Livros apostam no imaginário infantil para falar das perdas da pandemia

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10.10.2021, 11:30:00
Atualizado: 10.10.2021, 12:35:46

Livros apostam no imaginário infantil para falar das perdas da pandemia

Autores e editores se voltaram para abordagens lúdicas do isolamento e da ansiedade

A infância costuma ser um território assombrado. Povoada por seres imaginários, terrores noturnos e a sensação de explorar um planeta, ao mesmo tempo, luminoso e sombrio. Fica mais complicado ainda quando a esse universo acrescentamos o desafio de enfrentar uma pandemia, que se traduz em distanciamento social, perda de pessoas queridas, uso de máscaras e medo. Muuuito medo. 

Atentos à realidade que as crianças atravessam desde março de 2020, autores e editores se voltaram para abordagens lúdicas do isolamento e da ansiedade no contexto da disseminação da covid-19. A ideia, por trás dos lançamentos e reedições, é ajudar os pequenos a encararem com alguma leveza os próprios sentimentos.  

Mais que distração, esses livros têm sido um caminho que pais e filhos podem trilhar juntos, na tentativa de assombrar os fantasmas trazidos pela crise sanitária mundial ou de, pelo menos, lidar melhor com eles. Especialista em literatura infantil e presidente do Instituto de Leitura Quindim, o gaúcho Volnei Canônica escolheu a  pandemia como tema em Tanta Chuva no Céu, sua estreia como escritor.

Lançado em outubro do ano passado, Tanta Chuva no Céu recebeu o Selo Distinção Cátedra Unesco de Leitura, venceu o Image of the Book, XIV Concurso Internacional de Ilustração e Design, e concorre agora ao Prêmio Minuano de Literatura, um dos mais importantes da Região Sul do país. Em suas páginas não há faz de conta em torno da tristeza causada pelo isolamento, descrita com um lirismo melancólico acentuado pelo belo traço do artista equatoriano Roger Ycaza.

Volnei Canônica já deve estar cansado de escutar que seu livro é muito denso e triste. Talvez e justamente por essa razão, vem conquistando um espaço especial junto à crítica especializada e no coração dos leitores. Em lugar de distrair as crianças da dor que sentem, coloca-se ao lado delas em um texto sensível sobre a impotência humana diante das perdas. As lágrimas são metaforizadas pela chuva, vista através da janela. Mas, afinal existem temas proibidos para a literatura infantil?

Dentro da bolha
Em sua abordagem desse universo, Tanta Chuva no Céu se aproxima de um outro lançamento literário, o belíssimo Eu Fico em Silêncio, do escritor e ilustrador norte-americano David Ouimet. Publicado no Brasil em janeiro deste ano, toca em um tema  sensível: o autoexílio provocado pela timidez durante a infância, quando os livros acabam funcionando como refúgio.  

Autora de três livros infantis (A Gilafa, Para o Menino-Bolha e Pequeno Oráculo Invisível de Crianças Imaginárias), além do longa de animação Miúda e o Guarda-Chuva, Paula Lice diz se interessar por esse universo de dois modos: como artista e pesquisadora. Em comum entre as duas experiências, a certeza de estar em diálogo com um público curioso e honesto. “A pandemia escancarou a morte e o luto e as crianças não estão à parte desse cenário. É preciso acolher os medos”, diz Lice.

Premiado como Melhor Texto no Braskem de Teatro 2015,  Para o Menino-Bolha convida a pensar o medo que nos faz criar em torno de nós uma espécie de redoma. “Quando proponho algo para criança, tenho sempre em mente meu respeito a essa etapa da vida e a vontade de que todos os temas, inclusive aqueles considerados tabus, como morte e solidão, sejam bem tratados e tenham a devida mediação”, explica.

Autora de 140 livros, a mineira Regina Drummond tem   convicção de que é impossível mentir para as crianças: “As pessoas adoram esconder as coisas que acham que elas não deveriam ver ou saber, mas elas sabem de tudo”. 

Seres abertos
Um dos desafios que se impõem aos autores tem sido abordar as mazelas evidenciadas pela pandemia sem esbarrar em questões consideradas delicadas demais para esses leitores. Na opinião de Mônica Menezes, professora adjunta do Instituto de Letras da Ufba e pesquisadora de literatura infantojuvenil, são os adultos que criam os limites e os tabus: “As crianças são seres abertos ao mundo”. 

Coordenadora do grupo de pesquisa Cartografias da Infância, ela explica que essas narrativas foram sendo “higienizadas” ao longo dos séculos, de modo a banir tudo que nelas fosse considerado obsceno, trágico ou dramático: “Por se considerar que esse público é formado por seres demasiado frágeis, muitos temas foram (e ainda são) silenciados”.

Para ela, o caminho é abandonar essa compreensão equivocada: “O texto literário deve ser resultado da relação do autor com o mundo, com o outro e consigo. A literatura não deve partir de uma ideia pré-concebida da infância”. Nessa perspectiva, todas as abordagens podem ser positivas. “O filósofo Walter Benjamin escreveu algo com o qual concordo, que as crianças são capazes de compreender qualquer assunto, desde que conversemos com elas com honestidade”.

Honestidade é palavra-chave também na visão da psicóloga Vania Bustamante. Peruana radicada na Bahia, ela é especialista na área de saúde mental infantil e coordena o projeto de extensão da Ufba Brincando em Família, espaço terapêutico de interação entre pais e filhos. “Considero um pouco reducionista usar o termo criança, porque a realidade é que existe uma diversidade de infâncias, tanto ao longo das gerações quanto na atualidade”, explica. 
Ela lembra que é essencial ter em perspectiva que as narrativas são escritas por adultos e, por essa razão, têm a sua origem em visões de mundo que também pesam na leitura, daí a importância de uma boa mediação. “Os livros podem ser usados como recursos para incentivar a imaginação, a criatividade das crianças, para produzir espaços nos quais elas se reconheçam”, diz.

O importante, de acordo com Vania Bustamante, é que todas as obras infantis — sejam clássicas ou contemporâneas, sobre perdas, luto ou sexualidade — deem às crianças o espaço necessário para que elas possam recontar a história do seu jeito.

“Não temos como prever quais serão os sentidos que serão dados ao que se lê. Claro que há narrativas que são escritas com determinada proposta de conteúdo a ser trabalhado, e isso é importante também, mas como vai funcionar depende das crianças”, explica. E é justo nesse desvelamento do mundo, numa oferta de liberdade e de acolhimento, que repousa o mistério da leitura.

Uma trilha literária para a infância

Para o menino-bolha (Edufba | R$ 25) 
Texto do premiado espetáculo infantil (Braskem de Teatro 2015), escrito pela atriz, diretora e dramaturga baiana Paula Lice, Para o menino bolha aborda a solidão na infância com leveza e humor. Vale levar juntinho outro livro da mesma autora, lançado no ano anterior e baseado na mesma peça, A Gilafa (com o l em lugar do r, como as crianças bem pequenas costumam falar). 

Tanta chuva no céu (Editora do Brasil |  R$ 51, 90)
Estreia literária do gaúcho Volnei Canônica, com ilustrações de Roger Ycaza, Tanta Chuva no Céu é uma pérola sobre a reinvenção do cotidiano na infância. Não por acaso, o livro é finalista ao Minuano de Literatura 2021. No percurso de reconstrução e aprendizado, uma criança lida com suas perdas.

A casa  (Companhia das Letras |  R$ 44,90)
Edição do clássico poema de Vinicius de Moraes, com ilustrações de Silvana Rando, a leitura de A Casa é perfeita para mostrar aos pequenos como pode ser engraçado ficar debaixo de um teto, mesmo que ele não seja lá muito tradicional e se localize “na rua dos bobos, número zero”. O lançamento, dentro da coleção Arca de Noé, chegou bem no meio da pandemia, ano passado.

Respira (Telos |  R$ 52,66)
Criado pela portuguesa Inês Castel-Branco, com adaptação para o Brasil feita por Dulce Seabra, Respira aborda um mal contemporâneo que muitos ainda ignoram que pode atingir também as crianças: a ansiedade. Lançado em 2019, o livro se mostra bastante atual ao narrar a história do menino que não consegue dormir e de como sua mãe o ensina a relaxar através da respiração.

Edith e a velha sentada (Pallas |  R$ 41,17)
O baiano Lázaro Ramos vem se tornando uma forte referência na literatura infantil. Edith e a Velha Sentada marcou sua estreia literária, em 2010. Este ano, ele lançou a segunda edição, com ilustrações de Edson Ikê. O texto narra a história de uma menina que vivia grudada nas telas do computador e da TV.

Dentro de casa (Aletria |  R$ 32)
Quando você passa muito tempo dentro de casa, ela parece crescer de um momento para o outro, revelando tudo que a imaginação consegue alcançar. É a partir desse olhar que a escritora e ilustradora mineira Bruna Lubambo conta a história de um garoto preso em casa na pandemia. Lançado no ano passado, o livro tem versão digital com direito a trilha sonora do músico Zé Henrique Soares.

Eu fico em silêncio (Companhia das Letras |  R$ 34,31)
Escrito e ilustrado pelo norte-americano David Ouimet, com tradução de Miguel Del Castillo, Eu Fico em Silêncio foi lançado no mercado brasileiro em janeiro deste ano. Trata-se de um projeto tão bem trabalhado, em sua estética algo noir e inquietante, que pode, e deve, ser lido por crianças de todas as idades.

Emocionário (Sextante |  R$ 24,94)
O que você está sentindo? Essa é uma das perguntas mais complicadas para as crianças. Comunicar os sentimentos, no entanto, é a chave para que os pais entendam o que se passa. Foi para tentar resolver esse impasse que a escritora paulista Cristina Nuñez Pereira e o ilustrador Rafael Valcárcel criaram uma espécie de dicionário ilustrado de emoções, no qual cada sentimento é explicado bem direitinho.

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