Mais de 4,7 mil policiais militares foram infectados pelo coronavírus na Bahia

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01.04.2021, 04:45:00
Atualizado: 01.04.2021, 06:16:47
Imunização para policiais com mais de 50 anos começou nesta quarta na capital baiana; outros municípios iniciam a vacinação nesta quinta (Foto: Igor Santos/PMS)

Mais de 4,7 mil policiais militares foram infectados pelo coronavírus na Bahia

Em Salvador, mais de 400 policiais militares com idade igual ou superior a 50 anos receberam primeira dose da vacina

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Há 15 dias o cabo Aridelton Jesus dos Santos, 49 anos, está em confronto com o seu pior adversário: o coronavírus. Internado na UTI do Hospital Clériston Andrade, em Feira de Santana, ele é um dos 4.790 policiais militares infectados pela covid-19 na Bahia desde o início da pandemia. Esse número representa 16,3 % da tropa ativa, que tem um total de 29.310 agentes, segundo a Polícia Militar. 

“O estado dele é grave por ser obeso e hipertenso. Por conta das comorbidades, ele não conseguiu reagir tanto aos medicamentos. Vem reagindo, mas não são melhoras significativas para os médicos. Ele permanece intubado, porque está com 50% do pulmão comprometido. Os médicos até tentaram retirar o tubo (extubar), mas ele fica desconfortável, cansa muito”, declarou a filha do cabo, a estudante Gabriela Ribeiro dos Santos, 18. 

Na Bahia, a vacinação dos policiais militares contra a covid-19 começou nesta quarta-feira (31) por Salvador. Já na cidade de Aridelton, em Feira de Santana, o processo de imunização da tropa está prevista para esta quinta (01), junto com os outros municípios do estado, segundo a assessoria de comunicação da prefeitura. 

“Pena que só agora. Se o meu pai tivesse sido vacinado pelo menos há 15 dias, nós da família não estaríamos passando por este sofrimento, porque sentimos a dor de não poder fazer nada. Os policiais teriam que ser vacinados logo no início, assim como os médicos, porque eles também estão na linha de frente”, declarou Gabriela. 

A data de início da vacinação das forças de segurança e salvamento da Bahia, que são formadas por policiais federais, militares, civis, bombeiros e guardas municipais com mais de 50 anos de idade, de acordo com a Secretaria de Saúde do Estado (Sesab), foi aprovada anteontem em reunião da Comissão Intergestores Bipartite (CIB), que é uma instância deliberativa do Sistema Único de Saúde (SUS) e reúne os 417 municípios e o estado. 

O secretário de Segurança Pública, Ricardo Mandarino, disse que a covid-19 já afastou do trabalho 6.397 profissionais entre policiais militares (4.790) e civis (922), bombeiros (443), peritos técnicos (96) e funcionários lotados na própria secretaria (146). Mandarino disse ainda que, somando as mortes de cada categoria do início da pandemia até março deste ano, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) totaliza hoje 34 óbitos pela doença. 

Sintomas 
O cabo Aridelton está na Polícia Militar há 22 anos. Apesar de morar em Feira, ele trabalha no 18ª Batalhão, em Camaçari. Com a chegada da pandemia, passou a trabalhar ainda mais, pois alguns colegas já tinham sido infectados. No último dia 6, ele começou a ter sintomas. “Sentiu uma dor nas costas que evoluiu para o corpo todo. Ficou sem apetite, veio a dor de cabeça, seguida de coriza e começou cansar”, disse a filha.  

Família diz que PM  foi infectado durante o trabalho (Foto: Acervo Pessoal)

Gabriela, acostumada a rir com as brincadeiras do pai, hoje minimiza a saudade através de videoconferência. “Desde que o meu pai foi para a UTI, a gente só o vê através de chamada de vídeo pela equipe médica”, lamentou.  Além do policial, a mulher dele também foi contaminada.  “Ele sem saber acabou infectando minha mãe. Ela também teve 50% do pulmão comprometido, mas reagiu bem porque não tem comorbidade”, relatou.  

Gabriela contou que o pai achava injusto os policiais não terem sido vacinados junto com os médicos, “pois eles também estão expostos diretamente ao vírus por lidar diariamente com multidões”.

Infectologista da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Fabrício Silveira apontou que faz todo sentido que policiais militares e servidores da segurança pública entrem como prioridade no plano de imunização porque eles recebem uma exposição gigantesca ao vírus circulando nas ruas, entrando em contato com pessoas para fazer abordagens ou dar orientações. 

“São profissões que demandam exposição. Sabemos que as atividades policiais, de investigação não pararam e nem podem parar. Ao mesmo tempo sabemos que esses profissionais atuam em ambientes fechados, lidam com pessoas que se recusam a usar máscaras e muitas vezes não podem fugir de vários contatos diretos”, explicou o especialista.

Vacinação
O presidente da Associação de Praças da Polícia e Bombeiro Militar da Bahia (APPMBA), sargento Roque Santos celebrou a vacinação dos PMs. “Apesar da demora, é algo positivo para a tropa, perdemos muitos companheiros para covid. A vacina poderia ter chegado bem antes, pois homens e mulheres estavam na linha de frente, como outros ainda estão fazendo para cumprir os decretos”, falou. 

Ele disse ainda que, diante do cenário da contaminação na tropa, a associação havia pedido há meses a vacinação imediata, mas sem sucesso. “Faltou sensibilidade, pois fizemos ofícios para as autoridades para levar o conhecimento do que nossa tropa está passando. A vacinação agora é positiva, mas continuamos lamentando por aqueles que não foram vacinados antecipadamente e que, por isso, perderam a luta para a pandemia”, pontuou.

Comandante do Grupo Especial de Proteção Ambiental (GEPA), órgão da Guarda Civil Municipal, Robson Pires contou que praticamente todos os seus comandados tiveram a doença - algo que todos eles já esperavam. Ele próprio não deu 'a sorte' de somente ter sintomas leves: em junho do ano passado testou positivo para a doença e passou sete dias na UTI dos hospital Teresa de Lisieux. Ele relatou que foram momentos difíceis e que mais de 50% dos seus pulmões ficaram comprometidos. 

Com sorte e fé, Robson Pires sobreviveu. Mas, ficaram as sequelas no servidor de 53 anos, que segue fazendo fisioterapia pulmonar, não sente o sabor dos alimentos e teve o olfato seriamente comprometido. Robson contou que passou por tudo isso sabendo que era uma grande possibilidade por conta da sua profissão. 

"Por sorte, fui o único a chegar a uma situação tão extrema na família. Minha esposa é enfermeira, atua na linha de frente e, graças a Deus, até hoje não foi contaminada. Minha filha de 15 anos também não. Ainda assim, é complicado. Sabemos do risco, mas a gente teme levar a doença para casa sem saber e é por isso que eu tomo todos os cuidados. Moro a 200m da praia mas nunca vou lá. Evito sair se não for para trabalho ou alguma necessidade. É a maneira que tenho para me preservar e preservar também aquele servidor que está ali na praia fazendo o controle [do acesso de pessoas]", afirmou Robson.

O soldado Flávio Santos, 55, foi ao posto de vacinação logo cedo acompanhado da esposa Tereza. A ansiedade dentro de casa foi grande. "A família ficou cobrando que mandasse vídeo, tirasse foto, mas ela ficou tão nervosa que não gravou foi nada", contou aos risos à nossa reportagem. Já o Tenente Coronel Hilton Teixeira, afirmou que estava ansioso na véspera. Ele foi um dos últimos vacinados no Clube dos Oficiais, na Avenida Dendezeiros, e esteve acompanhado do filho no processo que ele relata como tranquilo, indolor e rápido.

"Eu tenho que ir ao quartel, não posso parar. Trabalho na corregedoria da PM e tenho 32 anos de polícia. A vacinação foi um sopro de alívio para mim e para toda a família, que também entende a necessidade de seguir trabalhando mesmo com o vírus correndo solto", explicou o Tenente Coronel.

No primeiro dia de vacinação de profissionais da segurança, Salvador bateu recorde de vacinados em um mesmo dia: foram 17 mil. Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, mais de 400 policiais militares com idade igual ou superior a 50 anos compareceram nos pontos de vacinação para receber a primeira dose do imunizante.

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