'Não adianta terceirizar as crianças', diz Adriana Friedmann

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11.10.2020, 12:41:00
Atualizado: 11.10.2020, 12:41:32

'Não adianta terceirizar as crianças', diz Adriana Friedmann

Antropóloga e escritora fala que o vício em telas é forma de terceirização e defende a escuta infantil como forma de prevenção de crises de comportamento e doenças

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Quando era criança, Adriana Friedmann, 61 anos, vivia a pensar que pequenos como ela não eram ouvidos. Ela é de uma geração em que as crianças tinham um universo de deveres e um nada de direitos. Nos anos 80, passou a estudar o mundo infantil. “É necessário a gente repensar o que propomos para as crianças, não se trata só de atender as vontades”, afirma a antropóloga e escritora. As crianças - mesmo as menores - têm muito a dizer e, nós, adultos, muito a escutar. É o que Adriana consegue mostrar, a partir de uma vida dedicada aos mistérios, fantasias e fatos infantis

Durante conversa com CORREIO, por telechamada, Adriana falou sobre as vivências infantis numa pandemia e como os pais foram forçados a não “terceirizar” os filhos. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que crianças com menos de dois anos não tenham contato com telas

“Os pais precisam estar presentes, não adianta terceirizar as crianças. Não posso querer que tudo aconteça na escola. Até agora se terceirizava, a tela também é um momento de terceirizar, e esse momento também nos mostrou isso. Claro que ninguém é disponível 24 horas, mas há combinados e propostas, os dois lados podem escutar”, diz.

O livro mais recente de Adriana Friedmann, “A hora e a vez das crianças” (Panda Books, 200 pag., R$ 44,90) lançado em junho deste ano, é um reunião de reflexões sobre o universo infantil e como as crianças precisam ser reconhecidas como atores sociais. A doutora em Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo também publicou livros como “Quem está na escuta” e “A arte de brincar”.

"É muito mais um exercício de silenciar e escutar as crianças", acredita Adriana Friedmann (Foto: Acervo Pessoal)

As crianças precisam ser ouvidas e é neste ponto que insiste Friedmann. Historicamente, a educação é autoritária - pais mandam, crianças obedecem. E assim começa um ciclo em que crianças, silenciadas, podem apresentar até mudanças comportamentais que levam a doenças ou são confundidas com patologias tratadas com medicamentos.

“A gente mascara o problema psíquico mais profundo, e é bem delicado [...] Às vezes, a criança se sente tão pressionada, que é claro que ela começa a ter manifestações comportamentais”, acredita.

Na entrevista a seguir, Friedmann explica como começar - na prática - a escutar as crianças, nas palavras e nos gestos, quais são os limites entre a escuta e a educação, comenta as relações de poder envolvidas, mostra de que forma futuros criativos têm sido perdidos, como as rotinas atribuladas prejudicam o necessário tempo do ócio e tudo mais sobre as possibilidades de uma infância plena.

Confira na íntegra: 

CORREIO: Uma das suas contribuições mais importantes é a defesa da escuta infantil. O que é isso? Como aprender a escutar o filho?

Adriana Friedmann: Costumo dizer que há, na verdade, duas portas de entrada para compreender essa escuta. A primeira é compreender que as crianças se expressam não só pelas palavras. Os corpos, os gestos, falam. As brincadeiras são formas de expressão, as escolhas, os desenhos. Esse é um primeiro ponto muito importante para saber que as crianças estão, o tempo inteiro, se comunicando. Isso requer que os adultos, pais e educadores, entendam que não basta fazer uma série de perguntas para as crianças responderem. É muito mais um exercício de silenciar e escutar as crianças a partir desses movimentos expressivos. 

Eu sempre falo que  um exercício inicial para o adulto é rememorar o que era importante na infância dele, lembrar quem escutava, quem acolhia, quais eram os momentos em que ele se sentia muito ele mesmo e o que ele sentia. Quando você faz esse resgate de memória, você consegue entender o quanto aquilo foi importante para você, se você teve que deixar de lado algum canal expressivo para atender expectativas. Para acontecer, de verdade, uma mudança de postura, esse exercício de rememorar é bastante importante. Essas são as duas portas de entrada: se conscientizar e se sensibilizar. 

Quando você percebe o quanto aquilo foi importante para você, já é um primeiro passo, porque cai uma ficha. É claro que tem uma questão também muito importante: criar espaços para a criança respirar. Nem sempre se tem que dizer faça isso faça aquilo, faça isso. Há um desequilíbrio nas atividades propostas e precisa haver um equilíbrio com atividades em que a criança se sinta mais à vontade. Embora os pais queiram passar valores, é bem importante acolher o que a criança traz, porque, às vezes, a compreensão que a criança traz nem sempre é certo ou errado, mas é a compreensão dela.

Isso requer entrar no mundo dela, nas fantasias dela, nos sonhos, e conversar. Às vezes não dá para conversar, porque é uma criança muito pequenininha, mas é possível perceber, ter uma percepção sobre como ela se comporta, e contar histórias, fazer com que ela assimile de alguma forma. Às vezes, é só pegar no colo e abraçar. Essa observação é importante para saber o que a criança gosta e o que ela está tentando comunicar.  

Temos acompanhado um longa discussão sobre volta às aulas. O que as escolas vão precisar entender em relação a essas crianças, que voltarão diferentes - não só estruturalmente falando? 

Esse momento de reencontro será muito importante para criar tempos, propostas para a criança se expressar, porque tudo ficou muito guardado, dos corpos às expressões. É necessário que se entenda o que essas crianças não somente viveram, porque isso vai vir ao longo do tempo, mas quais são suas faltas. Às vezes, você coloca um tempo enorme de ela brincar, ao ar livre, e já vai ser curativo. Mas, de repente, você vai observar que algumas crianças que não querem saber daquilo. Essas propostas de um brincar livre, de oferecer ferramentas para que as crianças se expressem, para que elas possam escolher, podem servir como bússolas para como os professores trabalharão. 

Entendo que, apesar do currículo, de uma obrigatoriedade, precisamos entender, em todos os níveis, de que pontos estamos partindo agora, porque não adianta chegar para a criança só com conteúdo. Também precisa de um equilíbrio com momentos mais autônomos para possibilitar que a criança se expresse, respire, se coloque e aproveite essa troca. Tudo isso vai trazer muitos elementos para os professores e os pais refletirem. Os impactos serão sentidos, todo mundo foi impactado, e agora o ponto de partida precisa ser pautado pelo que as crianças vão mostrar. E isso será diverso.

Quais são os limites entre a escuta e a educação? Muita gente acredita que a escuta pode ser sinônimo de subserviência.

Quando a  gente começa a observar, cada ser humano nasce com uma potência, uma essência única. Mas a gente cria expectativas no caminho: “quero que ele [meu filho] estude, seja médico, seja professor, eu quero isso, mas não quero aquilo”. Muitas vezes, quando não percebemos qual é a potência de cada infância, isso se perde. Quando a criança entra na escola, ela já tem que seguir aquele sistema, e muitas vezes a singularidade dela não é olhada, e cada um é um mundo. Por que a criança, muitas vezes, entre aspas, fracassa, ou não obedece, ou se mostra introvertida, ou adoece? Tudo tem a ver com um não olhar para essa singularidade.

Quando a gente olha para nossa singularidade e conseguimos nos expressar através desses canais, ficamos mais realizados, porque não somos desviados da nossa essência. Então, por qual motivo a criança não vai bem em algumas coisas? Essas são formas de a criança mostrar que há outras formas de ela ser quem é. Tem muito a ver com isso. Os estudos da psicologia do desenvolvimento, da educação, da antropologia, das neurociências, vão mostrar, cientificamente, que os estímulos adequados nos primeiros anos de vida determinarão quem as crianças serão no futuro. 

E por qual motivo a escuta é associada à permissividade? 

Antigamente, efetivamente, não se falava de direitos das crianças, elas só tinha obrigações. Mas o Estatuto da Criança e Adolescente [1990], os avanços, tudo isso vai mostrando o respeito à criança. Graças a outros olhares também, como de áreas de ciências humanas, sociais, antropologia, que mostram que a criança é ator social e autor da sua própria vida. Há um fato de que a criança, hoje, não é somente influenciada só pela escola, televisão... Há muita influência de todos os lados. Ela tem um repertório e, muitas vezes, vai chegar na escola e não se interessar pelo que está lá. É necessário a gente repensar o que propomos as crianças, não se trata só de atender só as vontades. Como ela compreende, que valores ela traz?

Ela ouviu uma notícia, viu algo, ela começa a repetir, e essas são as oportunidades que o adulto tem de ouvir, desmistificar, às vezes, algo que ela ouviu fora de contexto e não entendeu direito. Para os pequenininhos, trazer um conto, uma história, que ajude ele a realizar psiquicamente essas escolhas. 

Escutar não significa escutar para fazer as vontades. Se trata de pensar quem é meu aluno, meu filho, quais influências ele traz, de que contexto ele surge. Quando a criança chega na escola, ela já chega com um repertório, como eu disse. Cada criança tem o que contar. Quando a criança sonhou e vem com uma inquietação por conta do sonho, temos pistas para entender onde ela está. Às vezes, a gente vê que o desinteresse da criança tem muito a ver com uma forma dela dizer: “estou em outro lugar, quer ver onde eu estou?”. A gente precisa, sem medo, deixar que as crianças nos mostrem caminhos.

Tem algumas pesquisas que apontam que entender em que universos, em que fantasias, as crianças estão entrando, é absolutamente importante. Hoje, estamos num debate para entender a criança como ser-humano. Às vezes, a gente fica forçando a criança o tempo todo a fazer coisas e tem toda uma discussão, da ética, com relação a elas. Temos que entender que a criança tem outros saberes e não é porque já fomos crianças que necessariamente entendemos, porque todas são diferentes. E a gente se surpreende quando se coloca para ouvir.

Por que alguns adultos tem esse prazer em mostrar que mandam?

É uma questão de controle. Bom, uma ideia de que porque eu que sou adulto, eu que sei. A gente foi educado assim. Não é  para entender como se fosse a criança que manda, porque o adulto sabe, realmente, muitas coisas, mas as crianças podem dar cutucadas e nos mostrar coisas. Será que tenho um lado autoritário? Tem que ouvir e assumir. 

É muito interessante porque a criança nos mostram necessidades de nos revisitar, às vezes. A gente também vê no outro o que está dentro de mim, claro, e a criança é muito esperta e pode tocar em em lugares que mexem com a gente. Aí, muitas vezes se pensa, “Ah, meu filho precisa de terapia”. Nem sempre é terapia. As vezes quem precisa se transformar são os pais, não as crianças.

Perdemos futuros adultos criativos por esse tipo de criação que quer enquadradas todas as crianças num mesmo molde, por essa autoridade?

Certamente. É só a gente fazer com que os adultos parem e entendam o que ficou para trás e isso [esses futuros perdidos] aparece. O adulto foi colocado num sistema e, num momento da vida, pode falar: “não é nada disso” e aí se tem a possibilidade de se revisitar o passado. Há momentos que nos fazem repensar. Muitas potências acabam ficando no meio do caminho, porque aquele ser humano que poderia ser um artista não foi escutado. Ele foi, de certa forma, direcionado para atender um sistema.

Mas tem outras crianças, jovens, que têm a sorte de terem a escuta. Não necessariamente o pai, ou mãe, mas um professor, e isso é muito importante porque é uma forma de ter saúde física e psíquica. Tem um autor chamado James Hillman que diz que todas aquelas manifestações que aparecem na infância, que enxergamos como problemas, precisamos ouvir, porque talvez ali esteja a pista que a criança quer nos mostrar. 

Um exemplo: aqui fazemos pesquisas com muitas crianças de grupos sociais e culturais. Há alguns anos, fomos conhecer crianças imigrantes bolivianas, e observamos que eles falavam pouquinho e eram muito educadas. Aí a gente foi descobrir que isso tinha muito a ver com a cultura. Muitos deles chegavam ao Brasil sem documentos e foram educados a não falar. Nas escolas, eles eram vistos como se tivesse algum problema. A gente precisa entender que a cultura, não falar, não significa ter problema psíquico. São detalhes que só a escuta, o que ela traz, quais são os valores, pode mostrar.

Na sua opinião, existe uma patologização das atitudes das crianças?

Eu acho que o problema não são as crianças, somos nós adultos, que quando vemos qualquer comportamento diferente, achamos que existe uma doença. Não acho que fazer terapia é algo ruim, pelo contrário. Mas acho que antes de chegar num encaminhamento para psicólogo, psiquiatra, o adulto tem recursos a apresentar às crianças, e quando falo de recursos, falo justamente disso: "o que posso propiciar para que meu filho, aluno, expresse, expresse algum comportamento que ele não consegue expressar, e por isso ele fica desse jeito?". Há um caminho possível, curativo, que é possibilitar as crianças se expressarem. 

A questão da medicação é muito grave, muito séria, porque com essas medicações as crianças ficam absolutamente desconectadas de si mesmas, não entendem quem elas são. Os medicamentos podem até preencher as expectativas dos adultos, porque podem melhorar um rendimento, a concentração, mas é muito sério, muito grave, e é uma tendência, infelizmente. A gente mascara o problema psíquico mais profundo, e é bem delicado. Por isso, eu digo que temos, antes, recursos. Às vezes, a criança se sente tão pressionada, que é claro que ela começa a ter manifestações comportamentais. Às vezes ela está de frente a desafios tão grandes que adoece.

Quem já não passou pelas escolas e se deparou com angústias? Então, tudo bem, a criança pode não ser boa naquilo, não somos bons em tudo, mas porque insistir nisso que ela não é boa, em vez de ressaltar no que ela é boa, e ajudar na auto-estima dela? Quanto mais cedo você potencializa a auto-estima, e coloca um olho forte naquela luz, melhor. Esses outros lugares existem. Sem dúvida todo mundo sofre, mas se essa criança nasceu e cresceu com sua luz sendo ressaltada, com alguém que tenha escutado e olhado, isso se minimiza.

Pela primeira vez em muito tempo, os 'pais' enfim se descobriram pais de fato, porque ficaram mais tempo com seus filhos?

Assim como as crianças são diversos e singulares, os pais também. Muito a gente entenderá isso no futuro, muitos não. Assim como tem gente que descobriu e que parou para ouvir, e parou para dar valor aos professores, tem gente que viu como um estresse, e outros que não tiveram condições.  Tudo depende do entorno, da situação de moradia, essa é uma questão. Aconteceu de tudo. A gente sabe que a violência doméstica, a gente não tem tanta informação quanto a violência contra a criança, certamente já existiam, mas essa situação que criou mil problemas. Minha resposta é que teremos surpresas para o bem e para o mal, muita coisa aconteceu e a gente ignora.

A vivência em sociedade é também fundamental para as crianças. O que você vê de prejuízo para as crianças que estão crescendo neste período?

Dependendo da cidade, ninguém é obrigado a voltar às aulas, mas tenho conversado muito, porque tem muitos adultos que não saíram de casa. Por outro lado, precisamos, com todo cuidado, começar a experimentar, porque vai ser muito impactante voltar a sair, encontrar alguém. Tem um movimento que precisa ser feito com todo cuidado. Eu vejo, aqui em São Paulo, há dois meses, abriram os parques.

É preciso se movimentar para dar essa possibilidade do corpo se normalizar. Se ainda a escola não abriu, poder correr. A criança precisa poder poder. Quando voltar para o espaço da escola, precisa do tempo para por para fora, mas cada um tem um jeito. Tem crianças que tiveram a sorte de está na natureza, mas outras não. As consequências disso, de crescer neste momento, serão vistas aos poucos.

A questão da intermediação de telas - do celular, da televisão, do tablet - tem ganhado força neste momento.Os pais dizem que são criticados por deixar, mas que não vem outra forma de fazer? O que isso denuncia? 

Virou uma babá eletrônica. Antigamente não tinham todos esses aparatos e todo mundo vivia.Eu me lembro, eu tenho filhas da sua idade, de uma época que íamos para um restaurante, e vinham pessoas para pintar, sugerir atividades, distrair as crianças. Era mais lúdico, hoje não. Ficamos tão dependentes, viciados, nas telas, no celular. Mas os bebês não podem ficar, isso é muito sério. Mesmo em casa, já vi gente dar comida e a criança ficar lá paradinha, de frente para uma tela. Assim, a criança não se conecta com aquele ato de comer, que pode também ser muito bom. Faz mal para a alma..

Os pais precisam de muita orientação, mas é claro que é mais fácil colocar a criança ali com um celular na mão. Acho que entender a dimensão de o quanto que aquilo faz mal - traz a obesidade, a criança se movimenta pouco, tem muitas questões.

"Os pais precisam estar presentes, não adianta terceirizar as crianças", acredita Adriana Friedmann sobre uso de celular por crianças (Foto: Arquivo CORREIO)

Acho que os pais precisam ser equilibrados para conciliar essas coisas. O corpo precisa se mexer, criar, inventar, brincar, precisa. Se eu descubro que meu filho gosta de instrumentos, eu vou introduzir o instrumento, coloco aquilo para ele ver que tem atividades diferentes para ele fazer. São momentos que vêm do estímulo dos pais. Claro que as crianças vêm as outras crianças terem algumas coisas, como celular, e reclamam porque são as únicas que não tem. As crianças, a gente sabe, fazem muito isso. De novo vem essa escuta, essa troca.

Os pais precisam estar presentes, não adianta terceirizar as crianças. Não posso querer que tudo aconteça na escola. Até agora se terceirizava, a tela também é um momento de terceirizar, e esse momento também nos mostrou isso. Claro que ninguém é disponível 24 horas, mas há combinados e propostas, os dois lados podem escutar. 

E o que é brincar no contexto atual, em que crianças são, o tempo todo, colocadas para fazer algo e intermediadas por telas?

Há muitos estudos sobre o brincar. Quando eu comecei a falar da importância do brincar livre, começaram a vir os brinquedos industrializados, começou uma onda de que se não poderia brincar sem brinquedo. Hoje, o brincar é entendido como um fenômeno, em que as crianças se colocam como ser humanos. O lúdico nos acompanha em tudo. Quando se criam as escolas, o brincar entra como uma ferramenta pedagógica. Quando isso ocorre, até há perda de um pouco da autonomia, porque a brincadeira vira utilitarista, para a criança desenvolver isso e isso e aquilo outro. O brincar, quando vira pedagógico, já não é mais o brincar. O brincar tem que ser onde a criança se expressa.

"O brincar tem que ser onde a criança se expressa", diz Adriana Friedmann (Foto: Imagem Representativa/Divulgação/Bruno Sarraf)

Quais são as consequências das crianças estarem se autodescobrindo através de telas, não de espelhos? Elas podem aprender a simular mais?

É bem complexo. Veja, estamos há muitos mes meses nas telas. Quando dou aula presencial, eu não me vejo, aqui. Você também está se vendo aí e, no normal, a gente não se vê o tempo todo. Você desvia, até do próprio comportamento seu, toda hora é se arrumar, ver como está o cabelo… Psiquicamente, crianças entendem que o reflexo do espelho são elas a partir dos três anos. Até lá, elas acham que são outras crianças. Essa questão da imagem é uma desconexão com as imagens internas, tudo que é imagem externa te desconecta com o interno.

O que acontece: nós ficamos, uma hora, duas horas sentados, vendo telas, tá doendo aqui, tá ali, não é orgânico. Então, tudo isso, sem dúvida, tem o efeito psíquico, físico, que vai aparecer em algum momento, porque essa desconexão em relação ao que vivemos é muito prejudicial. Já se sabe até em relação a proibição de tempo de tela.

Essa questão dos pais ficarem filmando, divulgando seus filhos, também é bem complexo, por muitas razões, até por questão de segurança, mas é muita exposição. A criança não é perguntada se tudo bem. Ninguém pergunta para ela: "Tudo bem eu postar sua foto?". A dimensão do like, para onde vai aquilo, também não é muito considerado. Têm crianças que não gostam, e raramente um pai, uma mãe vai perguntar. Tem ali, de novo, o tema da ética, pouco debatido. 

Parece que há uma pressão, um direcionamento o tempo todo. No meio de tudo isso, as crianças estão tendo tédio ou isso está sendo negado?

É muito sério isso. Mesmo na creche, em tempos de não aprendizado, se pedagogiza tudo. A criança precisa do ócio, da fantasia, da solidão, até daquilo que a chateia. De repente, essa pandemia nos colocou na posição de ou produzirmos loucamente ou não fazer nada. É muito importante esse momento que pode ser muito criativo e nos colocar em contato conosco. Nossa cultura, em geral, é expansiva, criativa, e a gente vê que as situações de não ficar para fora, como agora, criam um estranhamento, mas são boas para o desenvolvimento, de qualquer pessoa.

Eu sempre digo, como já falei, que o exercício é a gente relembrar. O que você teve muito, o que você teve pouco? Quantas vezes você quis ficar sem dar satisfação, sem produzir ou atender uma expectativa? Claro, é complexo, nem muito, nem pouco, mas esse equilíbrio é necessário, e a criança também precisa disso. 

Ninguém teve uma infância ideal, todo mundo teve suas feridas, em diferentes circunstâncias. A gente idealiza algo que não é possível. É da natureza do ser humano sofrer. Não é causar sofrimento intencionalmente o que estou falando. Quando tem uma criança pequenininha, por exemplo, você resguarda para ela não cair, mas cair faz parte. Então, assim, a criança confia, mas, você, de repente, precisa se distanciar para ela ter mais desafios. Pode surgir, no inconsciente dela, “ah, aquela pessoa me traiu”. Mas, cair é necessário. É uma metáfora, não é que aquilo vai causar dor proposital, mas é uma medida de você cutucar e provocar a criança no seu desenvolvimento.

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