Guerra entre facções apavora população de Itinga

bahia
11.08.2021, 05:00:00
(Arisson Marinho/CORREIO)

Guerra entre facções apavora população de Itinga

Moradores criaram próprio toque de recolher na localidade de Areia Branca

Desta vez a atitude não partiu de uma ordem expressa do tráfico, mas sim de uma medida de sobrevivência de moradores e comerciantes da localidade de Areia Branca, bairro de Itinga. "A gente que tem filho vive com medo e é por isso que 18h ninguém sai mais", disse uma dona de casa. A guerra entre duas facções vem deixando a população amedrontada em Itinga a ponto de eles mesmos decretaram o toque de recolher há cerca de 15 dias. 

"Não teve outro jeito. Foi uma iniciativa da própria comunidade de não sair mais à noite, ocasião dos tiros. As pessoas estão morrendo por causa da briga entre eles. Essa semana já mataram dois aqui", disse um outro morador de Areia Branca ouvido pela reportagem na manhã da terça-feira (10), fazendo referência ao duplo homicídio ocorrido no domingo (8), Dia dos Pais. 

Artur Reis Miranda, de 27 anos, e Cleston Pereira Mariano, 33, foram assassinados na Rua Dois de Julho, território da facção Bonde do Maluco (BDM). As vítimas moravam em um condomínio do programa federal de habilitação Minha Casa Minha Vida na localidade de Jambeiro, também no bairro de Itinga, mas controlada pelo Comando Vermelho (CV). "Eles morreram porque não eram da área e os caras aqui não aliviam", disse um rapaz. 

(Foto: Reprodução)

A morte dos dois rapazes deixou ainda mais a população amedrontada. Isso porque temem um revide do CV. "Estamos hoje andando apavorados. Imagina você nascer e se criar num local onde antes a paz reinava e hoje é um campo de guerra? Vi tudo isso aqui crescer, tudo antes era mato. Dava gosto dizer que morava aqui. Hoje, quero sair e ninguém quer comprar minha casa. Estou evitando sair até de dia, porque sei que a qualquer momento o grupo rival não vai deixar barato as duas mortes", declarou um senhor . 

Uma senhora disse que a briga entre as facções acontece desde o início do ano, mas se intensificou há cerca de 15 dias. "A gente não sabe como isso tudo começou. Aqui era uma paz. Às vezes aparecia um corpo, mas não era de ninguém conhecido. Era o povo de Salvador fazendo suas porcarias e 'desovando' aqui. Mas no início do ano, começou um 'bang-bang'. Um grupo vem para pegar os daqui e os daqui vão para pegar os de lá (Jambeiro). Só que nas duas semanas isso tem ocorrido com mais frequência. Não estamos tendo a nossa paz. E a polícia só passa aqui depois que as coisas acontecem", reclamou ela, indicando com um gesto da cabeça a presença de uma viatura da PM. 

Os comerciantes estão também apavorados. Em Areia Branca, o comércio é bastante variado e movimentado. Mas ao cair da noite, vira um deserto. "Eu mesmo não abro depois das 19h. Às 18h já estou mandando os clientes irem para casa, fechando o caixa, arrumando tudo para encerrar. Tem alguns comerciantes, mas são pouquíssimos, que se arriscam, que ficam até 21h, mas já disseram que não vão mais porque a clientela sumiu e estão arriscando as vidas à toa", declarou o dono de um bar. 

Mortes 
Segundo relato dos moradores, Artur e Cleston estavam  em um GM Celta e entraram na Rua Dois de Julho, conhecida como Rua do Desvio, para ter acesso mais rápido à Via Parafuso. A intenção deles era chegar em um posto de combustível às margens da via, no sentido Camaçari. A maior parte do trecho não tem asfalto, dificultando o acesso. Durante o trajeto, os dois não contavam com um grupo de homens armados do BDM. 

"Os caras daqui cercaram o carro deles e mandaram sair. Quando disseram que eram do condomínio Capim Arara, lá no Jambeiro, os dois foram baleados. O carro deles ficou aí até ontem", disse um morador.  Artur foi socorrido para o Hospital Geral Menandro de Faria e Cleston, para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), em Areia Branca, mas não resistiram. 

A execução foi gravada e disseminada nas redes sociais como um troféu e um recado aos rivais. "Olha aí, ó, pegamos os alemão (sic)", diz um dos bandidos enquanto disparos são efetuados contra a uma das vítimas que aparece deitada na gravação a qual a reportagem teve acesso. 

De acordo com a Polícia Civil, a 27ª DT / Itinga investiga as mortes. "Algumas testemunhas já foram ouvidas na unidade e uma das linhas de investigação é que a morte deles tenha relação com disputas de grupos rivais, que estão ocorrendo naquela localidade", diz nota da PC. De acordo com informações iniciais da PC,  Artur tinha envolvimento com tráfico e já havia sido preso por roubo. A outra vítima não tinha passagem.

Sobre as execuções, a Polícia Militar informou que, de acordo com  a 81ª CIPM, neste domingo (8), por volta das 22h25, PMs foram acionados pelo Cicom para atender a uma ocorrência de duplo homicídio na localidade de Areia Branca, fato constatado em seguida. 

Jambeiro
Artur e Cleston moravam no condomínio Capim Arara, no Jambeiro. O local fica na Rua Sete. "Ficamos sabendo do ocorrido. Eles moravam aí há pouco tempo. Eram do Capelão. Dizem que eram trabalhadores, mas não estamos no coração de ninguém. Só Deus sabe o aconteceu para eles terem uma morte dessa", disse o homem num bar situado em frente à rua. O amigo dele disse que todos também estão apavorados por causa dos tiroteios constantes na localidade . "Estamos todos aqui com medo, temendo ser a próxima vítima. Se você circular por aqui, vai encontrar várias marcas de tiro. É tiro em muro, janela, carro, tem marca de bala para todo o canto", declarou. 

A reportagem tentou entrar no condomínio onde residiam as vítimas, mas foi orientada pelos próprios moradores para não seguir em frente. "O clima está muito tenso por lá. O local já é problemático e agora com essas duas mortes ...  Está fazendo medo até de dia. É melhor não ir", advertiu um dos entrevistados.

(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)


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