Fagner tem vida pessoal e artística revelada em detalhes em biografia

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06.07.2019, 08:45:00
Atualizado: 06.07.2019, 08:49:23

Fagner tem vida pessoal e artística revelada em detalhes em biografia

Prestes a completar 70 anos, cantor ganha livro escrito por Regina Echeverria

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Há quem conheça Fagner pela sua grave e inconfudível voz, mas a vida do cantor cearense, cuja trajetória se confunde com a da própria música brasileira nas últimas quatro décadas, vai muito além dessa importante marca. 

Se você é do time que conhce Fagner apenas do rádio ou dos sucessos que emplacou em telenovelas, uma boa chance de conhecer detalhes da vida profissional e pessoal do artista, que sempre manteve esta última faceta sob reservas, é através da biografia Raimundo Fagner: Quem Me Levará Sou Eu (editora Agir, 440 páginas). 

Raimundo Fagner no início da carreira, nos anos 1970 (Foto: Divulgação)

Escrito pela jornalista Regina Echeverria, o livro começa com um fato desconhecido por muitos: a de que, há 13 anos, Fagner virou pai. Sim, o solteirão mais convicto da MPB descobriu em agosto de 2006, aos 57 anos, que o advogado trabalhista Bruno, então com 32 anos, e que ele conhecia desde criança, era seu filho biológico. 

A revelação, comprovada anos mais tarde por um teste de DNA, não foi de todo surpresa, já que a semelhança entre os dois sempre gerou a dúvida e rumores. “Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”, sentencia Fagner, sobre ganhar uma família, com direito a netos e tudo, já naquela idade. É aos netos, Arthur e Clara, e à irmã, Marta Lopes, que ele dedica a biografia, lançada em abril.



Cronologia 
Desde o convite feito à Regina Echeverria para a escrita do livro até a publicação propriamente dita, foram cerca de três anos. “Já conhecia o Fagner há muitos anos, desde a década de 70, quando eu trabalhava na Veja. Desde aquela época, nos falávamos de tempos em tempos, eu ia assistir a shows dele, acompanhava a carreira. Fiquei honrada com o convite, é um personagem polêmico, de história forte, de opiniões firmes”, elogia Echeverria, que já escreveu outros importantes volumes da bibliografia musical brasileira, a exemplo de Furacão Elis (1985), seu mais notável trabalho no gênero.

A autora ressalta a facilidade que teve em acessar documentos, fotografias, entrevistas e reportagens de Fagner durante a pesquisa, devido ao trabalho feito por Marta, irmã de Fagner, que é bibliotecária.

A escolha de começar a narrativa por um fato pouco conhecido da vida do artista é algo que ela já havia apostado em outras biografias. “Começo todos os meus livros com um grande acontecimento na vida da pessoa, e volto para o nascimento. Acho muito difícil biografia que não é da ordem cronológica, acho que facilita para mim e também para o leitor”, explica, ao dizer que a descoberta de que Fagner era pai e avô foi algo surpreendente também para ela. “Não sabia dessa história, e achei muito importante porque mudou a vida dele totalmente. Imagine você viver tantos anos sem ter certeza de que uma pessoa é seu filho, e quando confirma isso ainda vêm dois netos?”, interroga.

Nascido em Fortaleza, capital do estado do Ceará, foi registrado e se considera nascido no município de Orós, onde cresceu, passou a infância e ainda visita regularmente. É o mais jovem dos cinco filhos de José Fares Haddad Lupus, imigrante libanês que também era cantor, e Francisca Cândido Lopes. Foi do pai que ele herdou o gosto pela música e também um certo lamento característico do canto árabe. Em toda sua carreira, mesmo quando assumiu ares mais românticos, nunca abriu mão de representar sua terra, seu sertão.

“Perfeccionista, (Fagner) quis rever cada parágrafo, acrescentar detalhes, explicar uma ou outra passagem, dar crédito a todos os que fizeram ou fazem parte de sua vida e carreira”, revela trecho de nota editorial, não assinada, que revela o grau de interferência do artista no livro.

Para Regina, algo que até então ela não havia lidado, por sempre ter biografado artistas já mortos. “Faz diferença, óbvio, porque quem não gosto de controlar sua própria biografia? Mas minha grende dificuldade não foi essa, e sim de encontrar com o Fagner pessoalmente, ele tem uma agenda apertada. A gente não sabe, mas a agenda dele é lotada”, conta.

Pessoal do Ceará 
Fagner estourou na década de 70 junto aos conterrâneos Amelinha, Belchior e Edinardo, conhecidos como “o pessoal do Ceará”. Apesar de colocados no mesmo bolo, a turma não era exatamente unida. “Diziam que a gente vivia tão de costas um pro outro que, como a Terra é redonda, um dia a gente iria se encontrar”, graceja Fagner sobre a relação entre eles.

Composta em parceria com Belchior, Mucuripe foi um dos seus primeiros sucessos, e além de ser conhecida na sua voz, foi gravada por  Elis Regina, Roberto Carlos e Zé Ramalho.

Fagner ao lado de Gonzagão, amigo e ídolo (Foto: Divulgação)

Artista de personalidade forte e convicções políticas sempre expostas, Fagner fez muitos amigos, e também muitos inimigos por conta do seu jeito e de suas ideias. Da vasta lista de amizades, nomes como Marília Pera, Zico, Paulinho da Viola, Ronaldo Boscôli, Elis Regina e Luiz Gonzaga - este último, um dos seus grandes ídolos e influenciadores. 

Na lista de inimigos, a crítica musical, de modo geral, e também o conterrâneo Belchior(1947 – 2017) - a quem deve a ida de Brasília ao Rio de Janeiro - e Caetano Veloso. “Não quero que ninguém me ache bonzinho. Não quero que ninguém passe a mão na minha cabeça”, teria dito Fagner em 1977 sobre a fama de mau. As brigas são contadas com muita brevidade e sem maiores detalhes no capítulo Ideias Fagnerianas.

Com o amigo de longa data Chico Buarque, com quem dividia a paixão pelo futebol e pelo Fluminense, deixou de falar há cerca de dez anos, por conta do posicionamento político. “Perdi um amigo que amo muito, infelizmente,  porque a política deveria ser uma coisa a parte”, diz sobre o caso. 

No fim, a ideia que prevalece no livro é uma só: a de que apesar do gênio forte, Fagner é um ser humano solidário, fiel aos amigos e devotado à família, além de um artista exemplar.


Livro  Raimundo Fagner: Quem Me Levará Sou Eu
Autora Regina Echeverria
Editora  Agir
Páginas  440
Preço  R$ 49,90

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