'Não vejo a hora': a fila anda e adolescentes já torcem por vacina contra covid

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07.08.2021, 11:00:00
(Foto: Cristine Rochol/Pref. Porto Alegre)

'Não vejo a hora': a fila anda e adolescentes já torcem por vacina contra covid

Especialistas reconhecem importância de vacinar público mais jovem e debatem o melhor momento para começar; no Brasil, São Luís já vacina quem tem 12 anos

Aos 14 anos, a estudante Ana Clara Borges de Andrade é só ansiedade e expectativa. Nunca a possibilidade de encarar uma agulha foi tão aguardada. Na casa onde ela mora com os pais e os avós, em Feira de Santana, no Centro-Norte da Bahia, todo mundo já se vacinou contra a covid-19. Só falta ela. “Eu não vejo a hora de chegar na minha idade”, afirma a estudante. “Eu acho que se vacinar é importante porque a pessoa fica mais resistente ao vírus, não totalmente imune, mas já tem uma segurança a mais”, diz a garota, que espera, pelo menos, poder voltar para a escola e se sentir mais segura.

Público de 12 anos de idade começou a ser vacinado nesta sexta-feira (6) em São Luís, no Maranhão (Foto: Secretaria Municipal de Saúde de São Luís/Divulgação)

Voltar para a escola, ver os amigos, deixar o isolamento das quatro paredes de casa: estas estão entre as principais motivações dos adolescentes que aguardam esperançosos pela possibilidade de ser vacinados contra a covid. Faz todo o sentido. Para a médica infectologista Jacy Andrade, membro do Comitê de Calendários Vacinais da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), é importante vacinar esse público, inclusive pelo comportamento.

“Eles não param em casa, estão sempre juntos. É da idade, do comportamento, estão sempre aglomerados. É muito difícil para adolescentes fazerem só contato virtual. Se para a gente, que é adulto, é difícil, imagina para eles”, afirma. 

Mas, o momento em que isso deve acontecer ainda divide opiniões. Para Jacy, a vacinação dos adolescentes será um progresso natural com o avanço da imunização por idades e a prioridade, agora, deveria ser completar a segunda dose na população adulta.

“Vacinar os adolescentes é uma coisa muito boa e eles serão vacinados. A questão é o que é prioridade nesse momento, que eu acho que seria completar a segunda dose, depois vacinar aqueles adolescentes que têm alguma comorbidade, e aí ir descendo. Isso porque a gente sabe que é quando a pessoa tá completamente vacinada que diminui a chance de ter uma variação grave”, pontua.

Já a epidemiologista Maria da Glória Teixeira, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e integrante da Rede CoVida, uma parceria entre a Ufba e a Fiocruz, acredita que o mais apropriado seria já começar a vacinar aqueles de 12 a 17 anos que possuem comorbidades.

“A nossa reivindicação, minha e de outros epidemiologistas, é de vacinar as crianças com comorbidades e com necessidades especiais. Eu começaria a vacinar já, porque esse grupo é bem pequeno, então não vai afetar muito se for vacinado junto do outro público. É somente para proteger aqueles crianças que estão mais vulneráveis”, afirma.

Eles são cerca de 30 mil em Salvador, dentro e um universo de pouco mais de 121 mil nesta faixa de 12 a 17 anos. O entendimento dela é o mesmo do secretário municipal de Saúde de Salvador, Leo Prates. Apesar disso, a decisão da Comissão Intergestores Tripartite (CIT), que define quem será vacinado por aqui, foi de que, mesmo aqueles com comorbidades, só serão imunizados após a população adulta. O pessoal vai precisar esperar um pouco mais.

"A CIT decidiu que o início da vacina para 12 a 17 anos por comorbidades só deve ser feita após a vacina dos com 18 anos, ou seja, depois de toda a população adulta, o que nós consideramos um equívoco. A gente considera um erro que seja feito desta forma. Mas, nós já fizemos um planejamento para Salvador ser uma das primeiras a fazer essa vacinação. Se a CIT mudar a resolução e já incluir no grupo prioritário de comorbidades, assim como foi feito com a população adulta, teria como começar imediatamente", assegura o secretário.

Em uma coisa, as duas pesquisadoras concordam: é fundamental seguir o plano de imunizações por idade, saindo dos mais velhos e, progressivamente, chegando aos menores. “Para controlar a pandemia, nós precisamos vacinar o maior número possível de pessoas com as vacinas registradas e aprovadas na Anvisa. O Programa Nacional de Imunização (PNI) está correto de vir pelas idades mais elevados para as mais baixas”, pontua Maria da Glória. 

“A gente agora está conseguindo até um ritmo maior de vacinação no país, acho que está mais constante o fornecimento, o número de doses está sendo um pouco maior e a gente realmente tem avançado nas idades, o que é uma coisa boa. O que eu acho que vale a pena enfatizar é que essas ações deveriam ser ações conjuntas com o PNI, e não cada município fazendo uma coisa”, completa Jacy.

Previsão
A vacinação de adolescentes já foi um desejo mais distante da realidade do que hoje. Atualmente, uma das quatro vacinas contra covid-19 aplicadas no Brasil – a Comirnaty, da Pfizer – já tem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser aplicada, também, em pessoas de 12 a 17 anos. O que falta, na prática, é incluir esse grupo no Plano de Operacionalização da Vacinação contra a covid-19 (PNO), em nível nacional.

Segundo o Ministério da Saúde (MS), a população de 12 a 17 será incluída no PNO, mas somente quando o país tiver concluído a vacinação, pelo menos com a 1ª dose, de toda a população acima de 18 anos.

“Em função da chegada de imunizantes e da eficiência na aplicação de vacinas, a nossa expectativa é vacinar toda a população maior de idade até setembro. Depois disso, vamos trabalhar com a vacinação de menores adolescentes e estudar a redução do intervalo entre doses”, afirmou o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.

Até lá, o MS recomenda que os estados e municípios vacinem os grupos prioritários e a população acima de 18 anos. Recomenda, mas não obriga. No Brasil, por exemplo, as cidades de São Luís, no Maranhão; Campo Grande, no Mato Grosso do Sul; Niterói, no Rio de Janeiro; e Guajará-Mirim, em Rondônia, já começaram a vacinar adolescentes. São Luís, inclusive, já vacinava nesta sexta-feira (6) público de 12 anos, a menor idade possível no momento.

São Paulo se planeja para iniciar a aplicação dessas doses a partir de 18 de agosto, mas o secretário de Saúde do estado, Jean Gorinchteyn, disse na última quinta (5) que o calendário estava ameaçado diante do envio de apenas 50% das doses da Pfizer previstas pelo governo federal.

Países como Estados Unidos, Canadá, Chile, França, Alemanha, Austrália, Itália, Reino Unido, Israel, Espanha, China, Japão, Cingapura, Hong Kong, Hungria, Emirados Árabes e San Marino já vacinam adolescentes.

Cadastro
Na Bahia, a imunização de adolescentes ainda não começou. Em Salvador, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) iniciou no final de julho o cadastro do público de 12 a 17 anos que tem comorbidades, para que eles entrem na fila - foi uma estratégia para se antecipar e estar com tudo pronto quando houvesse uma decisão da CIT que acabou optando por aplicar, antes, a primeira dose em todos os adultos. 

No interior do estado, pelo menos três municípios já começaram a vacinar moradores com 18 anos de idade – os mais jovens do público-alvo adulto – e a hora dos adolescentes pode estar mais próxima do que nunca. Ibirapitanga, no Sul da Bahia, já vacina a população nessa faixa. Apesar disso, sem a inclusão dos adolescentes pela CIT, não sabe quando será a vez deles. Itarantim, no Centro-Sul, convocou os de mais de 18 anos para a vacinação no dia 12 de julho.

Já a cidade de Camacan, também no Sul, consegue pensar na possibilidade de vacinar menores de 18 anos a partir do final deste mês de agosto. Por lá, os jovens de 18 anos foram incluídos no calendário de vacinação no último dia 30.

“Continuaremos nessa faixa e passaremos para as inferiores, priorizando os que têm comorbidades, de forma gradativa. Acreditamos que até o final do mês a gente alcance esse público, até porque a ideia é não ficar com vacina represada”, explicou o secretário municipal de Saúde da cidade, João Luiz Ribeiro Pio.

Público mais amplo
As cidades que decidirem vacinar adolescentes no Brasil, por enquanto, só podem usar uma das quatro vacinas já disponíveis no país: a Comirnaty, da Pfizer. Para que uma vacina possa ser aplicada em crianças ou adolescentes, é preciso que o fabricante faça estudos mostrando uma relação de segurança e eficácia para estas novas faixas etárias e que apresente uma solicitação à Anvisa. É o órgão quem autoriza – ou não – o uso das vacinas para novas faixas etárias.

Das quatro vacinas contra a covid-19 em uso no Brasil, apenas a da Pfizer já tem essa autorização e, segundo a Anvisa, pode ser usada com segurança, além do público adulto que já a recebe, também por adolescentes de 12 a 17 anos. O órgão emitiu um comunicado no início de julho alertando sobre o risco de miocardite e pericardite após o uso de vacinas de RNA mensageiro, como a Pfizer e a Moderna, observado nos Estados Unidos, mas recomendou que a vacinação continuasse no Brasil porque considerava que os riscos eram baixos e os benefícios os superavam.

Um segundo pedido de autorização de uso de vacina em menores de 18 anos está em análise pela Anvisa, o da CoronaVac, e ela compreende um público ainda mais amplo: de 3 a 17 anos. No dia 30 de julho, o Instituto Butantan encaminhou ao órgão federal um estudo feito com a CoronaVac na China sobre segurança e eficácia da vacina para essa nova faixa etária. A bula está sendo analisada, mas tanto o Butantan quanto a Anvisa não informaram um prazo para que a autorização seja emitida.

A aprovação pode animar até os pais dos mais novinhos. A jornalista Ana Carolina Araújo, 40, gostaria de ver o filho Bernardo, de 11, vacinado. Depois que o pai teve covid-19, a família toda foi tomar as vacinas contra a gripe comum e a Influenza. Ele próprio, por mais medo que tenha de agulha, foi corajoso e consciente. “Por mais que eu pense em possibilidades, ele só quer voltar para a escola vacinado”, conta a mãe.

Por fim, a Janssen pediu – e obteve – autorização da Anvisa para um estudo clínico com a vacina em menores de 18 anos. É um primeiro passo para a aprovação, já que somente com os resultados do estudo, em andamento nos laboratórios da farmacêutica, é que eles poderão pedir autorização para uso nesse público.

“Não é só dizer que vamos vacinar crianças e que não vai ter nada. A gente precisa de evidência científica robusta, porque essa é uma faixa etária que se acontece um evento adverso, muitas vezes a criança não sabe dizer direito. Você tem que observar. Tem dados na literatura, mas ainda são poucos. Não vão demorar a sair e a expectativa é que sejam muito positivos também”, afirma a infectologista Jacy Andrade.


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"Já tive covid e até hoje morro de medo", conta estudante que espera por vacina

Enquanto o ano de nascimento e a idade dos menores de 18 anos não entra no calendário de vacina, o jeito é torcer para que a hora, finalmente, chegue – até porque eles também adoecem e transmitem a doença. Na Bahia, 7,65% dos casos confirmados de covid-19 até esta sexta-feira (6) acometeram pessoas de 10 a 19 anos e 82 meninos e meninas destas idades morreram de covid – 0,3% do total de mortes no estado. Um dos que foi infectado pelo vírus foi o do estudante Lucas Vinícius da Cruz Almeida, 15. Ele não gosta nem de lembrar e, por isso mesmo, mal pode esperar para se vacinar.

“Estou muito ansioso, já tive covid e até hoje morro de medo e quero tomar até para fazer coisas que ainda não posso”, afirma o garoto, que mora em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador. Na casa dele, todo mundo já tomou pelo menos uma das doses da vacina. Agora, falta Lucas.

“Minha mãe ficou bastante doente por causa da covid. Eu tive sintomas leves, como perda de paladar, mas foi algo horrível que eu nunca tinha sentido”, lembra.

A estudante Maria Fernanda Silva Sampaio, 14, que mora em Stella Maris, em Salvador, não adoeceu, mas um primo de 11 anos, sim. “Quero ser vacinada logo devido ao grande risco que estamos passando. Por toda a minha família já estar praticamente imunizada, não gostaria de ficar no risco. Acabei de entrar na adolescência e ficar presa em casa não é muito legal, já tenho muito tempo sem ver meus amigos”, afirma a jovem.

O biomédico e mestre em microbiologia Mateus Falco, membro da Rede Análise Covid-19, compreende: “Podemos pensar que as crianças estão mais vulneráveis sem a vacinação”, diz. Em Salvador, a ocupação de leitos de UTI pediátricos reservados para suspeitas de covid-19 estava em 67% nesta sexta-feira (6), depois de ter chegado a 74% na terça - maior do que a ocupação dos leitos para adultos, de 43%.

O número pode assustar, mas a boa notícia é que, para esta época do ano, de inverno, se esperava uma ocupação até superior a 100%. “Historicamente, as UTIs pediátricas do estado da Bahia, durante os meses de inverno, ficam com lotação acima de 100%, porque a maioria dos pacientes internados são por causas respiratórios e elas são mais frequentes no inverno. Na pandemia, qualquer sintoma respiratório entra como suspeita de covid, mas a taxa de confirmação está bem pequena”, explica a médica Carolina Amoretti, coordenadora da UTI pediátrica do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes).

“Para agosto, uma ocupação de 74% não é acima do esperado, pelo contrário. E a gente frisa o quanto o uso do álcool gel e da máscara são importantes, porque realmente protegem”, completa Carolina. No Martagão Gesteira, por exemplo, unidade especializada em atendimento de crianças e adolescentes, as internações estão diminuindo.

“Essa ocupação é um número estável. Infelizmente, a gente estabiliza num número elevado, mas isso não quer dizer que as crianças estão sendo mais internadas ou que está aumentando a incidência de covid-19 nelas”, pontua Maria da Glória Teixeira, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e integrante da Rede CoVida.

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