E agora, José? Quase 400 pessoas com o nome foram assassinadas em Salvador

salvador
15.07.2019, 05:00:00
Atualizado: 17.07.2019, 10:07:28

E agora, José? Quase 400 pessoas com o nome foram assassinadas em Salvador

De 2011 para cá, 394 Josés foram vítimas de homicídio na capital baiana e região metropolitana

Poderia ser João, Maria, Marcelo, Bruna, Pedro, Patrícia. Mas era José. José Carlos, José Jorge, José Francisco, José Leonardo. Em oito anos e seis meses, 394 Josés perderam a vida para a violência em Salvador e Região Metropolitana da capital baiana (RMS). Aqueles que carregam o segundo nome mais comum entre cidadão baianos foram as mais recorrentes vítimas de crimes violentos letais intencionais (CVLIs) de janeiro de 2011 a junho de 2019.

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O primeiro foi José Osvaldo Silva Bittencourt, assassinado a tiros em 25 de janeiro de 2011. O último foi o tratorista José Raimundo Pereira dos Santos Júnior, 39 anos, morto no último 29 de junho, em Mata de São João. Ele estava em casa, quando um homem encapuzado chegou dizendo que era policial e procurando por armas. A família acredita que José Raimundo foi confundido com alguém.

Em junho de 2012, foi José Leonardo da Silva, 22 anos, que morreu depois de ser atacado a pedradas, um crime de homofobia. Ele voltava para casa a pé, depois de participar de um forró em Camaçari, abraçado com outro José – José Leandro, seu irmão gêmeo. Um grupo de oito homens achou que eles eram um casal gay e os apedrejou.

José Leandro sobreviveu para, no último dia 26 de junho, sete anos após o crime, ver três dos réus condenados: Adan Jorge de Araújo Benevides foi condenado a 26 anos e seis meses; Adriano Santos Lopes, nove anos e três meses; e Douglas dos Santos Estrela, 14 anos, todos em regime fechado.

O fato de o nome mais comum entre as vítimas da violência ser José não surpreende o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo a supervisora de disseminação de informações do órgão na Bahia, Mariana Viveiros, a explicação é demográfica.

“Certamente tem uma correlação estatística. José é o segundo mais comum entre os nomes no país como um todo. É o primeiro nome mais comum entre os homens e aí existe uma tendência a ter ele como o mais comum ou um dos mais comuns em qualquer grupo”, explica Viveiros.

De acordo com Mariana, os nomes bíblicos estão, há algum tempo, entre os mais comuns – é o caso de José. Na Bahia, por exemplo, quase todos os dez nomes mais comuns, conforme dados da plataforma Nomes do Brasil, do IBGE, são de origem bíblica: Maria, José, Ana, Antonio, João, Carlos, Paulo, Manoel e Pedro. 

Não dá para dizer que José seja um nome mais comum em uma ou outra classe social. É o que afirma a especialista em onomástica – estuda os nomes próprios –, professora Juliana Soledade. Ela é da Universidade Federal da Bahia (Ufba), mas atua desde 2015 na Universidade em Brasília (UnB) coordenando o projeto ‘Dicionário de nomes em uso no Brasil’.

Os estudos feitos para a produção do dicionário, que começaram em 2017, apontam razões diversas escolher um nome.

“A escolha é motivada em primeiro lugar por homenagem a familiares, mas também por outros motivos como a mídia, a religião, sugestões etc. Em todas essas, José, por sempre figurar entre os mais frequentes nomes masculinos, aparece com grande representatividade, em todas as classes sociais”, explica Juliana.

Infográfico: CORREIO Gráficos

Derivados
Por ser o nome mais popular, José pode não chamar tanta atenção quando observadas as vítimas dos crimes violentos letais intencionais (CVLIs), que incluem homicídios, latrocínios – roubo seguido de mortes – e lesões corporais seguidas de morte. Mas, se observados os nomes derivados de José, pode haver, sim, uma explicação social. Segundo Juliana Soledade, nomes como Josealdo, Josenaldo, Josenildo, Josenilson, entre outras variações, são – estes sim – mais recorrentes em classes mais baixas.

“Esses nomes inovadores são mais comuns no Nordeste, mas também no RJ e SP onde há grande migração de nordestinos. A nossa hipótese é que, a partir do segundo quartel do século 20, depois da abolição da escravatura, a população afro-brasileira começou a inovar a antroponímia no sentido de criar nomes próprios como forma de rejeição ao processo de nomeação imposto pela sociedade branca. Por isso, é nas classes sociais mais desfavorecidas que os nomes se inovam”, explica.

Outro marcador social é a cor da pele, explica o professor e sociólogo Luiz Cláudio Lourenço, do Laboratório de Estudos Sobre Crime e Sociedade (Lassos/Ufba). “A gente tem uma série de marcadores sociais e a cor é uma que sintetiza muita coisa aqui na Bahia. Está associado com a pobreza, com a criminalidade, desprestígio. Isso é uma herança que se carrega há muito tempo. A gente não conseguiu dar uma dignidade às pessoas”, diz Lourenço.

Na lista das vítimas de CVLIs divulgada pela Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), através dos boletins diários de óbitos, há 115 vítimas com nomes derivados de José. A maioria é de homens – 107 –, mas há ainda oito mulheres: Joseane (3), Joselita (2), Josenilza (1), Josefa (1) e Josemara (1).

Entre os homens, há 20 variações. O mais comum é Joselito (16), Josemar (13), Josevaldo (12), Joseval (12) e Josenildo (11). Para a professora Juliana, os dados colhidos pela reportagem ajudam a confirmar a hipótese levantada pelo estudo do ‘Dicionário de nomes em uso no Brasil’.

“Essa hipótese se baseia em alguns argumentos. Em primeiro lugar, nasce, após a abolição da escravatura, uma massa populacional em busca de uma construção identitária particular, pois não se reconhece na matriz branca opressora que sempre a nomeou, responsável pela expropriação de seus nomes originais, de sua cultura, de sua língua. Portanto, é em busca dessa nova identidade própria, que esses brasileiros afrodescendentes vão procurar novas formas de nomeação”, afirma. Daí surgem os nomes como Joseval, Josemar, Josenildo, Josemir.

Além disso, em fins do século 19, o fluxo intenso de imigração traz ao país uma população adepta de outras religiões que não o catolicismo. Se, antes disso, o registro civil era regulado pela Igreja – o que ajuda a entender a quantidade de nomes de origem bíblica –, a chegada dos imigrantes gera uma demanda por um registro civil desvinculado da Igreja. O decreto que fixa o Regulamento do Registro Civil dos nascimentos vinculado ao Estado fez 130 anos em janeiro.

‘Assustador’
Seja qual for o nome da vítima dos CVLIs em Salvador e Região Metropolitana, o número de pessoas assassinadas chama a atenção de especialistas em segurança pública. De janeiro de 2011 até 30 de junho de 2019, foram mortas 16.625 pessoas – uma média de mais de 2 mil por ano.

“É assustador. Nos últimos anos, nesse período, a gente nunca teve tantos homicídios como agora. E se você observar a série histórica, vai ver que, quando os números baixam na capital, sobem na Região Metropolitana. Ou seja, quase não há alteração”, afirma Luiz Cláudio Lourenço.

Entre 2011 e 2018, o ano com o maior número de CVLIs em Salvador e RMS foi 2012 (2.355), seguido de 2017 (2.107), 2016 (2.048), depois 2013 (2.029), 2014 (1.947), 2011 (1.914), 2015 (1.853) e, por fim, 2018, com 1.627 CVLIs. Para se ter uma ideia, as mais de 16 mil vítimas somadas em pouco mais de oito anos são mais numerosas do que as vítimas da Guerra do Kosovo, que durou também oito anos e deixou cerca de 12 mil mortos, conforme dados do Relatório de Conflitos Armados da antiga Iugoslávia.


Para Lourenço, é preciso mudar a estratégia.

“Se a gente não caminhar para uma política de redução da violência por parte do estado no enfrentamento de questões como a droga, diminuir o encarceramento, a gente não vai conseguir sair tão cedo dessa situação. Não tem solução mágica, mas se a gente continuar andando na direção errada, não vai achar uma solução”, avalia ele.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) informou que “o trabalho integrado das polícias Militar, Civil e Técnica é a principal razão pela queda das mortes violentas, na Bahia”. A pasta lembra as reduções dos índices nos últimos seis anos.

Outros pesquisadores ouvidos pelo CORREIO apontam o que acreditam ser uma falha no combate aos grupos de extermínio que podem, sozinhos, ser responsáveis por uma série de assassinatos. No ano passado, a SSP chegou a apurar a possibilidade de haver grupo de extermínio na região do Nordeste de Amaralina, onde o cabo PM Gustavo Gonzaga foi morto, dia 9 de junho de 2018.

80% das mortes são ligadas ao tráfico
De acordo com a Secretaria da Segurança Pública da Bahia, 80% das mortes violentas têm relação com o tráfico de drogas. Por isso, diz em nota, “ações de inteligência, preventivas e ostensivas são focadas no combate ao tráfico de drogas”. A pasta avalia que os números reduziram nos últimos seis anos e também vincula o resultado à “renovação das estruturas policiais, com ênfase na tecnologia”.

Para o professor Luiz Cláudio Lourenço, do Laboratório de Estudos Sobre Crime e Sociedade (Lassos/Ufba), o combate ao tráfico de drogas adotado não reduz a violência. Pelo contrário. “O enfrentamento que a polícia tem com o tráfico é militarizado, ostensivo, que entra atirando. Isso não diminui a violência, isso acirra os ânimos”, declara.

Para ele, poderia haver uma redução de danos, passando pela melhoria da questão humana e pela redução da violência.

“Não há nenhum tipo de mediação de conflito, de tolerância ao tráfico que não seja violento. O não violento é tão ostensivamente combatido quanto o outro”, pondera.

Sobre uma eventual legalização de drogas como a maconha, Lourenço acredita que, de alguma maneira, a legalização não incentivaria ainda mais o tráfico. “Não é uma solução mágica. Mas, de alguma maneira, você não criminalizar é sinalizar para as forças policiais não tratarem aquelas como uma pessoa criminosa”, ressalta.

Infográfico: CORREIO Gráficos

IBGE rankeia os nomes mais comuns
A plataforma Nomes do Brasil, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base nos dados do Censo de 2010, aponta quais os nomes mais comuns no Brasil e em cada estado, separando por décadas e por sexo. Os dados consideram apenas o primeiro nome da pessoa. Se observados os nomes de ambos os sexos, Maria é o mais comum: são 11,7 milhões de Marias em todo o Brasil e 766.238 na Bahia.

José, o segundo mais popular em ambos os sexos, é o nome mais recorrente entre os homens. No Brasil, são 5,7 milhões de Josés, sendo 419.601 só na Bahia, observadas todas as décadas. A ‘dobradinha’ Maria e José se manteve na liderança, na Bahia, até o final dos anos 1980. Na década de 1990, Maria caiu para 4º lugar e José assumiu a ponta, sendo seguido dos nomes Lucas e Ana. Nos anos 2000, Maria reassumiu a liderança, mas o nome José caiu vertiginosamente, chegando a ocupar o 10º lugar.

Entre as mulheres, houve uma mudança grande entre os nomes mais comuns desde antes da década de 1930, na Bahia. Se, naquela época, os nomes mais comuns eram Maria, Ana, Josefa, Antonia, Joana, Francisca, Isabel, Julia, Alice e Edite, quase tudo mudou mais de 70 anos depois, na entrada do terceiro milênio: Maria continuou, mas foi seguida de Ana, Vitoria, Beatriz, Leticia, Amanda, Julia, Larissa, Camila e Bruna.

Entre os homens, antes da década de 1930, os mais comuns na Bahia eram José, João, Antonio, Manoel, Francisco, Pedro, Manuel, Joaquim, Raimundo e Miguel. Nos anos 2000, passaram a ser João, Gabriel, Lucas, Pedro, Mateus, Gustavo, Carlos, José, Daniel e Marcos.


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