'Não conseguia emprego, fiquei marcada', diz mãe de Emanuel e Emanuelle

bahia
11.10.2021, 06:37:00
Atualizado: 11.10.2021, 21:02:29
(Paula Fróes)

'Não conseguia emprego, fiquei marcada', diz mãe de Emanuel e Emanuelle

Oito anos após morte dos filhos, Marinúbia Gomes diz que "agora não cabe mais ter ódio de Kátia Vargas" e conta detalhes que manteve sob sigilo

Em cada plantão de doze horas, a enfermeira obstetra Marinúbia Gomes ajuda a trazer ao mundo de seis a dez bebês. Quando as gestantes a reconhecem, ela confirma que, sim, é a mãe dos irmãos Emanuel e Emanuelle. Quando não, prefere se resguardar. "Não conseguia encontrar emprego, porque fiquei muito marcada. Eu ficava como aquela maluca que perdeu os filhos", lembra Marinúbia, que há exatos oito anos perdeu os filhos num acidente de trânsito, no dia 11 de outubro de 2013.

Nos últimos oito anos, Marinúbia precisou lidar com o luto enquanto reconstruía a própria vida. Somente em janeiro do ano passado, ela conseguiu um emprego numa maternidade. Para lutar por um julgamento para o caso dos filhos e ver esclarecidas as circunstâncias do acidente de trânsito, ela havia deixado o emprego, estampado os noticiários e sublinhado um ponto segmento na própria história.

Tinha deixado de ser Marinúbia para vestir integralmento o papel de mãe enlutada. Na parede, sobre a cama, ela mantém um painel com dezenas de fotos dos filhos. 

"Depois que eu saí do Fórum aquele dia, dei tudo por encerrado. Essa história está encerrada para mim. Que Kátia Vargas se perdoe, pois não quero nenhum mal a ela. Mas o que aconteceu é fato. Às vezes, a gente não é culpado, mas é responsável".

Às 20h43 do dia 7 de dezembro de 2017, a médica Kátia Vargas deixou o Fórum Ruy Barbosa na condição de absolvida pelo crime que era acusada - perseguir de carro e atropelar os filhos de Marinúbia, que circulavam de moto, em frente ao Ondina Apart Hotel. O Júri Popular votou pela inocência de Kátia. A defesa de Marinúbia tentou a anulação do julgamento. Mas, em 2019, os desembargadores da Seção Criminal Tribunal de Justiça da Bahia  mativeram a decisão que absolveu a oftalmologista do homicídio duplamente qualificado. Marinúbia não moverá mais nenhuma ação judicial.

Como se locomove pela cidade de transporte público de casa ao trabalho, Marinúbia, mesmo de máscara, é reconhecida e parada por mães que também perderam os filhos. "Algumas choram com ódio, mas não cabe mais ódio. Agora não cabe mais ódio. Hoje eu represento um símbolo de mães que perdem seus filhos e continuam perdendo". Kátia Vargas foi condenada em Vara Cível a pagar R$ 600 mil de indenização a Marinúbia, mas a defesa da médica reverteu a decisão.

Em entrevista dois dias antes da morte dos filhos completar oito anos, ela contou como lidou e lida com o luto, o preconceito que enfrentou para reconstruir a vida profissional e histórias que, até então, manteve sob sigilo. "Um dia antes do Júri, a juíza me chamou e pediu que eu fosse encontrar com ela em particular. Ela me chamou e disse que aquilo era muito difícil. Falou: 'sinto muito pela senhora'". Hoje, Marinúbia vê esse ato como uma tentativa de perdão". "Justiça tem que ser imparcial, nem chamar a mim, nem Katia Vargas para um abraço".

A reportagem conseguiu contato com o advogado de Kátia Vargas, José Luis Oliveira Lima, que afirmou que Kátia foi absolvida, todos os recursos interpostos pela acusação foram negados e "essa tragédia atingiu as duas famílias para sempre". Confira na íntegra:

Oito anos depois, sua vida pessoal e profissional está de que forma?

Do final de 2019 para o início de 2020, voltei a trabalhar. Trabalhar, tanto na época do acidente quanto hoje, é a melhor coisa para mim. Sou enfermeira obstetra e gosto de lidar com a chegada. Eu amo fazer esse trabalho. Quando meus dois anjinhos se foram, eu voltei 15 dias depois ao trabalho. As psicólogas do trabalho até foram ver se eu estava bem. Eu acho que o trabalho nunca deixou eu me deprimir. Algumas mães têm perdas na maternidade. Ajudar o outro, para mim, é motivo de orgulho.

Foi fácil achar um novo emprego? 

Em 2017, eu sai da maternidade onde trabalhava. Eu saí e passei três anos afastada. Início de 2020, voltei a trabalhar. Eu botei currículo em tudo que era hospital, mas eu uma pessoa muito conhecida. Me disseram que eu não dissesse quem eu era para conseguir algo. 

O tipo de prejuízo que eu tive nessa minha luta foi que eu saí do meu trabalho e não conseguia encontrar mais emprego, porque fiquei muito mais marcada, né? Eu ficava como aquela mãe, aquela maluca que perdeu os filhos. Eu fiquei com essa imagem.

Quando eu ia para entrevista de trabalho, eu não era chamada. Algumas pessoas chegaram a comentar: "não diga quem você é não".

De 2019 para cá, foi que um hospital me chamou, coincidentemente a mesma maternidade onde eu trabalhava. Todo mundo parou de falar no caso e eu voltei a procurar as empresas. Eu não dizia quem eu era. Ficou aquela coisa: “ah, é aquela mãe?”. Soou como algo negativo. Como se eu fosse perturbada da cabeça. 

E como é para você lidar com a vida e a morte todos os dias?

Eu amparo as mães dando o máximo de mim. Eu me vejo numa situação assim: quando a mãe perdeu um filho, me vejo com uma oportunidade de dar tudo de mim. Procuro sempre não dizer quem sou eu. Porque a mãe já está num sofrimento. Eu não devo emocionar essa mãe ainda mais com o meu caso. Muitas mães me reconhecem pela minha voz. Algumas reconhecem e perguntam: “Dona Mari, é a senhora?”. Eu não vou negar.  

Essa coisa de filho só a gente para poder saber - homem pode ter uma ideia, mas só quem sente mesmo é uma mulher. Num plantão, ajudo a trazer ao mundo de seis a dez bebezinhos.

Essa semana lá na maternidade ocorreu algo que me emocionou muito. Uma mãe chegou lá, com dor, parindo, era uma gestação gemelar. Uma rastafári, lindíssima, de 20 e poucos anos, chegou parindo e nos emocionou muito. Dra Angela, na hora do parto, perguntou a ela: “Como será os nomes?”. É comum a gente perguntar. Aí ela respondeu: “Em homenagem àquela mãe que perdeu seus dois filhos gêmeos, vão se chamar Emanuel e Emanuele”.

Ela achava que meus filhos, meus pintinhos, eram gêmeos. Eu só sei que a médica chorava, eu chorava, e realmente ela colocou os nomes. Ela evoluiu grave, visitei ela na UTI, mas ficou boa. Foi muito emocionante. Ela não sabia que eu não estava lá, quem era eu. Aquilo significou muito para mim.

Com toda essa comoção que ainda existe, você acredita que algum tipo de justiça foi feito?

Não. Não houve nenhuma justiça. Com tudo que aconteceu, com todo nosso trabalho, com todo trabalho da mídia, o Tribunal de Justiça agiu de forma vergonhosa. Foi vergonhoso para mim enquanto mãe de Emanuel e Emanuelle e enquanto representante de várias mães da Bahia. Outra coisa é a parte do processo cível. Entramos com a questão cível, e Kátia Vargas foi condenada a pagar R$ 600 mil de indenização, porque um juiz bateu um martelinho para que ela fizesse isso.

A defesa dela entrou com um processo dizendo que quem não era culpado, não devia nada. Para mim, esse caso está encerrado. Não espere nada, a não ser que você possa pagar pela justiça. Não condeno Katia Vargas por ela ter podido pagar pela justiça. Não condeno ela, porque qualquer um de nós faria o mesmo. Não acho que ela está errada por isso. Mas, a parte da balancinha, a Justiça não fez comigo.  

Há algum processo hoje em curso relacionado ao acidente?

Depois que eu saí do Fórum aquele dia, eu dei tudo por encerrado. Essa história para mim está encerrada. Que Katia Vargas se perdoe, pois eu não quero nenhum mal a ela, e peço que as mães não emanem nenhum tipo de energia negativa. Foi algo que ela não queria fazer, mas ocorreu. Foi um grande atropelo da vida da minha família e da dela. Quero que ela se perdoe. Não guardo mágoa. Eu lhe digo isso porque rezo para os meus filhos e vejo eles sempre bem. Meus filhos seguiram e estão bem.

Eu só choro agora porque eu estou falando sobre o assunto e também choro quando encontro uma mãe ou me deparo com uma dor. Não emano situação de tristeza no dia a dia. Desde que aconteceu até hoje. Não vejo monstruosidade em Kátia Vargas, ela é um ser humano que cometeu um erro.

Meus filhos já não pensam mais nela, eu não penso mais nela. Mas, o que aconteceu é fato. Às vezes, a gente não é culpado, mas é responsável. Eu tenho pena das mães que choram comigo. Algumas choram com ódio, mas não cabe mais ódio. Agora não cabe mais ódio ter ódio dela.

Como você se vê nessa posição de ser procurada por mães que também perderam seus filhos?

Sinto um aparo que eu não tive na Justiça. Essas mães não se conformam, me abraçam, acalentam e me fazem levantar. O mesmo retorno eu dou para elas. Uma coisa é perder o filho, outra coisa é perder tudo. Naquele dia, aquele carro atropelou a minha vida inteira, atropelou a minha vida inteira. Não só foi a ida dos meus filhos, mas teve a vida da família de Kátia Vargas, que teve a vida atropelada. Para poder da justiça se posicionar dessa forma... foi muito revoltante. Hoje eu represento um símbolo de mães que perdem seus filhos e continuam perdendo. 

O que ocorreu comigo e outras pessoas é uma vergonha. Eu olhava para Kátia Vargas sendo tão sugada quanto eu. Que justiça é essa? Como acontece? As mães, até hoje, me param e dizem: “Dona Mari, minha família inteira não esquece o que aconteceu”. Eu pego ônibus e metrô todo dia, e essas pessoas me acalentam. Eu nunca tive depressão. Naquela época, oito anos atrás, e hoje, se você me perguntar: “Mari, você queria Katia Vargas presa?” Respondo de coração e alma lavada que não. Porque não é com situação de grande sofrimento que você vai pagar. Agora outra coisa é essa Justiça querer dizer que ela nem responsável foi.  

As mães te pedem ajuda?

Eu participo de vários grupos de mães que perderam seus filhos e eu procuro não me meter na parte judicial, porque fui inteiramente prejudicada por essa lei que não ampara. Você tem leis, setores diversos, que pegam os acontecimentos e a Justiça deveria se posicionar de forma parcial. Mas, no aspecto psicológico, eu apoio essas mães. A gente não pode se deixar morrer. Quando uma mãe perdeu o filho, ela morre. Dificilmente ela tem condições psicológicas.

Eu recebi muita força, muito amor, o apoio. Não pertenço a religião nenhuma, mas as mães trazem terço, trazem bíblia para mim. E para mim Emanuel e Emanuelle seguem sempre vivos. Os nossos filhos nunca morrem e procuro fazer com que essas mães entendam que os filhos apenas voltaram para dentro delas. 

As mães me vêm como símbolo de uma mãe que não se deixou morrer. Se na época, eu não me deixei abater, imagine oito anos depois. Me sinto mais fortalecida ainda. Consigo ver como o ser humano é amoroso apesar de tudo. As pessoas são muito boas. Não tem nem uma semana que na frente de um mercado, uma menina de 20 e poucos anos, ciclista, atravessou todas as pistas só para me dizer “Deus é contigo”. Ela atravessou todas essas pistas para dizer isso. 

Como você mantém essa fé?

Através dessa energia. Querem me abraçar. Até na pandemia. No começo na pandemia, muitas mães, principalmente elas, me fazem uma transferência energética de amor. É muito amor, muito perdão. É tanta mesmo a ponto de eu viver. Eu nunca estive deitada numa cama por isso. 

Em algum momento ao longo desses anos você teve contato com Kátia Vargas? 

Kátia Vargas nunca me procurou. Lá dentro, no fundo do meu coração, eu sei que Kátia Vargas não queria fazer isso. Em algum momento, merecemos o perdão e ser livre. No dia do júri popular, no dia mesmo, a filha dela, uma menina muito parecida com Emanuele, alta e branca, linda, ficava fazendo sinal para mim, para mostrar que queria falar comigo. Minha família ficava mandando eu virar minha cabeça. Teve um momento que todo mundo saiu, e ela pediu para dar um abraço em mim e eu a abracei. 

Ela chorou muito. E ela chorava por ver a mãe dela submetida a tudo aquilo. Aquele dia foi uma dor e eu pedi que Deus fizesse o melhor. Se Deus permitiu que fosse assim, o que eu deveria fazer? Hoje, se passaram oito anos e eu não vou atrás mais de justiça. Eu fiz minha parte e o tribunal não fez a dele. Se alguém quiser recorrer, que recorra por conta própria. Esse processo não pertence a mim, é público.

Na sua opinião, a comoção popular prejudicou o julgamento?

Não. A comoção popular nunca prejudicou e não prejudica de forma nenhuma. É como o trabalho da mídia, precisa ser feito. Toda a comunicação não errou em nada. Foi um trabalho que dou graças a Deus porque mostrou o meu caso o tempo todo. Quando a gente se cala diante dos fatos, somos omissos. A população não deve se calar. Apesar de eu me sentir injustiçada, tudo que eu ver de errado, eu vou denunciar

O que seria a justiça? 

Vou contar algo aqui que nunca contei. Um dia antes do júri, a juíza que coordenou a mesa me chamou em Sussuarana [onde está localizado o TJ da Bahia] e pediu que eu fosse lá de forma particular e não falasse nada disso com ninguém. Ela me chamou para me dar um abraço, segundo ela. E ela me disse que foi muito difícil. Falou: “sinto muito pela senhora”. Se lambuzou chorando, e mostrando os braços, toda arrepiada.

Eu, na minha inocência, não falei isso com ninguém. Esse abraço não cabia, porque uma justiça imparcial não liga para ninguém, ela ouve os fatos. A Jjustiça tem que ser imparcial, nem chamar a mim, nem Katia Vargas para um abraço. Será que foi um pedido de perdão antecipado? Mas, para mim, tudo isso já passou. 

Há alguma outra história dessa que você não contou?

Eu fiquei muito dividida entre dois mundos. Em sonho, Emanuelle, que estudava Direito, aparecia e dizia que Kátia Vargas tinha sido inocentada. Ela me mostrava os livros e era como se tivesse sido publicado que Kátia Vargas tinha sido inocentada. A mim, o desfecho do caso não surpreendeu. A notícia do inocentemente não chegou com tanto impacto.

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