Jovem folião, você dará ou Damares?

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22.02.2020, 05:30:00
(Ilustração: Quintino Brito/CORREIO)

Jovem folião, você dará ou Damares?

Celibato Baianos não entram em consenso sobre campanha de ministra da família sobre abstinência

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Diz o ditado que tudo o que é proibido é mais gostoso. Mas e quando não se tem a idade ideal para fazer algo, o que pode barrar essa vontade? No caso do sexo, a ministra Damares Alves, da Família e Direitos Humanos (MMFDH), lançou uma campanha, às vésperas do Carnaval, para desincentivar os novinhos a cair nos prazeres da carne antes da hora. O objetivo é reduzir os altos índices de gravidez na adolescência no Brasil, mas a proposta gera divergências. 

O CORREIO ouviu adolescentes de diferentes idades, naturalidades e religiões. O resultado? Não há consenso. A estudante Ana Abreu, 16 anos, considera que o projeto demoniza o sexo e retrai a sexualidade dos adolescentes. “Faz parecer algo sujo e pecaminoso. Transar não é errado se é consensual e com segurança”, opina Ana, que é agnóstica.

Feirense e ateu, Pedro Guilherme Nascimento, 18, também não dá muitos créditos à ministra. “ A galera não vai parar de fazer sexo porque a Damares quer”. Para Pedro, o melhor seria trabalhar com a educação sexual nas escolas. Já Tayndara Freitas Ferreira, 13, candomblecista, acha que é possível deixar a vida sexual para depois dos 18 anos. “Hoje você fala uma coisa para o bem do adolescente e eles falam que querem do jeito deles, e vai lá e dá ruim”. Para ela, iniciar o sexo na maioridade é uma forma de reduzir a gravidez precoce.

Um relatório publicado em 2018 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a taxa mundial de gravidez adolescente é de 46 bebês para cada mil jovens meninas entre 15 e 19 anos. No Brasil, um em cada cinco bebês nasce de uma mãe com idade entre 10 e 19 anos, o que põe a taxa em 68,4 nascidos para cada mil adolescentes   — acima da média mundial. Atualmente, mais de 434,5 mil adolescentes se tornam mães por ano no país.

Na Bahia, entre 2003 e 2018 houve queda de quase 12,5% no número de filhos de mães jovens. O total de nascidos nesta condição caiu de 231,6 mil para 202,7 mil. Ainda assim, em 2018, quase 18% das crianças nascidas na Bahia tiveram mães de até 19 anos, segundo o IBGE. Para a ministra, os dados revelam um problema de saúde pública e é preciso retardar o início da vida sexual. Os especialistas ouvidos pelo CORREIO discordam.

A proposta enfrentou resistência da Defensoria Pública da União (DPU) e do estado de São Paulo. Presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), maior sociedade médica do país, a pediatra Luciana Silva, professora da Ufba, explica que, a abstinência sexual é um método contraceptivo, mas a informação é sempre o caminho mais indicado. “Infelizmente, muitos adolescentes desconhecem os métodos contraceptivos, mas é importante que eles possam escolher quando começar [a vida sexual]”, afirma a médica.

Instinto sexual
A ginecologista e sexóloga Cristina Sá, da Clínica Emeg, explica que a relação com o sexo é instintiva. Por volta dos 10 a 12 anos tem início a puberdade, quando os hormônios sexuais começam a aumentar. A partir daí, os jovens passam a ter desejo sexual, ainda que não entendam o sexo na perspectiva adulta. “Eles começam a descobrir zonas erógenas  gostosas de serem tocadas”.

Para a médica, é possível conter os instintos, mas é algo difícil, por ser sensações naturais do corpo. Um adolescente que entra num relacionamento tem essa vontade mais aflorada por causa dos estímulos. Apesar disso, a sociedade lhes impõe contenções sociais, morais e religiosas, acrescenta Sá.

Regressão
Para as sexólogas Mirna Rosier e Cris Acuri, a campanha é uma regressão no processo de educação sexual. “Reprimir pode ter efeito contrário”, diz Rosier. Acuri segue o mesmo raciocínio. “A abstinência sexual tem que ser uma opção e não imposta pelo governo. Ao colocá-la como política, o jovem pode entender como uma afronta a ele, diz. 

Fundador do movimento cristão Eu Escolhi Esperar (EEE) — que orienta esperar o casamento para ter experiências sexuais  —, o pastor Nelson Junior diz que a iniciativa do governo é válida. “O Brasil hoje só tem prevenção secundária [métodos contraceptivos] e, apesar da queda dos números de gravidez na adolescência, não são suficientes”. Ele se diz contra a imposição e defende a adoção da abstinência como uma política somada as que já existem.

Pedro Guilherme Nascimento 
18, ateu, de Feira de Santana
A ideia não vai funcionar por uma questão clara: a galera não vai parar de fazer sexo porque a Damares quer. Seria melhor a conscientização, a educação sexual ao invés de sugerir abstinência. Nenhum dos meus amigos concordam. Primeiro porque o programa foi lançado com um mês antes do Carnaval, então não teria tempo suficiente para essa conscientização. Tive aula de educação sexual em duas oportunidades em aula de Biologia e a galera encarou com maturidade, tirando dúvidas.

Ciro Britto
18, evangélico, de Feira de Santana
Eu soube da campanha bem por cima, não li nada sobre, mas ouvi pessoas comentando. Acho que tem um ponto a se discutir porque a gravidez na adolescência é problema grande de saúde pública, mas não pode querer impedir que o adolescente faça sexo. Se a gente puder tomar medidas para educar o adolescente é melhor do que campanhas de abstinência. Se não chegar ao ponto de levar essa educação, talvez, em alguns lugares, essa campanha seja efetiva, mas não deve ser o primeiro recurso. É melhor trazer instrução. 

Isabelle Araújo de Oliveira
17, católica, de Feira de Santana
Eu vi a campanha na televisão e não citava nada sobre educação sexual na escola. Acho que não adianta fazer essa campanha porque acredito mais na educação sexual na escola. Adiar não funciona porque a pessoa jovem está na fase em que acaba conhecendo e acaba acontecendo. Eu tive aula no colégio e acho importante porque previne doenças, previne o sexo muito precoce. Ajuda a identificar abuso sexual, porque quando a pessoa conhece o corpo, ela sabe os limites e os impõe. 

Victor Hugo de Jesus 
14, católico, de Salvador
Existem dois públicos que vão ser tocados pela campanha e acho que, pode sim, vingar, porque existem pessoas que têm predisposição para isso. Vai ter um grupo que vai prestar atenção e outro que vai ignorar. Na minha opinião, eu acho que os jovens podem deixar isso para a vida adulta. Mas acho que o governo dizer para deixar para a vida adulta... É preciso conscientizar sobre métodos contraceptivos.  Eu tive aula no colégio e falou sobre DST, órgãos genitais.

Tayndara Freitas Ferreira
13, candomblé, de Salvador
 Acho bom para os jovens nos dias de hoje porque é uma prevenção para não engravidar. Eu acho melhor deixar para depois dos 18 anos porque dizem ‘Ah, deixa o jovem escolher’ e aí a gente escolhe na hora errada, faz na hora errada. Acredito que, depois dos 18 anos, a gente tem mais consciência. Eu não tive educação sexual na escola, tive em casa mesmo, minha mãe conversa muito comigo. Eu não sabia de nada, não sabia que podia engravidar, minha mãe me explicou tudo.

Clara Wendler
13, cristã, de Salvador
No meu colégio ainda não se discute muito sobre esse assunto. Acho importante porque sei que a gravidez na adolescência tem números altos. Em casa, meus pais têm uma relação muito aberta comigo. É importante falar sobre [abstinência sexual], alguns podem dar ouvidos. Acho que adiar [a iniciação da vida sexual] pode ajudar a prevenir sim [gravidez na adolescência], além de falar sobre camisinha e outros métodos. Às vezes há casos de que falta maturidade para isso e tem gente que faz de forma precoce.

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