Destaque nas lives, intérpretes de Libras afirmam que 'não basta técnica'

entretenimento
20.07.2020, 06:00:00
Atualizado: 21.07.2020, 12:16:33
Gabriela trabalha na área há 18 anos (Divulgação )

Destaque nas lives, intérpretes de Libras afirmam que 'não basta técnica'

Trabalho dos tradutores depende do estudo e conhecimento do universo do artista

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Grande negócio da pandemia, as lives têm passado por várias mudanças. Mas tem um elemento que todas trazem e que se tornou indispensável nas transmissões online: a interpretação de Libras feita ao vivo. 

“Visualmente, a imagem compete com as propagandas ou com o QR Code”, avalia Cíntia Santos, professora e intérprete de Libras há 18 anos, e que está marcando presença nas lives dos principais artistas e grupos baianos.

As figuras que ajudam a população surda a sentir o alto astral das lives também estão vivendo seus momentos de fama. Quem lembra de Gessilma Dias, a moça que fez a interpretação da live de Marília Mendonça e sofreu mais do que o internauta de coração partido? 

Pois é, todos os gestos e sentimentos demonstrados naquele espaço da tela são frutos de muito estudo e compreensão da realidade dos surdos. Gabriela Matos, que é pedagoga e atua com Cíntia em diversas lives, avisa logo que “não basta a técnica”. 

Ela destaca que é preciso se conectar com o som que será transmitido: “Temos que avaliar também a postura do intérprete, se ele se adequa na música, se gosta do som ou do estilo. Se ele não gosta, não adianta estar ali para interpretar, afinal é preciso mergulhar 100% no evento. Levamos empatia e carisma para os surdos”, explica.

Para a live do Ilê Ayiê, realizada no dia 12 de julho, Gabriela e Cíntia passaram por uma longa preparação, a começar pela dança, com aulas de dança afro. “Foi muito trabalho mesmo. Estudamos porque nas músicas do Ilê se fala muito da cultura africana, com linguagem iorubá, por exemplo. Não bastava fazer uma tradução apenas da Libras para o português”, completa Gabriela. 

Aqui Cíntia se preparava para entrar ao vivo na live do Ilê. 


Para Cíntia, a noção de pertencimento torna o momento ainda mais especial: “Eu sou mulher, negra, gosto do Ilê e isso tem total relevância. É notoriamente percebido na força que trago minha interpretação”. Além do grupo afro, elas já trabalharam em lives de Ivete, Harmonia do Samba, Jau, Tatau e na live O Encontro, com Xanddy, Léo Santana e Tony Salles. Em apresentações presenciais, já trabalharam no Concha Negra e shows de Saulo 

E é claro que no meio de tantas apresentações com nomes relevantes, não tem como não se perguntar sobre a relação dos intérpretes com os artistas. Cíntia leva na descontração, mas admite que segura a tietagem: “Eu sou fã da maioria deles, mas não sou muito de ficar correndo atrás, querendo foto. Ajo naturalmente porque para mim é um trabalho. Lógico que é um trabalho divertido que eu adoro fazer, mas antes disso tudo você leva com seriedade. Mas a gente se envolve nele”, revelou.

Gabriela e Marcos ao vivo no show de Saulo (Foto Henrique Alvarez /. Divulgação)

Acessibilidade ao vivo

Os trabalhos dos intérpretes acontecem no mesmo local dos shows. Seja na própria casa do artista ou em um espaço alugado, um pequeno estúdio é montado para que o intérprete tenha vista para o palco ou acesso à transmissão.

Para que a transmissão tenha uma boa qualidade para os surdos, a atuação de Marcos André Neves, que é pedagogo e marido de Gabriela, é essencial. Surdo, ele atua como consultor para a produção de bandas e artistas, que otimizam imagens e enquadramentos que o tradutor terá na hora da live. Essa ação, que impacta diretamente no bem-estar do deficiente auditivo, é apenas uma das que integram o trabalho desenvolvido pelo “casal misto”, como afirma Gabriela. 

Os dois são os criadores do Pense em Libras, um projeto criado há dois anos com objetivo de “dar empoderamento aos surdos”, define a pedagoga. A página no Instagram tem 11 mil seguidores e o canal no YouTube, mais de mil inscritos. Lá, são ensinadas interpretações relacionadas principalmente à cultura baiana. “Queremos difundir esse conteúdo para os surdos e aproximar o português que usamos para eles e também a Língua Brasileira de Sinais para os ouvintes. Isso insere cada vez mais a comunidade surda na sociedade”, completa. 
 

Marcos e Gabriela estão juntos há 18 anos e se conheceram na igreja, pelo trabalho de interpretação que a pedagoga começou a fazer. A relação com Saulo já é íntima, pelos diversos trabalhos que desenvolveram em shows (Foro: Reprodução)

Projetos como esse são a grande saída para valorizar o profissional de interpretação e tradução de Libras. Rodrigo Teixeira, 27, que também é tradutor intérprete, analisa que o impacto das lives e de conteúdos online é positivo para o trabalho dele. “O mercado de trabalho não valoriza a profissão. Em uma palestra por exemplo, paga-se caro para a presença de um palestrante, mas querem um intérprete de Libras como voluntário”, critica. 

Ele se especializou na área da educação e trabalha no Instituto Federal Baiano (IF) em Itapetinga, traduzindo palestras, mesas-redonda e comunicados emitidos pela instituição no formato de vídeo. Rodrigo afirma que o descrédito pelo trabalho está relacionado a um sentimento de ‘caridade’ com o surdo: “Estamos aqui para sermos contratados e fazermos nosso trabalho de auxiliar o entendimento do surdo. Tem que ser remunerado”, explica. Com as lives, vê um cenário um pouco mais otimista pelo fato de que outras empresas e produtoras percebem a necessidade de “incluir essa comunicação em seus eventos”, completa. 

Para ele, a grande diferença entre interpretar uma live musical e outra mais formal está na complexidade dos gestos. “Ao traduzir uma palestra, me preocupo com a linguagem que a pessoa está falando, para que ela seja entendida pelo surdo. Já nas lives musicais existem outros fatores”, diz.

Cíntia lembra que o apelo visual se torna muito importante nesse contexto: “A gente mostra que está sendo tocado um tambor ou uma guitarra. Fazemos o sinal com o corpo e mostrando que som está reverberando em nossos corpos. É uma forma de compreender visualmente que instrumento é”, exemplifica. 

Como fazer parte desse universo? 

Desde um curso básico até os ensinamentos mais complexos de interpretação, o IF Baiano se tornou referência no setor. No dia 10 deste mês, o IF iniciou as aulas online do curso FIC com 600 alunos que serão formados na interpretação de Libras. No total foram mais de 11 mil inscrições de diversas partes do país. 

Rodrigo completa lembrando que, independentemente de formação em cursos, online ou presenciais, o mais importante é praticar. “Assim como uma língua estrangeira, se você não se dedicar e tentar conviver com pessoas que falem, você não se torna fluente. É preciso abraçar a comunidade surda e passar a conviver, entender qual a realidade que vivem”, finaliza.

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