Doutora cannabis: Salvador ganha 1ª clínica popular que usa canabinoides em tratamento

salvador
06.06.2021, 11:00:00
Atualizado: 06.06.2021, 20:35:49
Guilherme Cardoso, CEO da Sativa, no Caminho das Árvores. Consultas custam a partir de R$ 200 (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Doutora cannabis: Salvador ganha 1ª clínica popular que usa canabinoides em tratamento

'90% da clientela são mães de pacientes com quadros de difícil controle', diz CEO da clínica, que já tem fila de espera

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As mães que lutam para melhorar a qualidade de vida dos filhos com enfermidades crônicas inspiraram a fundação da primeira clínica popular, em Salvador, com atendimento terapêutico baseado no uso medicinal da cannabis sativa. Inaugurada, há pouco mais de um mês - pelo biomédico Guilherme Cardoso e a médica Beatriz Sampaio -, a Dra. Sativa (@doutorasativa), localizada no Caminho das Árvores, oferece consultas com valores a partir de R$ 200 e, desde que foi aberta, já acumula uma lista de espera de, aproximadamente, 60 pessoas. A busca é por uma opção alternativa para o tratamento de doenças com quadros de difícil controle.

Outros 25 pacientes aguardam pelo atendimento gratuito que também faz parte da proposta inclusiva da clínica. Além do atendimento presencial, a consulta pode ser feita online em todo Brasil. A terapia é voltada para patologias como autismo, epilepsia, Alzheimer, dores crônicas, ansiedade e depressão. “Atualmente, 90% da clientela são mães desses pacientes. Esse é o amor que vence tudo. Elas são as grandes médicas doutoras sativas que lutam pelo tratamento e inspiram o nome da nossa clínica. É recompensador ajudar uma mãe que tem uma filha, que antes sofria várias crises convulsivas por dia, conquistar mais qualidade de vida e dignidade. A sensação que tenho é de esperança”. 

Apesar de não abrir os dados de faturamento e expectativas de crescimento para o ano, a ideia do negócio nasceu quando, ainda na faculdade, Guilherme teve contato com estudo dos canabinoides. A equipe conta com sete médicos da área clínica, biomédica, neurologia, especialista em dor e nutrologia.

“A cannabis é uma abordagem revolucionária na medicina assim como o antibiótico foi há décadas. Levamos cinco anos para organizar e estruturar o projeto que se transformou na primeira clínica particular independente com a proposta popular e única na Bahia. Nos nossos planos está a expansão do modelo para outros estados”, destaca o CEO, Guilherme Cardoso. 

Para entender o tratamento, primeiro a gente precisa explicar o que são canabinoides. As substâncias estão presentes na cannabis sativa – o nome científico da maconha – que possui mais de 480 compostos, entre eles, uma infinidade de tipos de canabinoides. É aqui que entra o Tetrahidrocanabinol (THC) e o Canabidiol (CBD), dois dos principais princípios ativos, utilizados para fins medicinais.   Bom, esses compostos ativam e interagem com o sistema endocanabinoide que está presente no corpo humano.  Eles são capazes de melhorar sintomas específicos daquela determinada doença, como, por exemplo, conter espasmos, no caso da esclerose múltipla ou controlar convulsões severas em pacientes com epilepsia. 

Nos últimos dois anos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regulamentou a fabricação e a venda de produtos para uso medicinal, nas farmácias, mediante prescrição médica. O primeiro produto de cannabis autorizado pela Anvisa foi aprovado em abril do ano passado e produzido pela farmacêutica brasileira Prati-Donaduzzi. Um ano depois, a agência liberou mais dois produtos importados e fabricados nos Estados Unidos. Segundo Guilherme Cardoso, o preço dos produtos chega a variar de R$ 300 a R$ 2 mil, o que limita sua aquisição a uma parcela pequena da população. 

“Sabemos que o custo é alto. Por essa razão, os valores aplicados por nossos médicos são menores, em comparação a outros profissionais. Porém, conseguimos tornar o negócio sustentável e seguir com a proposta de atendimento popular e isso de certa forma é uma maneira humanizada de fazer medicina”. 

Regulação 
Os próximos dias serão decisivos para o avanço do marco regulatório da cannabis no Brasil. A votação do Projeto de Lei (PL) 399/15 que regulamenta o plantio da maconha para fins medicinais e a comercialização de medicamentos que contenham extratos, substratos ou partes da planta foi adiada no mês passado. A lei, no entanto, não trata de autocultivo, nem do uso recreativo, religioso e ritualístico. Pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Renato Filev, analisa que mesmo que seja um avanço, ainda existem barreiras que impedem o maior acesso. 

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“A PL não deixa de ser um ganho, porém, é incipiente quando não contempla o cultivo pessoal para fins terapêuticos e impõe um ‘sarrafo’ de regras rígidas, sobretudo, para associações que estão mais próximas de um extrato artesanal do que de um medicamento farmacêutico”. Ele destaca que quem precisa do tratamento, muitas vezes, enxerga ali, um último recurso.  

“O Brasil ainda é muito conservador. O maior gargalo é não reconhecer a importância de regular de uma maneira responsável os processos de produção, distribuição e consumo da cannabis”, acrescenta.   

A nova reunião da Comissão Especial para votação do parecer pelo relator está prevista para terça-feira (08), às 9h. “A gente tem que preparar, informar as pessoas dessas potencialidades e catalisar as pesquisas aqui no nosso país. Ou seja, organizar um debate amplo, que altere essa regulação para que o acesso a esses produtos seja, de fato, mais democrático”, defende Filev. 

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