Novas lideranças : como se preparar para mudanças na chefia?

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27.06.2022, 06:00:00
Especialistas orientam que as transições sejam feitas num processo de transparência e diálogo na troca de chefias (Shutterstock/reprodução)

Novas lideranças : como se preparar para mudanças na chefia?

Diálogo, transparência e liderança facilitadora ajudam a tornar as transições menos traumáticas

O cenário e o enredo são bem conhecidos no mundo corporativo: um líder é transferido, promovido ou até mesmo desligado e, para substituir, é designado um novo profissional. Os funcionários antigos ficam apreensivos: o que esperar da nova chefia? Como é o estilo de trabalho do novo comandante? Como se adaptar?

Especialista na área de Gestão de Pessoas e Carreiras, a diretora da Véli Soluções em RH Margot Azevedo é enfática em afirmar que o segredo para que essas situações não gerem desgastes desnecessários é garantir diálogo e transparência durante todo o processo de transição. “Quem sai deve comunicar à sua equipe o contexto e orientar para que a ‘casa esteja arrumada’ para a chegada da nova liderança. Quem chega precisa respeitar o que foi feito e criar um ambiente seguro para o diálogo com a equipe”, explica. 

Ela salienta ainda que quem chega precisa conhecer as pessoas da equipe, seus históricos, perfis, como também os processos. “Construir uma relação baseada em transparência, confiança e colaboração, desde o início, é o caminho”, reforça. Margot Azevedo faz questão de reforçar que se for uma transição abrupta, inesperada, dificilmente se evitará o conflito.

Margot Azevedo alerta que qualquer transição precisa ser feita com muito diálogo para que o novo gestor não precise enfrentar 'fogo amigo' nas equipes lideradas (Foto: Divulgação)

O mentor e consultor na gestão de pessoas Osvaldo Matos destaca que o conflito é uma diferença de perspectiva que gera tensão entre todos os envolvidos. “Para uma transição de chefias, não existem segredos especiais ou fórmulas mágicas. Gosto de citar George Kholrieser, que diz o seguinte: não coloque o peixe embaixo da mesa, ou seja, não esconda o conflito, pois você chegará num momento, assim como o peixe, que está escondido debaixo da mesa, que ele vai cheira mal e conflito mal resolvido, volta com carga dobrada, às vezes, triplicada”, orienta. 

Desafio do novo

A psicóloga e professora da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado Maria de Lurdes Zamora reforça que se o afastamento do antigo líder, admirado pelos liderados, tiver sido um processo traumático, maior será a resistência ao novo líder. “Se o novo líder tiver uma postura de chefe, focado somente nas tarefas e desconectado das pessoas, a resistência também provocará atritos tensos e relacionamentos tóxicos”. 

Zamora destaca ainda situações onde líderes inexperientes podem projetar suas inseguranças e o fato de não se ver como gestor, que gera insegurança nos liderados. “Falta de autoridade ou excesso dela também geram inseguranças e problemas na comunicação, nos relacionamentos e nas entregas. Além disso, a falta de planejamento e capacidade de delegação também complicam as relações e as entregas”, explica.

A psicóloga diz que, por outro lado, os colaboradores precisam entender o quanto o processo de transição do líder anterior para o novo afetou seu emocional. O novo profissional não pode ser visto como o grande culpado ou vilão que alterou tudo aquilo que o funcionário conhecia e valorizava.

“As mudanças fazem parte de nossa vida, desde o momento em que nascemos, e vão nos acompanhar ao longo de toda nossa vida, inclusive financeira. É preciso ter flexibilidade e abrir-se para o novo, se permitindo conhecer novos gestores e novos jeitos de gerir”, opina.

Para Matos, é fundamental que o novo líder exerça uma liderança positiva, focando basicamente em três pontos:  ouça mais todas as partes, entenda quais os gargalos que já existiam ou que tenderão a existir. Mantenha uma visão helicóptero, aquela visão de cima, que você avalia todas as variáveis, positivas e negativas de cada conflito, é como se você saísse de dentro do cerne da questão. Pratique o feedback diário e sempre com uma boa comunicação. 

Respeito

Margot pontua que o ambiente corporativo é feito por pessoas e elas têm visões, formação, crenças, ideologias, gostos e perfis distintos e que conflitos fazem parte de qualquer relacionamento. Na  empresa não é diferente. “O que é necessário é manter o respeito, a conduta e as atitudes/ posturas adequadas nessas situações para que não extrapole o aceitável. Tem também a identificação entre os membros de determinada equipe, acontece entre alguns mas com outros pode não acontecer”, pondera.


Maria de Lurdes Zamora sugere que, para que a adaptação às formas de trabalho aconteça sem grandes atritos, o ideal é que a empresa proporcione uma liderança facilitadora, que é um conceito inovador, baseado no princípio de facilitar e dar espaço para que as pessoas contribuam com suas competências, ideias e sugestões, compartilhem suas dificuldades e trabalhem de forma colaborativa com foco na solução dos problemas, colaborando com o processo de delegação e tomada de decisão. “Dessa forma, os processos, as relações e as entregas são mais facilmente avaliadas, revisados e aprimorados”, sugere a psicóloga.

Zamora também orienta que as organizações ofereçam avaliações contínuas, programas de formação e aprimoramento de líderes, treinamentos para os liderados e canais de comunicação para conflitos como ferramentas para manter um bom clima organizacional.

“Além disso, a confiança é construída a partir da transparência e alinhamento entre o discurso e as ações do líder. Quando o que se diz não se faz, a insegurança e desconfiança surge e o comprometimento e engajamento não acontecem”, completa.

Osvaldo Matos destaca que os conflitos podem trazer soluções escondidas para as organizações e cada situação deve ser analisada com tranquilidade (Foto: Divulgação) 

Caso o conflito seja além da sua alçada, a sugestão de Osvaldo Matos é que o líder não deve ter vergonha de chamar alguém de fora para ajudar, seja um parceiro de liderança, outro líder, um conselheiro, alguém de dentro da organização, principalmente, alguém confiável. “Os conflitos podem impulsionar mudanças, por exemplo, eles provocam debate de ideias e não de pessoas. Debate de pessoas chama-se confronto. Os conflitos podem gerar soluções nunca pensadas e com aplicação prática imediata. Após uma situação de conflito, você pode gerar uma solução imediata para algo”, finaliza Matos.


CONSELHO PARA O LÍDER

  • Para ser visto com bons olhos pela equipe, o novo líder precisa ter um interesse genuíno em conhecer as pessoas, entender seus objetivos, o que esperam dele e o que ele espera de cada um;
  • Exercite a liderança com propósito, empatia e transparência;
  • O líder deve colaborar com o processo de adaptação, executando e respondendo as necessidades do presente e adaptando o que foi realizado anteriormente para gerar prosperidade no futuro.

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