Enem 2021: Sob clima chuvoso, estudantes de Salvador encerram 2º dia de provas

bahia
28.11.2021, 18:36:00
Atualizado: 28.11.2021, 19:41:57
Entrada do Colégio Central, em Nazaré, não teve a movimentação característica (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Enem 2021: Sob clima chuvoso, estudantes de Salvador encerram 2º dia de provas

Mais de 61,3 mil baianos não foram fazer o exame. Ao todo, foram 237 mil inscritos no estado; confira o balanço prévio

O segundo domingo de provas do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, começou debaixo de nuvens carregadas e chuvas em alguns pontos de Salvador neste dia 28 de novembro. Por conta disso, parte dos estudantes deixou para chegar aos colégios mais próximo da hora de abertura dos portões, às 12h, para não correr o risco de se molhar.

A edição revelou um esvaziamento dos tradicionais locais de provas e as razões para isso podem estar no fato de o Enem ter registrado o menor número de inscritos desde 2005, quando a prova nem mesmo era usada para ingresso nas universidades.

Ao todo, foram 3,1 milhões de inscritos no país e houve 26% de faltosos no dia 21, primeiro domingo de provas. No Colégio Central, em Nazaré, uma das unidades que costumam ser mais movimentadas no exame, havia poucos candidatos na porta no horário de abertura.

A estudante Emanuele Oliveira Matos, 18, foi ao local levada pelo pai e contou que, no último fim de semana, se assustou com a sala vazia. Segundo ela, mais da metade faltou. A jovem disse acreditar que mais gente faltaria neste domingo.

Emanuele Matos chegou ao local de provas na companhia do pai (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Conforme dados preliminares, na Bahia houve mais de 237 mil inscritos, dos quais 175,6 mil estiveram presentes no primeiro dia de prova, revelando uma abstenção praticamente igual à nacional, com 26% de faltosos, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep).

Mais de 61,3 mil candidatos não foram fazer a prova no domingo passado nas 162 cidades em que a prova foi aplicada no estado. No Amazonas houve recorde de abstenção, mais de 40% não compareceram. O estado com melhor taxa de frequência no país foi o Rio Grande do Norte.

Ainda de acordo com dados prévios, 64% das pessoas inscritas na Bahia se identificaram como do sexo feminino. Entre elas, está Emanuele, que afirmou querer usar sua nota do Enem para entrar para a faculdade de Psicologia e seguir o mesmo caminho da irmã, que já é psicóloga.

Moradora de Itapuã, ela se deslocou quase 30 Km até o Colégio Central. Depois que a garota já havia entrado, o pai contou que fez questão de levá-la de carro a fim de deixar registrado o seu incentivo para que ela não desista de entrar para a universidade. 

"Só o fato de eu trazer sei que já é um incentivo, é um sinal do apoio que eu estou dando. Educação é fundamental na vida de qualquer ser humano. É a partir dela que vem tudo. Você é capaz de conquistar muita coisa se tiver esclarecimento. Educação até pode não ser garantia de nada, mas você consegue ter melhores perspectivas", disse José Adenilson Souza, técnico em edificações.

O Enem vinha numa tendência de cerca de 6 milhões de inscritos, chegando a ter edições com mais de 8 milhões em 2014 e 2016. O número de candidatos em 2021 traz uma queda drástica, que preocupa especialistas. Com esta redução de pessoas inscritas, o exame registrou queda de mais de 50% no número de candidatos negros, enquanto entre brancos a baixa foi de 35%, segundo dados do Instituto Semesp, do Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp). 

A entidade tem refletido que esses indicadores, somados com o cenário socioeconômico do Brasil, podem levar a uma elitização das universidades. Numa tentativa de contrapartida a isso, ativistas do Coletivo Afronte, movimento antirracista, estiveram em frente ao Colégio Central para levar mensagens de apoio aos estudantes. 

Entrada da Faculdade 2 de Julho, no Garcia, um dos locais de aplicação (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

A comunicadora Priscila Costa disse que cerca de 40 educadores voluntários, quase todos com histórias de serem os primeiros de suas famílias a conseguirem entrar na universidade, se reuniram na pandemia para formar o projeto Aulão Enem Popular, voltado para dar aulas gratuitas e remotas para jovens de escola pública da Bahia, com 197 estudantes.

"Construimos essa alternativa porque estamos num momento muito tenso, o próprio Enem já é muito tenso e sob o governo Bolsonaro está pior. Essa é uma edição excludente, com uma das menores participações de estudantes negros. É um momento de retrocesso. Criamos o cursinho para que essas pessoas pudessem ter um apoio para entrar na universidade e viemos hoje fazer uma ação para lembrar que o conhecimento não acaba aqui. E que se não der certo, vai ter outras provas", disse ela, que é uma das idealizadoras e coordenadora do Aulão Enem Popular (@aulaoenempopular). 

Estudante da última série do ensino médio, Tainara Pires, 22, foi fazer a prova no Colégio Estadual David Mendes Pereira, no bairro de São Marcos. Com mais habilidade nas provas de Humanas, ela disse que, no domingo anterior, adotou a estratégia de ler primeiro os enunciados e, em seguida, buscar as respostas nos textos introdutórios das questões. 

"Hoje nas matérias de Exatas vou precisar de mais atenção para os cálculos que requerem paciência, mas em Ciências da Natureza acho mais flexível. Vou manter a mesma tática de assimilar palavras do texto com a resposta. Eu já estava estudando em um cursinho para o concurso do Banco do Brasil e aproveitei os assuntos, fui me dedicando mais à Redação, a grande vilã˜, ri ela.

Tainara fez a prova na mesma sala que a irmã, o que a fez se sentir mais sortuda por dividir esse momento tenso com ela. A jovem saiu de casa levando água, barra de chocolate para dar energia, biscoito e duas canetas. O desejo dela é entrar para os cursos de Psicologia ou Pedagogia.

Pretendendo entrar para a faculdade de História, Joana Julia, 20, foi fazer a prova na Faculdade Visconde de Cairu, nos Barris, e disse que preferiu usar os dias anteriores à prova para refrescar a memória sobre alguns assuntos e, entre os dias entre uma prova e outra, fez uma pausa de descanso. 

"Estudei sozinha, sem ajuda de curso ou qualquer outra coisa. Acredito que não estudei tudo, mas espero ter estudado o necessário. Eu amei o tema da redação. Vi que muitas pessoas não curtiram, mas eu já sabia algumas coisas e os textos motivadores ajudaram muito. Semana passada era uma área que eu dominava mais. Hoje, como não tem redação, vou aproveitar para ler as coisas com mais calma˜, disse ela, que é diretora da Frente de Mulheres de Salvador do Movimento Popular da Juventude. 

Joana Júlia fez prova na Faculdade Visconde de Cairu e relatou que instalações estavam em boa qualidade (Foto: Acervo pessoal cedido ao CORREIO)

Especialista em política educacional, Jhonatan Almada, diretor do Centro de Inovação e Conhecimento para a Excelência em Políticas Públicas (Ciepp), explica que essa queda no número de participantes no exame é também uma possível consequência do período de escolas fechadas durante a pandemia. Boa parte das instituições só retornaram ao ensino presencial no segundo semestre deste ano, "algo que as escolas privadas fizeram desde o início do ano", aponta ele.

"Desde o Enem 2020, temos percebido que o principal impacto da pandemia na educação afetou os segmentos sociais historicamente marginalizados, sobretudo negros e pobres. Agora, ficará mais excludente, fazendo com que o elitismo volte a se manifestar˜, conclui.

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