Em mais um faroeste, Quentin Tarantino brinca com a violência

Cinema
28.12.2015, 10:30:00

Em mais um faroeste, Quentin Tarantino brinca com a violência

'Os Oito Odiados' chega a pelo menos 400 salas brasileiras a partir do dia 7 de janeiro

Ok, nada se compara à expectativa que foi criada para a estreia de O Despertar da Força, sétimo capítulo da saga Star Wars, que chegou aos cinemas no dia 17. Mas um novo filme de Quentin Tarantino, 52 anos, é sempre muito esperado. Afinal, trata-se de um dos diretores contemporâneos que melhor concilia o cinema autoral com um grande potencial de bilheteria. 

Então, no próximo dia 7 de janeiro, as atenções de críticos e cinéfilos vão se voltar para o oitavo longa-metragem do cineasta, o faroeste Os Oito Odiados, que chega a pelo menos 400 salas brasileiras. É uma nova aposta da Weinstein Company, que, com o filme anterior de Tarantino, Django Livre (2012), faturou no mundo mais de US$ 420 milhões, maior bilheteria da história da produtora.

A investida no novo filme é tão grande que o diretor americano voltou ao Brasil depois de 23 anos e começou por aqui a turnê de divulgação do filme. Tarantino havia estado no Brasil somente uma vez, em 1992, na Mostra Internacional de São Paulo, para divulgar Cães de Aluguel.

(Foto: Divulgação)


Faroeste
O oitavo filme do diretor é um retorno ao faroeste, gênero que ele já havia visitado em Django Livre (2013). A nova produção marca mais um trabalho com Samuel L. Jackson, um dos atores que mais frequentemente atua com o cineasta: até aqui, já foram seis trabalhos juntos. Na visita a São Paulo, Quentin Tarantino esteve acompanhado do ator Tim Roth, que já havia sido dirigido pelo cineasta em Cães de Aluguel e Pulp Fiction (1994) e está de volta em Os Oito Odiados.

O novo filme de Tarantino tem ainda Jennifer Jason Leigh como uma das protagonistas. A atriz despertou a atenção do diretor, que justificou a escolha para o papel de Daisy Domergue: “Não sabia quem iria interpretá-la, mas eu queria alguém dos anos 90. Vi vários filmes dela, como A Morte Pede Carona, Rush - Uma Viagem ao Inferno e O Anjo Assassino. Ela era uma versão feminina de Sean Penn e muitos filmes eram pensados nela”.

Daisy, a personagem de Leigh, é uma criminosa muito procurada e que está sendo conduzida por um caçador de recompensas num gélido deserto. O personagem que a tem como prisioneira é John Ruth, um irreconhecível Kurt Russell, estrela de filmes como Fuga de Nova York (1982).

No meio da caminhada, em uma carroça, Ruth resolve parar numa casa para descansar e é lá que vai se desenrolar praticamente todo o restante do filme, onde os “oito odiados” do título vão se encontrar. É na sala daquela casa que ocorrem os diálogos e o banho de sangue que marcam a filmografia de Tarantino.

O diretor reconhece a violência como uma de suas marcas, mas ressalta que é um elemento que aparece com certo humor, com uma boa dose de caricatura em suas criações: “O tom do sangue, está na minha paleta. O sangue na vida real é assustador. Mas nos filmes é feito de xarope de framboesa e o gosto é ate bom”, brincou, durante a entrevista coletiva, num hotel de São Paulo. “Numa das cenas, um homem já morto leva mais um tiro. É só pra dar humor”.

Carpenter
Já há alguns sites comparando Os Oito Odiados a clássicos como Sete Homens e um Destino (1960) e Os Doze Condenados (1967), mas o diretor nega qualquer semelhança: “Nestes dois filmes, existe uma 'equipe' que une os personagens. Mas isso não ocorre em Os Oito Odiados. Pra mim, é uma versão de O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter. O enredo se parece e a paranoia passa de um personagem para o outro”. Durante a entrevista,Tarantino citou o diretor italiano Sergio Corbucci (1927-1990) como uma de suas maiores influências. Corbucci, junto com Sergio Leone (1929-1989), é considerado um dos mais importantes diretores do western spaghetti.

Além da violência, que é uma assinatura do diretor, estão em Os Oito Odiados alguns divertidos diálogos sobre assuntos banais, que também marcam seus filmes. Quem se esquece da conversa de Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) sobre um sanduíche em Pulp Fiction (1995)?

O texto é novamente um dos pontos fortes de Tarantino, que diz ter amadurecido desde seu primeiro roteiro: “Desde Kill Bill meu texto ficou mais teatral, literário e poético. Acho que o filme funcionaria bem no teatro. Tenho funcionado melhor com as palavras”, afirma. 

Enio Morricone
O longa-metragem traz uma novidade em relação às produções anteriores do diretor: pela primeira vez, o cineasta usa uma trilha sonora original e inédita. Desta vez, ele convidou o seu compositor favorito, o veterano italiano Enio Morricone, 87 anos, para compor a trilha. O músico é conhecido por compor para cineastas como Sergio Leone, Pasolini e (1922-1975) e Bernardo Bertolucci.

“Gosto mais de Morricone que de Chopin ou Beethoven. É o meu compositor favorito. Usar composições originais ajuda a 'criar um clima' para o filme”. Tarantino diz que conheceu o músico em Roma, na Itália, quando o convidou para compor. Inicialmente, o italiano recusou, pois achava que não teria espaço na agenda.

“Mas ele leu o roteiro e disse que havia tido uma ideia. Depois, disse que ia fazer mais umas coisas e acabou compondo mais de 35 minutos”. O trabalho de Morricone não se restringiu ao tema principal do filme: “Ele não fez a música para uma cena em particular. Compôs e eu escolhi os trechos que usaria e em que partes usaria”. Morricone é indicado ao Globo de Ouro de trilha nonora. Tarantino ganhou uma indicação como roteirista e Jason Leigh é candidata a melhor atriz coadjuvante. A premiação será entregue em 10 de janeiro.

Bem-humorado, Tarantino, provocado por um jornalista durante a coletiva, aproveitou para dar uma cutucada em um velho desafeto, Spike Lee, que já o acusou de racismo em Django Livre.

O repórter perguntou se Tarantino já havia pensado em trabalhar com o colega. “Quando eu trabalhar com ele, será o dia mais feliz da vida desse cara”, disse, antes de dar mais uma mostra de sua pouca modéstia: “Vou parar em meu décimo filme. Quero manter essa mitologia em torno do meu trabalho”.

*O repórter viajou a convite da Diamond Filmes

Assista ao trailer:


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