'Estamos focando no coronavírus e esquecendo da dengue', diz virologista

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29.02.2020, 05:35:00
Atualizado: 29.02.2020, 09:05:46
(Betto Jr/CORREIO)

'Estamos focando no coronavírus e esquecendo da dengue', diz virologista

Gúbio Soares, que identificou Zika Vírus no país, diz que existe 'pânico', explica as possibilidades de o vírus chegar a Salvador e como a dengue está 'negligenciada'

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Num intervalo de 40 minutos, o celular do virologista Gúbio Soares toca cinco vezes. “Todos querem saber se o coronavírus chegou”, justifica. Em 2015, ele - junto à pesquisadora e colega Silvia Sardi - identificou em 2015 o Zika Vírus no Brasil. No início de fevereiro, Gúbio descobriu uma forma de reduzir o tempo de diagnóstico do coronavírus de 48 para três horas por meio de um equipamento chamado Real Timer.

O professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) atende de médicos a colegas e jornalista desde que, na última quarta-feira (26), o primeiro caso de coronavírus foi confirmado no Brasil. A Bahia investiga cinco casos suspeitos até as 17h desta sexta (28), segundo a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab).

"O problema é que se criou um pânico exagerado e desnecessário", opinou. 

No Laboratório de Virologia da Ufba, onde recebeu a reportagem, Gúbio disse que o calor de Salvador deve impedir a circulação do vírus por aqui. Naquele espaço, a temperatura é mantida a 19 ºC para evitar que, mesmo dentro de freezers, a troca de calor aniquile os vírus. Um dia antes de nos receber, a Organização Mundial da Saúde (OMS)  elevou o risco de epidemia do coronavírus no mundo para "muito alto" - a taxa de mortalidade é de 3,4% na China e de 1,5% nos demais países. 

"O calor atinge as proteínas que protegem o material genético do vírus", explicou. 

A principal preocupação do pesquisador, agora, é de que a atenção para o coronavírus - que ele chama de "gripe forte" durante a entrevista - cause um surto de dengue, causada por outro vírus - flavivírus. "Estamos focando só no coronavírus e esquecendo da dengue", disse.

Ao longo da entrevista, Gúbio esclarece o que é o coronavírus, como ele age, os reais riscos de contaminação, como se prevenir e como a falta de informação e educação tem causado, na história, ondas de pânico e outras doenças. "A pessoa não tem o que comer e vai pensar em lavar as mãos", exemplificou. Confira, a seguir, na íntegra.

Agora que o coronavírus chegou ao Brasil, o senhor acha que se alastrará - principalmente depois do Carnaval?
Veja bem, não concordo que o fato de você encontrar um paciente, vindo da Itália, seja motivo para se alastrar. Não é verdade. É um caso pontual e já está sob controle. O que podemos imaginar, de agora em diante, é quantas pessoas vieram da Itália, passaram o Carnaval aqui e podem estar infectadas. Não sabemos. Quantos dias têm o Carnaval? Já acabou há quatro dias, você precisaria de mais sete [dias] para ver se essa pessoa vai apresentar algum sintoma e ver se ela precisaria de algum exame.

Sempre, sempre, no país, tem surto de gripe, conjuntivite e, às vezes, até diarreia depois do Carnaval. O mais comum é esse tipo. Tem a bactéria Streptococcus, que também acontece muito, na garganta. Muita gente pega infecção séria de garganta no Carnaval, porque há um processo de contato, de beijo, muito intenso. A garganta que fica cheia de pus. Aí você beija a menina linda, mas a garganta tá uma desgraça. 

Mas por que o senhor acredita que não se alastrará?
Porque todos os casos serão controlados. Se uma pessoa chegar hoje, com suspeita de coronavírus, mesmo depois do Carnaval, todas essas pessoas serão controladas. E outra, não vai matar ninguém, por exemplo, que esteve no Carnaval. Até porque quem esteve lá? Quantas pessoas de 80 anos, 75 anos, estavam lá pulando? Pouquíssimas. O corona, no pessoal mais jovem, não causa morte, vai causar gripe forte. O perigo é quando você tem uma população, como aquela do norte da Itália, bastante velha. Então, essas pessoas têm uma chance maior de morrer, porque são idosas, o sistema imunológico não defende.

Por que tem essa diferença entre mais jovens e mais velhos?
O jovem tem uma defesa imunológica mais rápida. Com a idade, as coisas vão ficando mais lentas, a célula não reconhece o vírus com rapidez. No jovem, o vírus penetra, causou gripe, as células que circulam pela corrente sanguínea começam a fagocitar, matar esse vírus. Nos idosos isso é mais devagar, é todo um processo de lentidão natural da idade. Você não tem tanta vitalidade. No jovem, você vai ter a gripe, vai, mas não vai adoecer, secundariamente, da gripe. O idoso pode adoecer, precisa ter uma atenção melhor. 

Equipameto Real-Timer que identifica presença do coronavírus (Foto: Betto Jr.) 

O paciente de São Paulo foi liberado depois da confirmação do vírus. O senhor acha que o controle por parte do governo é e será eficiente?
Você não pode reter um paciente que está bem porque ele está com coronavírus. Você controla a família e controla as pessoas que tiveram contato com ele. Você não pode tirar a liberdade da pessoa, é um estado gripal, o paciente está bem. O correto é examinar, ver se está bem e mandar para casa. O que a Polícia Federal está fazendo? Pediu para a empresa aérea o nome dos passageiros e vai olhar onde as pessoas sentaram. Então, você pega o nome dessas pessoas e conta o que aconteceu no voo. Você pode deixar o alerta e dizer que se sentir alguma coisa, se pronuncie. Sem alarde, sem pânico, porque você vai controlar a gripe. Se você imaginar que o H1N1 matou quase 800 pessoas, dengue matou quase 900, você tem um estado gripal que mesmo hoje, na China, o número de morte chega a 2 mil, para o número de casos, são quase todas pessoas idosas.

Há o fato do bebê que teve coronavírus e se curou. Em pessoas mais jovens, não há capacidade de morte. Vamos dizer uma pessoa que tem HIV e não faz tratamento, o sistema imulógico comprometido, câncer, deficiência imulógico, qualquer doença fora de controle, se você tem uma gripe muito forte é uma chance de desenvolver pneumonia. 

O coronavírus é uma gripe então? 
O coronavírus causa gripe. Existe os coronavírus que circulam e causam gripe normal e esse também é um estado gripal, uma gripe, com tosse, estado de febre. O problema dele é que, em alguns indivíduos, ele desenvolve um processo de pneumonia. A princípio, ele é uma gripe forte. Agora, a pneumonia é uma reação secundária. O coronavírus abaixa a imunidade e as bactérias se instalam e podem causar a pneumonia ou ele próprio pode causar. Aí precisa ser avaliado. O normal é que você tenha um estado gripal forte e mais cuidado. É tanto que quando você tem gripe muito forte e começa a secreção amarela, verde, se não tratar, você terá pneumonia, e o médico tratará a pneumonia. Quando você tem uma secreção muito forte, o antibiótico combate as bactérias oportunistas. Os antivirais não vão servir para isso, porque controlam o vírus na fase inicial. O coronavírus não apresenta nada de muito novo, nesse sentido. 

Aí a pessoa diz: "tá se espalhando". Lógico, é um vírus que ainda não tem resposta imunológica, o corpo não tem defesa porque não conhecemos ele. Quando meu organismo não conhece, eu sofro mais. Se eu já conhecesse, o organismo se defenderia. Por que o governo vai acelerar a vacinação contra gripe? Porque ele sabe que, quando chegar o inverno, a influenza não vai se espalhar tanto, com as pessoas gripadas pensando que é coronavírus. O corpo se comporta assim porque não conhecemos, não temos defesa. A gente vai ter a febre, dor de cabeça, vamos ter tudo, forte. Então, por exemplo, zika vírus se espalhou pelo país, principalmente no Nordeste, as pessoas ficaram doentes rapidamente porque eu não tinha defesa, você não tinha... 

E quando desconfiar que é corona?
Você só deve desconfiar quando se calcula de 10 a 12 dias depois do Carnaval, por exemplo, se for o caso de desconfiar por isso. Aí, se apareceram os sintomas, o médico vai avaliar, porque, aqui em Salvador, a gripe já estava instaurada desde antes do Carnaval. A pessoa precisa ter tido contato com uma pessoa que esteve nesses países afetados [Alemanha, Austrália, Camboja, China, Coreia do Sul, Coreia do Norte, Emirados Árabes, França, Filipinas, Irã, Itália, Japão,  Malásia, Singapura, Tailândia e Vietnã], também, para que se desconfie. Estava conversando com um amigo meu, que é médico e trabalha numa empresa privada, que vários funcionários da empresa já estavam gripados. Não é coronavírus. Não é possível no caso do Carnaval, por exemplo, que a infecção já tenha se estabelecido. Quantas pessoas podem ter chegado da Itália? Mas todas estavam contaminadas? Não. Quando ocorrer suspeita, coleta a amostra, manda fazer o teste.

O grande perigo, que está oculto, todo mundo está esquecendo, é o H1N1. O grande perigo não é coronavírus, é o H1N1. Todo mundo que chega mal no hospital chega mal, testa, primeira, o H1N1.

Como é que se dá a contaminação pelo corona? Existe uma distância segura?
Você tem que apertar a mão de uma pessoa doente, que não lavou as mãos e nem você lavou as mãos. Mesmo que você tussa num lenço, a contaminação está ali. Se você falar muito perto da pessoa, você respira as gotículas que estarão no ar e que vão penetrar no sistema respiratório e dias depois começam os sintomas de gripe. Se você beijou alguém no Carnaval que estava com corona... O normal é que a contaminação ocorra assim. O coronavírus é chamado de novo que, quando comparado ao material genético com os outros existentes, não coincidiu com nenhum. 

A família dos coronavírus está subdivida em quatro subfamílias, pelo menos, entendeu? Cada uma dessa espécie infecta ou humanos ou animais. O que aconteceu com esse corona é que ainda não foi determinado o animal hospedeiro. Você tem o morcego que, normalmente, tem um betacoronavírus nele, mas se ele transmite o vírus para o hospedeiro intermediário – porque o morcego é o hospedeiro natural. Para chegar ao ser humano é preciso um hospedeiro intermediário e esse hospedeiro ainda não foi encontrado.

O coronavírus que apareceu na Arábia [em 2013], por exemplo, o morcego transmitiu para o camelo, que transmitiu com o homem, porque o homem tem contato com o animal, você anda nele, ele transporta o homem... Tinha uma mortalidade de 34%. Quando o vírus faz essa passagem natural, acontece a mutação, porque você sai de uma espécie, vai para outra, e quando ele se multiplica dentro das células e, quando aparece, é totalmente diferente.

E o que ele faz dentro da gente?
Ele está se multiplicando na sua célula, destruindo célula, provavelmente, do pulmão, está na sua corrente também. Ele está debilitando seu organismo e você respondendo. Mas só o tempo de produção de anticorpos é mais demorado precisa de mais dias, de 10 a 12 [dias] ... E minha defesa pode e vai ser eficiente. Agora, uma pessoa tem um vírus no organismo e ele se multiplica. O vírus gosta de algumas células. O da hepatite B do fígado, e esse gosta das células do aparelho respiratório lesando células. Esse vírus vai continuar se reproduzindo em larga escala se não há capacidade de se defender. 

E quais são as condições de proliferação desse vírus? O vírus se espalha rápido assim? Por que os especialistas dizem que o vírus não tende a sobreviver ao calor? 
No inverno, o vírus permanece mais no ar, resseca, porque o vírus é protegido pelo frio. Se eu quero manter vírus vivo, eu mantenho o ambiente gelado, no freezer. Quando tiro e deixo ele no calor, ele morre, é inativado. A saliva, no verão, sai, mas não resseca. No inverno, não. Estamos em pleno verão, isso dificulta a propagação desse vírus, que é fraca no verão e é um vírus moderado. O problema é que se criou um pânico exagerado e desnecessário. Você vê, esse senhor com coronavírus [primeiro caso registrado no Brasil, do empresário que mora em São Paulo, tem 61 anos e veio da Itália] está bem, mostrando que há pânico exagerado.

"Acredito que pode ter um pânico exagerado com frutos econômicos. Quanto mais pânico gerar, mais impacto econômico. Alguém está ganhando muito dinheiro com coronavírus. A China, por exemplo, estava comprando e vendendo muito. Quem vai ganhar e perder com esse medo? A gente tem que ver que é teoria da conspiração, mas é exagero"

Mas ele pode criar estratégia para sobreviver mesmo no calor?
Ele não vai conseguir sobreviver no calor. Ele vai sofrer com as temperaturas de Salvador. A pessoa gripada vai eliminar secreção e, em questão de minutos, a secreção estará aquecida e começará a morrer. O calor atinge as proteínas que protegem o material genético do vírus. Toda vez que há calor, o vírus não vive. Por isso se diz que no Brasil, temos uma sorte da natureza que é o calor, que vai matar o vírus circulante. Você dá um espirro na praia, tempo quente, areia quente, não tende a contaminar ninguém. No frio não, ele cai na superfície e se mantém ali, ressecado. Eu digo que no frio o vírus vive 10 minutos e, no calor, não sobrevive a três, quatro minutos. 

Qual é a principal força do corona?
Acho que é a propagação, a facilidade que tem de se propagar de um ser humano para outro. Essa é grande preocupação, não a taxa de mortalidade. E a facilidade é porque ele é novo, se fosse um coronavírus conhecido, não teria nada disso. Se eu já conhecesse o vírus, eu teria uma resposta imediata. Daqui a uns quatro, cinco anos, se tiver vacina, por exemplo, a preocupação será outra. 

No caso do coronavírus, automaticamente, se você tocar numa pessoa que está com coronavírus, passar a mão na boca, no nariz, no olho, você pega. Você pega invariavelmente, porque você não conhece.  A preocupação é essa. 

E você tem medo, Gúbio?
Eu não. Não acredito que vá ter nada. Mesmo que entremos em contato com alguém e se o vírus circular em Salvador, o vírus vai circular com menos força. Vai ter gripe? Vai e o vírus já estava circulando mesmo antes do Carnaval.

Por que será que a gente tem tanto medo desses novos vírus? 
O medo, a insegurança, a incerteza é sobre algo que você não pode controlar. Quando você não pode controlar determinada situação, você entra em pânico. Quando você controla a situação, qualquer que seja, não. Quando algo lhe atinge, e causará danos a você ou pessoas queridas, você acha que aquilo se estenderá. O pânico é um instinto de conservação exacerbado.

"As pessoas estão entrando em pânico porque acham que vão morrer, que os avós vão morrer. Não é a realidade, não é a realidade científica. Por que está morrendo gente na China? Bom, porque lá é o epicentro".

Mas, se você olhar uma cidade que tem 10 milhões de pessoas, morreram duas mil e poucas, tenha paciência. Quantas pessoas morrrem por acidente de carro, de bala perdida? Muito mais do que isso. Então, se você tem 10 milhões e morreram 2 mil, está dentro da estatística esperada. É uma doença como qualquer outra. 

O senhor fez parte do grupo que descobriu o Zika no Brasil. Diante de tudo isso, você tem mais medo do Zika ou do corona? 
Eu tenho mais medo da dengue, do zika, porque em Salvador, você já teve surtos de dengue, tem ocorrido dengues. Agora, dengue 2, dengue 1, está voltando. Toda população que já teve dengue pode ter uma síndrome mais forte da dengue. Como é um vírus conhecido, eu vou responder com tal violência que termina afetando a mim mesmo, porque as substâncias de defesa vão atacar nossas células e muitas células serão mortas e causaram lesões em tecidos. O vírus da dengue, hoje, é muito mais perigoso.

A gente tem surto, hoje, em Salvador, de chikungunya, que causa lesões em pessoas jovens, as pessoas ficam até sem poder se movimentar. Têm mulheres grávidas que terminam passando, através do sangue, para esse neném. Essas doenças são muito mais graves do que as gripes que surgem, porque matam muito mais, silenciosamente, sem tomar providência.

O senhor acredita que o coronavírus tende a ocultar essa situação? 
Minha preocupação é que essa campanha toda do coronavírus negligencie as campanhas contra dengues. E a dengue? A dengue está em Salvador, no interior, nas periferias, zika vírus continua circulando. Estive com uma criança nos braços que nasceu em outubro de 2019 e nasceu com microcefalia. Significa que o vírus continua circulando. Agora, pergunto: "com baixa intensidade?" Não sei, porque nem toda população que tem febre e mancha no corpo procura um médico.

"Temos que ter cuidado porque estamos focando só no coronavírus e esquecendo da dengue em pleno verão. Salvador tem surto de chikungunya, por exemplo".

Atendi uma pessoa jovem, hoje, do Uruguai, e ela está com o problema. Eu falei com ela: "vá no médico, informe no posto de saúde". Mas as pessoas estão enlouquecidas só com coronavírus. Um medo exagerado que não deve ter, porque esse vírus não vai resistir muito tempo aqui no Brasil mesmo que ele apareça. Ele vai aparecer pontualmente, como aconteceu em São Paulo nada mais. 

'O vírus da dengue, hoje, é muito mais perigoso', diz Gúbio Soares (Foto: Betto Jr./CORREIO)

E como é estar nesse lugar de prosseguir nessas pesquisas sobre esses vírus novos? 
Veja bem, eu estou sem financiamento, estamos usando um resto de dinheiro de uma professora. Compramos um equipamento para testar coronavírus com esse dinheiro. O que chama atenção, na Bahia, é que a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) não abre, há cinco anos, um financiamento para pesquisa. O governo atual não abriu editais.

Não temos dinheiro, nem apoio, para pesquisar, sair pesquisando, trabalhando. Fazemos um esforço muito grande para poder fazer isso, é tanto que decidimos tentar prestar serviços, agora, para ver se ganhamos dinheiro para comprar reagentes, materiais necessários para comprar material. Não sabemos o que vamos fazer em 2020, porque não temos dinheiro. Vamos ficar um olhando para a cara do outro... Podem ter vírus circulando na Bahia que não temos nem conhecimento.

Descobrimos um surto de diarreia e descobrimos que era norovírus, nós que descobrimos, publicando o trabalho, em 2008. Já em 2018, essa aluna nossa publicou, como tese de doutorado, estudando a genética desse vírus. Nós podemos e temos a capacidade de fazer muitos trabalhos, mas não temos dinheiro para fazer. Estamos a Deus dará.

O que se repete, de erro, na forma de tratar e enxergar a disseminação desses vírus?
O que acontece no Brasil, com essas doenças, é que mostra uma realidade em que 55% não tem acesso à agua potável e esgoto, as pessoas vivem de forma precária, nosso estado da Bahia é pobre, as condições de habitação, muitas vezes, não são adequadas. A pessoa não tem água, pega água de um vizinho, a água é acumulada em tanque aberto e começa a proliferação de mosquito. Você vê muita precariedade que leva a um quadro de doenças, que são instaladas porque não há educação no sentido de lavar as mãos.

"A pessoa não tem o que comer e vai pensar em lavar as mãos? As doenças se proliferam porque o poder público não cuida da saúde da população carente".

E isso não tem nada a ver com Bolsa Família, é dar educação, é dar moradias dignas, tudo isso evita doenças. A doença existe no Brasil por causa de condições sociais baixas, que levam a promiscuidade, uma vivência sem educação. Falta um programa nacional que resgate as famílias para que elas tenham dignidade.

Na rua principal de Pau da Lima, lá embaixo, passa uma espécie de rio-esgoto que, quando chove, enche e invade as casas. Mas as pessoas precisam voltar para aquelas casas, tudo por uma carência do estado. Esse é o principal desafio da saúde pública. A saúde pública só estará boa quando as pessoas tiverem condições mínimas de viver. Tudo isso leva a enfermidades.

Mas, no caso do coronavírus, o senhor acha que a saúde pública será um entrave?
Pode ser. Mas não acredito. Vai causar uma gripe, vai se alastrar uma gripe. Mas, volto a dizer, que não acredito que vá levar a morte mais pelo clima, porque não vai ter facilidade de transmissão. Quando a gente vai num bairro carente e vamos cuidar de uma pessoa com dengue, você vê que elas começam a tomar melhorias para que o mosquito não volte a se proliferar. Eles fazem ações por eles mesmo. No caso de uma gripe, o posto saúde será procurado e o governo terá que tomar providências, o que seja, para cuidar dessas pessoas.

Qual situação mais grave de pânico você já acompanhou?
A mais preocupante foi em 2015, com o Zika Vírus, porque a mídia, de uma maneira geral, é boa, porque leva notícia e esclarece muitos pontos. Mas há uma mídia, que considero marrom, que vive da miséria e do sangue corrente, das vítimas. Num desse programas de televisão, vi na época, o repórter perguntava a pessoas que faziam uma manifestação: “Você acha que a água está causando as manchas nos corpos, né?”. Então, você induz essa pessoa a acreditar que, quando ela toma banho, fica com alergia. Não pode. A mesma água que estava lá, em Camaçari, estava aqui, e nisso você gera um pânico, as pessoas não queriam tomar mais banho por causa disso.

Me chamou atenção, porque não podia ser a água de Camaçari de jeito nenhum, e vi a necessidade de não causar pânico, que não gerasse conflito quando aquilo pode ser solucionado. As amostras de Camaçari chegaram e descobrimos que era o Zika Vírus. Informamos ao Ministério da Saúde e começou a se estudar o que causava uma leve febre, um mal estar, que não era nada muito grave, então todo mundo se acalmou. Um novo pânico veio depois quando começaram a nascer crianças com microcefalia.  Aí, sim, você viu um novo pânico, entre as mulheres grávidas.

E a gente não aprende por que a tentar controlar esses vírus? Todos os anos, por exemplo, se fala da necessidade de não deixar água parada...
É difícil controlar. Para você controlar você teria que extinguir o Carnaval, por exemplo. A curto prazo, isso não aconteceria. Quantas pessoas com tuberculose foram ao Carnaval, não sabiam e transmitiram? Você beijou quantas pessoas? A doença, quanto mais gente junta, tem facilidade de disseminação. As condições também. Quanto mais há uma carência do estado em suprir as necessidades das pessoas, as doenças parecerão. Você vê que na Idade Média, Henrique VIII mudava de castelo, de vez em quando, porque tinha umas mortes lá que diziam que era causadas por uma doença que era transmitida pelo suor e que o sangue saía pelos poros.

Pela história, pode ter sido um vírus transmitido por um rato, aquilo aconteceu por falta de higiene. A peste bubônica, que dizimava cidades na Itália, era transmitida pela pulga que picava o rato, porque o rato andava dentro de casa. A falta de higiene levava às enfermidades. Quando o homem descobriu que a higiene preservava vida ele começou a viver mais. Hoje, a gente vive mais porque a higiene protege a gente.

Teve um médico que percebeu que, quando o médico lavava as mãos na hora do parto, a mulher não morria. Então, ele observou, de um lado, as mulheres tinham médicos que lavavam as mãos e do outro não. Naquela época, a roupa do médico, quanto mais sangue tinha nela, melhor médico ele era considerado. Esse médico descobriu que não concordava com aquilo e conversou com os médicos mais jovens, de que eles precisavam lavar as mãos. Ele viu que a mortalidade, onde os médicos lavavam as mãos, era menor. Ele falou ao diretor, mas os médicos se achavam deuses, expulsaram ele do hospital. Mas ele estava certo, os micróbios estão nas mãos e as mulheres morriam muito de infecção.

Hoje, não, a mulher pode morrer de parto por outra razão. Você vê, até hoje lavar as mãos salva vidas. 
A gente vê que, para a saúde existir, tem que ter educação. Não educação formal, mas uma educação que dê dignidade e moradia. O indivíduo que come lixo, que vive entre esgoto, ele é doente. Você vê várias pessoas andando na rua doentes.

Que entendimento sobre "doença" é esse? 
A doença mental, por exemplo, muitas vezes, surge pela fome. A fome constante leva a uma doença mental. Você é uma pessoa doente num contexto, você não tem saúde, não se alimenta direito, isso leva a uma doença mental. A fome lhe desespera e você perde o equilíbrio mental. Tudo isso leva a um deterioração da saúde. Hoje em dia, você tem uma medicina diferente, mais humanizada. A medicina evoluiu muito e hoje se vê que é preciso evitar que o indivíduo fique doente. Se discute muito o papel da medicina na prevenção, para que a doença não chegue.

As medidas para o coronavírus são para que ele não chegue, não para tratar a doença, porque a medicina, hoje, quer que você não fique doente, que você coma menos açúcar, menos sal. Existe uma medicina preventiva, que é a melhor, a medicina tem que ser preventiva. As medidas são para que ninguém fique gripado de coronavírus, porque o custo de tratar é muito maior. Por isso, tem que existir as vacinas. Uma coisa que acho que o mundo, a ciência em geral, precisa, é evoluir o processo de produção de vacinas. O governo deve se preocupar em fomentar cientistas a pensar maneiras de como pensar novas vacinas. Por exemplo, a vacina da dengue, que é produzida em ovo embrionário, será que não existe uma forma para que ela seja produzida de maneira mais rápida? Então, as tecnologias avançaram no diagnóstico. 

E esse movimento contra vacinação, como o senhor enxerga? 
É uma loucura as pessoas agirem assim em pleno século 21. O que prejudica é o que está acontecendo agora. O sarampo voltou e o sarampo sim pode matar, principalmente a classe pobre, a classe desnutrida. Quando mais desnutrida a criança está, mais grave é o caso. As pessoas dizem que não vão vacinar, mas se ela pegar sarampo, vai contaminar 20 crianças, esse é o problema. Se você não vacina seu filho, problema seu. Se ele ficar preso em casa, não pegar ou se pegar e resistir, ótimo. Não vai vacinar contra poliomielite? Você terá seu filho, que poderia, sei lá, ser um Neymar ou Messi, numa cadeira de rodas.

"Por que a ciência não evolui nesse sentido, o que falta? Falta investimento e persistência dos governos para produzir novas vacinas, para que a gente possa se libertar de muitas doenças".

Surgiu esse coronavírus, se tivéssemos uma tecnologia mais avançada de vacina, seria mais simples produzir uma vacina, porque o vírus já está isolado pelos laboratórios. Já conhecemos o sistema imune do homem muito bem, já sabemos interações de células, muitas respostas virais, agora não conseguimos fazer vacina. O HIV, até hoje, não tem vacina que funciona. Talvez o foco de produzir uma vacina ainda esteja em tecnologias conhecidas, não em tecnologias modernas, mais rápidas.

Mas tem algum interesse da indústria farmacêutica, por exemplo, para que não se avance? 
Acho que não. A gente procura fazer o que é mais fácil e mais rápido. Porque investir em novas tecnologias leva mais tempo e você quer resolver a doença. Esse é o conflito. Mas acho que tem que haver um equilíbrio para que aconteçam as descobertas. Você tem um aparelho celular na mão e isso é mais importante que o Apolo 11 [vôo espacial responsável pela primeira viagem à Lua]. Como evoluímos até aqui! Há relógios que você fala pelo relógio. Por que você não evolui, também, no processo de vacinação, no processo terapêutico? Falta investimento. Os governos têm que pensar novas formas de pensar as vacinas porque vão surgir novos vírus.

Qual seria, então, o modelo de tratamento adequado?
Evitar doença. Mas, para isso, é preciso uma condição de vida melhor do que a que temos hoje. A gente tem que ter uma prevenção. Outra coisa, pensar um modelo de comportamento humano que se atente para a vida que você leva. Se você muda seu estado de pensar a respeito da vida que você tem, você começa a ter um estado de saúde melhor. Quando você deixar de valorizar ter uma Ferrari, ter o melhor carro da vida, quando você enxergar o outro, não como seu inimigo, quando você pensar que o outro é um ser humano com quem podemos conviver bem, sem tentar destruí-lo, a gente deixa de ter certas doenças. Se a gente começa a enxergar o ser humano como ser humano, a gente deixa de ter certas doenças, porque as doenças são também psíquicas. A gente adoece porque a doença já se instalou na gente.

Uma pessoa que fuma está propensa a ter câncer e ela sabe disso, mas fuma. Se eu tenho um comportamento sexual extenso, vou adquirir uma doença em algum momento. E a doença pela falta de respeito ao outro, de alguma maneira, vai gerar em mim um campo psíquico. A ciência já sabe, hoje, que isso, o psíquico, gera doenças. 

***

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