MEI tem certos deveres, como o pagamento mensal de boletos do Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS). "Ele precisa pagar mensalmente o boleto DAS, onde estão os impostos e onde recolhe o INSS dele. Esse valor é fixo e varia de R$ 56 a R$ 61, com vencimento todo dia 20. Ele tem que ficar atento que anualmente ele é obrigado a declarar o faturamento bruto, sempre referente ao ano anterior. Se ele não faz, pode pagar juros e corre o risco de ter o CNPJ cancelado”, orienta Valquíria. 

A especialista em gestão estratégica e marketing digital para pequenas empresas Flávia Paixão, diz que, a partir do momento que a pessoa decide empreender, vale a pena ter o registro de MEI – muitos só fazem após certo tempo já exercendo a atividade. “Quando a pessoa faz o MEI, ela sente que tem um negócio, então já muda a postura dela, não é somente uma brincadeira aquilo ali. Quando você pensa em levar a sério o negócio, vale criar, porque é uma forma de começar com o custo menor”, defende Flávia.  

A especialista em gestão estratégica para pequenas empresas Flávia Paixão defende que sempre é um bom momento para fazer o registro de MEI, para levar o negócio a sério. Crédito: Divulgação. 

Se a pessoa desistir no meio do caminho, é só cancelar. Mas é essencial para uma mudança de postura e se tornar uma empresa. “Ter o CNPJ é o primeiro passo para separar a pessoa física da pessoa jurídica e a pessoa veja aquela atividade como um negócio, com menor custo e burocracia”, ratifica Paixão. Ela reforça que a inscrição é gratuita pois vê muitos sites fraudulentos, que inclusive aparecem primeiro no ranking de busca do Google, tentando pegar os dados da pessoa - além do dinheiro – na inscrição do MEI. “Eles chegam a cobrar R$ 250 a 300” alerta Flávia.  

Para quem quiser empreender, ela aconselha estudar a área e estar sempre aberto a novos conceitos. “As pessoas precisam ter vontade de aprender e estudar, porque ela precisa se preparar para ter um negócio. A pessoa pode saber fazer bolo, mas não sabe como faz uma formação de preço, não sabe usar as redes sociais e não entende as ferramentas, nem negociação”, norteia Flávia.  

Sebrae oferece cursos gratuitos na Semana do MEI 

A fim de capacitar as pessoas que queiram abrir uma microempresa, o Sebrae disponibiliza uma série de oficinas práticas e palestras com especialistas para MEIs e para quem deseja abrir o próprio negócio. Até sexta-feira (14), a Semana do MEI oferece uma programação online e gratuita para todo o país, com a participação de 45 palestrantes, entre especialistas da entidade e convidados.  As inscrições ainda podem ser feitas no site www.semanadomei.com.br. Os eventos serão realizados sempre entre 10h e 12h50 e 14h e 18h30. 

Quem pode ser MEI? 

- Quem quer começar um negócio ou trabalha por conta própria e fatura até R$ 81 mil/ano 
- Quem não participa como sócio, administrador ou titular de outra empresa 
- Quem exerce uma das atividades econômicas previstas no Anexo XI, da Resolução CGSN nº 140, de 22 de maio de 2018 (consulte aqui)

Como criar MEI?

- Fazer cadastro no Portal de Serviços do Governo Federal Plataforma gov.br 
- Ter em mãos RG, Título de eleitor ou Declaração de Imposto de Renda, dados de contato e endereço residencial. 
- Ter dados do seu negócio: tipo de atividade econômica realizada, forma de atuação e local onde o negócio é realizado 

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro 

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