Especial Irmã Dulce: poderosos faziam do bolso coração para ajudar obras

salvador
18.05.2011, 09:01:00

Especial Irmã Dulce: poderosos faziam do bolso coração para ajudar obras

Muitas autoridades, poderosos como Sarney, alimentavam o mesmo carinho e admiração por Irmã Dulce

Alexandre Lyrio | Redação CORREIO
alexandre.lyrio@redebahia.com.br


O presidente José Sarney vive seu inferno astral. Inflação nas alturas, críticas da oposição e denúncias. Em plena fase de redemocratização, o Brasil do final da década de 1980 mergulha numa profunda crise. De passagem pela Bahia, talvez  buscando desafogar a pressão, Sarney vai visitar Irmã Dulce.

-Ela está adoentada, presidente... Quer que a acorde?   

Aconteceu algumas vezes. Sarney se esforçava para ir ao bairro de Roma, mas Irmã Dulce estava de cama.

-Nem pense em acordá-la!

Sarney não abria mão, porém, de um contato mais próximo, suficiente para sentir o alívio que precisava. Pé ante pé, o presidente da República entrava no quarto da freira, beijava seus pés e ia embora. “Quando Irmã Dulce acordava, nós contávamos que o presidente a havia visitado e beijado seus pés. Mas não tinha jeito de ela acreditar”, conta Maria Rita Pontes, sobrinha da freira. 

Muitas autoridades, poderosos como Sarney, alimentavam o mesmo carinho e admiração por Irmã Dulce. Inclusive contribuíam diretamente para suas obras. Mas, entre todos esses caciques da caridade, José Sarney é hoje o devoto número um da beata baiana.

Seja sentado à mesa da Presidência do Senado, em Brasília, seja descansando no Maranhão ou viajando em compromissos políticos, ele anda por aí com uma medalhinha da freira no bolso. “Essa é a minha santa”, repete  o senador, que em 1988 indicou Irmã Dulce para o prêmio Nobel da Paz, com o apoio da Rainha Sílvia, da Suécia.

“Sarney, no seu inferno astral à frente do país, mandou muito dinheiro pra gente”, revela o cirurgião Taciano Campos, diretor médico do Hospital Santo Antônio. A própria religiosa foi quem decidiu dar o nome do presidente a um dos ambulatórios do hospital. Inaugurado em 1986, se tornou a porta de acesso à assistência nas Obras Sociais Irmã Dulce (Osid).

“Irmã Dulce foi crucificada por colocar o nome de Sarney no ambulatório. Ela encarou as críticas e disse: ‘não vou cometer essa injustiça. Vai ser Sarney mesmo’”, conta doutor Taciano. Mas outros influentes e endinheirados são apontados como beneméritos da mesma causa.



Gestão 
O banqueiro Ângelo Calmon de Sá e o engenheiro Norberto Odebrecht aparecem em diversos relatos não só como benfeitores, mas também como colaboradores da gestão das obras.

À frente do Banco Econômico, Calmon de Sá espalhou fotos de Irmã Dulce por centenas de agências bancárias, incentivando a doação.  Do setor jurídico ao marketing, o banco estava à disposição da freira. Todos os funcionários eram sócio-protetores das Osid. “Ela ia lá no banco quase todo dia. Eu chegava às 7h e ela já estava me esperando”, conta Ângelo Calmon.  
  
Então recém-formado, Norberto Odebrecht comprou a causa de Irmã Dulce desde o início. Começou a ajudá-la na construção do Círculo Operário. Depois, construiu integralmente com recursos de sua empresa vários prédios das obras. Comprometeu-se a levantar, por exemplo, o novo Albergue Santo Antônio, que teria 150 leitos. Entregou a obra em 5 de fevereiro de 1960.

Mais tarde, Norberto seria o maior responsável pela construção do Hospital Santo Antônio, em 1983, maior obra da vida de Irmã Dulce. “Eu considerava Irmã Dulce minha mãe profissional. Nós vivíamos o Círculo Operário da Bahia, aquilo de conseguir doações e materiais. Era trabalho em parceria”, diz Norberto, hoje com 90 anos.

Com o passar do tempo, Irmã Dulce buscou apoio desses mesmos poderosos para criar a Fundação Irmã Dulce, que tinha a função de reunir fundos para as obras, e a Associação Obras Sociais Irmã Dulce, responsável pela parte operacional e administrativa.

“Ela veio até mim e pediu que eu ficasse à frente dessas fundações”, diz Calmon. No início, o empresário negou. “Mas ela insistiu: ‘Irmão, eu quero você. Quero alguém que está comigo desde o início e que seja religioso’. Não tive como negar”. Além de Ângelo Calmon e Norberto Odebrecht, o conselho administrativo era composto também por nomes como Mamede Paes Mendonça, Euvaldo Luz, Jorge Calmon, Paulo Sérgio Tourinho e José Joaquim de Carvalho. Este último, empresário de sucesso, foi o primeiro conselheiro financeiro de Irmã Dulce.

Mas a relação com Ângelo Calmon era diferenciada. Enquanto a religiosa se consultava com ele sobre questões administrativas, ele encontrava nela ajuda espiritual. “Muitas vezes eu estava todo embananado com o banco e ela tinha a mesma palavra: ‘Irmão, o Espírito Santo vai resolver isso’. E resolvia mesmo”, conta.

Autoridades confirmaram presença
Não vão faltar autoridades na cerimônia de beatificação de Irmã Dulce. Para este domingo, no Parque de Exposições, já estão confirmadas as presenças do governador Jaques Wagner, o ex-prefeito de São Paulo, José Serra, e o governador de Sergipe (onde Irmã Dulce iniciou sua vida religiosa), Marcelo Déda.

A presidente Dilma é uma das convidadas de honra e sua presença está quase certa , mas sua agenda para o final de semana só será confirmada amanhã. “A presidente Dilma muito provavalmente estará presente”, diz Maria Rita Pontes, sobrinha da freira e superintendente das Osid. Também foram convidados para a festa os ex-presidentes Lula, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor, hoje senador.

Beata pediu que banqueiro cuidasse das Obras
Ao banqueiro Ângelo Calmon, Irmã Dulce chegou a escrever uma carta-testamento, em 15 de fevereiro de 1984, deixando-o como guardião da sua obra. “Estou entregando tudo ao senhor, o nosso trabalho, confiante de que fará tudo para manter o espírito da Obra”. Mas a freira alertava o banqueiro de que não queria parcerias com o governo.

Irmã Dulce não admitia palpites de gente de fora. “Não permita que o nosso Hospital se transforme em hospital de INPS (...)”, dizia, referindo-se ao antigo Instituto Nacional de Previdência Social. “Que o Santo Antônio seja sempre para o indigente, o necessitado”, pede a freira no texto. Mas Calmon a fez entender que boa parte dos atendidos pelo Santo Antônio não era indigente e, apesar de carentes, já tinham cadastro no sistema de saúde do estado. Podiam, portanto, ser atendidos em hospitais públicos.

“Eu disse para ela: ‘Irmã, a senhora está trabalhando de graça para o INSS’”. A partir de então, Irmã Dulce firmou convênio com a Previdência Social, então comandada pelo ex-ministro e governador Waldir Pires. Hoje em dia, 90% dos atendimentos realizados no hospital são através do SUS.


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