Em ruínas: Museu de Ciência e Tecnologia está abandonado desde 2018

salvador
20.07.2021, 05:30:00
(Carlos Santiago/My Phantom Toy)

Em ruínas: Museu de Ciência e Tecnologia está abandonado desde 2018

Local passou por diferentes administrações desde a criação, fechou mais de uma vez e deteriora aos poucos

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O Museu de Ciência e Tecnologia da Bahia (MCT), na Avenida Jorge Amado (Imbuí), primeiro espaço interativo do gênero na América Latina, está em ruínas. Fechado desde 2018, faz falta tanto como equipamento educativo quanto de lazer. Em fevereiro deste ano, a Academia de Ciências da Bahia (ACB) iniciou campanha que reivindica a revitalização e a inclusão do nome do professor Roberto Santos no nome do museu. Ele era governador da Bahia, em 1979, quando o local foi inaugurado. No próximo dia 29, acontecerá o Simpósio Memória e Revitalização do Museu de Ciência e Tecnologia. O evento será virtual e irá discutir projetos para reativar o centro de conhecimento (saiba mais no final da reportagem).

A Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), afirma que o museu foi fechado em 2018 para a concepção de um projeto de revitalização conceitual e de infraestrutura. No entanto, ainda não existe data definida para início das obras. A secretaria alega que questões orçamentárias e a emergência sanitária provocada pela pandemia atrapalharam o projeto. 

O MCT iniciou as atividades sob responsabilidade da Secretaria de Planejamento, Ciência e Tecnologia, passou para a Fundação Cultural do Estado da Bahia, em 1983, para a Comissão Interinstitucional de Ciência e Tecnologia da Bahia, para a Universidade do Estado da Bahia (Uneb), e, desde 2013, é administrado pela Secti. Segundo a secretaria, de 2013 a 2017, o prédio continuou ocupado pela Uneb, sendo integralmente liberado e passado para o órgão somente em 2017. O museu também já foi fechado ao público algumas vezes para reforma, mas está sem visitação regular desde 2013.

Parque tecnológico

O período de transferência de administração entre a Uneb e a Secti coincide com o planejamento de levar o museu para o Parque Tecnológico, inaugurado na Avenida Paralela, em 2012. A mudança nunca foi concretizada. 

Para Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e membro da ACB, o abandono do equipamento é lamentável e representa uma grande perda não só para os soteropolitanos. “Esse tipo de museu é fundamental para a formação científica e cultural da juventude. Eu me considero um intelectual público e ativista. Ao ver qualquer equipamento urbano sendo destruído, me manifesto. É um esvaziamento ao longo de vários governos. O Museu de Ciência e Tecnologia vem sendo destruído por abandono”.

Pretto acrescenta que a estrutura do espaço é cara e de difícil manutenção e que a transferência para a Uneb complicou mais a situação porque a universidade não recebeu recursos para administrá-lo. “É uma área muito grande e espetacular, com, inclusive, auditório sofisticado e cabine de projeção de cinema. Foram várias iniciativas de recuperação; o espaço já chegou a abrir e fechar, mas nisso os equipamentos iam se perdendo. Podemos dizer que ao longo dos anos nenhuma ação significativa foi feita”.

O professor conta que começou sua vida profissional como professor de Física e que, enquanto o museu estava funcionando, por diversas vezes visitou o espaço com seus alunos. Além disso, também fez questão de levar seus filhos para conhecer o equipamento. “Eu me lembro de ter ido lá com meus filhos num dia de eclipse. No final da tarde para início da noite, tinha muita gente reunida na área onde fica a locomotiva. Os meninos ficaram brincando e depois ouvimos uma aula que estava sendo ministrada sobre o eclipse pelo então professor Fernando Santana, que era diretor do museu na época”, relembra. 

Museu foi inaugurado há 42 anos, em 1979, no governo de Roberto Santos

(Foto: Carlos Santiago/ My Phantom Toy)

Arte e Ciência

O terreno do MCT tem 40.000m², considerando parte da área das lagoas compartilhadas com o Parque Metropolitano de Pituaçu. O espaço já foi sede, em 2009, da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. O projeto arquitetônico é dos baianos Wilson Andrade e Miguel Wanderley. O local conta também com obra do artista plástico Mário Cravo. 

De acordo com o presidente da ACB, Jailson Bittencourt, o museu foi pensado por Roberto Santos para representar a transição da Bahia agrícola para a industrial. “A locomotiva, na entrada, representa essa passagem”, afirma.

Roney Santos, 36, trabalhou no MCT como monitor de 2007 a 2010 e conta o que os visitantes encontravam no local na época: “Na entrada, existia a Praça da Descoberta, que trazia um pouco de cada coisa para atrair as pessoas para conhecerem o espaço. Tinha um carro de boi, a locomotiva e um fogão solar. Depois, conseguimos colocar um equipamento que simula a gravidade zero, em que você gira em todas as direções e não sente a gravidade. Também tinha um relógio do sol que todo mundo achava incrível como funcionava perfeitamente bem. O pessoal ficava desafiando o relógio, testando para ver se marcava a hora certa mesmo”, enumera.

“No museu, tinha um espaço sobre eletricidade com o equipamento famoso em que a pessoa gira e o cabelo fica todo arrepiado, além de uma bicicleta ergométrica que simulava geração de energia elétrica através da força e de um gerador de Van de Graaff. Também tinha um pêndulo de Newton, um tabuleiro imenso de xadrez e uma área voltada para a biologia. No espaço dos experimentos, a gente tinha microscópios e também uma espécie de lan house em que as pessoas podiam pesquisar sobre os assuntos”, acrescenta o ex-monitor, que cursou Relações Públicas na Uneb.

A proposta não era somente visitar o museu, mas interagir com os elementos. O espaço também funcionava como extensão da escola para crianças e adolescentes da comunidade do Bate-Facho, próxima ao local. “Eles faziam pesquisas e trabalhos. Os pais viam como um local seguro, iam trabalhar e buscavam depois. Alguns projetos sociais também faziam visitas lá”, diz.

A visitação durava cerca de duas horas e o espaço já foi sede, em 2009, da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e também recebia visitas de todos os cantos do mundo.

“O museu era bem grande, dava muito trabalho para a gente. Recebíamos muitas visitas de escolas. Já chegamos a receber grupos de fora do país, como do Canadá”, relembra Roney. 

Evento digital vai discutir revitalização

No próximo dia 29, a Secti promoverá evento online sobre as estratégias de revitalização do MCT. O Simpósio Memória e Revitalização do Museu de Ciência e Tecnologia da Bahia acontece das 9h às 17h, com transmissão pelo canal da Secti Bahia no Youtube. O evento foi organizado pela secretaria em parceria com a ACB.

De acordo com a titular da Secti, Adélia Pinheiro, a proposta é abrir um diálogo com atores sociais que fizeram e fazem parte das mais de quatro décadas de história e legado do museu

“Requalificar o Museu de Ciência e Tecnologia já é um anseio da Secti há um tempo. Através desse simpósio, avançamos no planejamento para requalificação e na construção de estratégias que possam agregar novos parceiros e permitir que continuemos construindo e promovendo a história não só do museu, mas de todo o Ecossistema de CTI [ciência e tecnologia]”, diz Adélia.

Em fevereiro deste ano foi lançada uma campanha para que o nome do professor Roberto Santos seja incluído no nome do museu. Roberto Santos foi médico, cientista, professor, secretário de Saúde, reitor da Ufba, governador, ministro da Saúde e deputado federal. Ele morreu no dia 9 de fevereiro, aos 94 anos.

A mobilização foi iniciada pela ACB. “Há uma interação muito grande entre a academia e a secretaria e estamos nos mobilizando para realizar eventos e ações necessárias para que a gente atinja a nossa meta, que é requalificar o museu e rebatizá-lo  com o nome do professor Roberto Santos, que foi o seu criador”, afirma o presidente, Jailson Bittencout.

“É um espaço precioso que, hoje, está no coração da cidade. O museu pode voltar a ser um grande espaço de inspiração, especialmente para os jovens. Nós precisamos revitalizá-lo e modernizar a visão de museu que foi concebida. Hoje já temos outros museus do tipo na América Latina, mas o objetivo é colocar o nosso na melhor forma possível para representar a nossa baianidade e nossa influência no desenvolvimento econômico do país”, finaliza Bittencourt. 

A Uneb foi procurada para comentar sobre o período em que administrou o museu mas, até o fechamento da reportagem, não houve resposta.

*Com a orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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