Mais de 60 mil crianças de Salvador não tomaram sequer a 1ª dose da vacina contra a covid

salvador
16.03.2022, 05:15:00
(José Cruz/Agência Brasil)

Mais de 60 mil crianças de Salvador não tomaram sequer a 1ª dose da vacina contra a covid

Após dois meses de campanha, número equivale a 33% do total da faixa etária

A vacinação de crianças contra a covid-19 começou há dois meses, em Salvador, mas até agora mais de 61 mil, com idades entre 5 e 11 anos, ainda não tomaram a primeira dose para se proteger da doença. Esse número equivale a 33% do total de meninos e meninas habilitados a tomar a injeção, na capital. Além disso, existem quase 30 mil faltosos para tomar a segunda dose, nessa mesma faixa etária. Os dados são da Secretaria Municipal da Saúde (SMS).

A dentista Juliana Ferreira, 41 anos, por exemplo, ainda não vacinou a filha, Lara, de 11. Ela confessa que estava com receio dos possíveis efeitos colaterais, por isso, preferiu esperar. “Minha preocupação era a vacina da Pfizer. Observei primeiro os efeitos colaterais, a forma de administração e como estava sendo aplicado aqui, para depois me sentir mais segura de aplicar a vacina.”

Ela mesma foi vacinada com a Pfizer e deu tudo certo. “Hoje, estou bem segura de que quero vaciná-la, porque a vacinação é imprescindível na redução dos casos graves”, explica Juliana. Ela  diz que levará a filha para vacinar, provavelmente nesta semana, na Arena Fonte Nova, pela facilidade dos postos drive-thru. Mesmo sem a vacina, Lara retornou às aulas presenciais, em maio do ano passado, um ano depois de toda a família ter contraído covid-19.

Sem atraso
Já o servidor público Leandro Santos, 41, fez questão de vacinar os filhos - Lara, 9, e Antônio, 7 - assim que foi possível. “Logo que foi aberto o calendário vacinal das crianças, me planejei para levá-los no primeiro sábado que liberou geral. Se funcionou com adultos, com criança também vai funcionar”, justifica Santos.

Ele vacinou os dois no mesmo dia e posto, em Mussurunga, que era mais perto de casa. Com a segunda dose dos dois, marcada para a próxima semana, ele admite que ficará mais tranquilo. “Os dois já voltaram com as aulas presenciais, na quinta-feira depois do Carnaval. Fiquei tranquilo com a primeira, mas vou ficar mais com a segunda dose, que completa a defesa do organismo”, conta o servidor. Ele chegou a ter sintomas de covid, no segundo semestre de 2021, mas o exame deu negativo.

No caso de Malu, 11, filha da jornalista Marina Sampaio, 34, o esquema vacinal está completo, com as duas doses. Sem fila, na Unidade de Saúde da Família Santa Luzia, no Engenho Velho de Brotas, Malu se vacinou no dia 22 de janeiro pela primeira vez. O retorno às aulas foi antes disso, logo quando a Prefeitura liberou, em maio. “Com toda a precaução, evitando locais de aglomeração e usando máscara, liberei ela para as aulas, mas, com a vacina, o coração fica mais tranquilo”, diz.

Malu tomou a primeira dose da vacina contra covid no dia 22 de janeiro (Foto: Acervo Pessoal)

Marina também relata que a filha não teve reação, a não ser dores no braço que recebeu a dose. No início da pandemia, tanto a jornalista, quanto a filha e o marido pegaram covid. “Ninguém teve sintomas agravados, nos tratamos em casa e, desde que tomamos a vacina, ninguém mais se contaminou”, adiciona.

Recomendação
A partir desta quarta (16), a prefeitura de Salvador priorizará a Pfizer pediátrica para crianças com cinco anos (em geral) e para os pequenos de 6 a 11 anos imunossuprimidos apenas. O restante será imunizado com a CoronaVac. A medida segue recomendação do Ministério da Saúde.

Os pontos de imunização infantil vão administrar o imunizante CoronaVac para as crianças com 6 a 11 anos – sem imunossupressão. De acordo com a subcoordenadora de Doenças Imunopreveníveis, Doiane Lemos, a nova recomendação não representa prejuízo ao processo de vacinação na cidade.

“São dois imunizantes seguros, com a autorização da Anvisa e com níveis elevados de eficácia na vacinação infantil. Ou seja, essa recomendação do governo federal não trará impactos negativos na garantia da imunidade das crianças”, explicou.

A aplicação da segunda dose da Pfizer infantil deve ser feita dois meses após a primeira aplicação. Já a dose complementar da CoronaVac pediátrica deve ser administrada 28 dias após o início do esquema vacinal contra o coronavírus. As crianças imunossuprimidas deverão apresentar relatório médico no ato da vacinação ou estar com o nome na lista da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), disponível no site da pasta.

Vacina previne casos graves da doença 

A infectologista Jacy Andrade, professora da Universidade Federal da Bahia (Ufba), enfatiza que a vacina é eficaz e protege contra os casos graves da doença. “O controle da doença está acontecendo na medida em que a taxa de vacinação vai aumentando. E a vacina tem o mesmo efeito e a mesma finalidade que tem para os adultos: evita formas graves da covid, como internamento e óbito. As crianças estão respondendo bem, e os efeitos adversos são muito pequenos, como dores no local da injeção, e são muito raros”, esclarece.

A infectologista também indica que, nesse momento, muitos adultos estão vacinados e, por isso, as crianças podem se tornar um alvo da infecção. “As crianças se constituem um alvo importante neste momento, porque uma boa parte dos adultos está vacinada e, quando temos um número crescente de crianças não vacinadas, elas ficam suscetíveis e podem pegar covid. Em geral, é uma doença pouco sintomática, mas também pode levar a complicações”, alerta.

Jacy Andrade argumenta ainda que as crianças devem se vacinar o quanto antes, para garantir a imunidade. “A vacina deve acontecer para proteger a criança do mesmo jeito que as vacinamos contra outras doenças, como varicela, rubéola e sarampo. Elas precisam se vacinar, têm o direito e temos vacinas seguras para evitar que elas adoeçam”, completa. De acordo com a médica, os pais que ainda estiverem confusos devem procurar um pediatra de confiança, além de informações em sites oficiais.

O Ministério da Saúde foi procurado e disse que não há previsão de autorização de vacinas para o público menor de 5 anos e que essa liberação seria com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A agência, por sua vez, informou que recebeu, na última semana, um pedido do Instituto Butantan para aprovação da indicação da CoronaVac para crianças de 3 a 5 anos. O pedido está em análise. 

“Essa indicação [para as crianças acima de 5 anos] reflete os dados dos estudos clínicos apresentados pelos laboratórios à Anvisa no momento do pedido. Ou seja, os dados ainda não indicavam ou sustentavam a vacinação para menores de 5 anos”, complementa a nota da agência.

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