O delírio silencioso das palavras

paulo sales
05.08.2019, 05:00:00

O delírio silencioso das palavras


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“A infatigável máquina de narrar com que, há séculos, homens solitários e obstinados lutam para costurar e alinhavar as oscilações do mundo. Para conter nosso terror e nosso desamparo.”

Assim o crítico literário José Castello define, no livro A Literatura na Poltrona, o prodigioso processo criativo dos romancistas, contistas e poetas. Sim, um ato realmente obstinado, muitas vezes empreendido à custa de uma vida miserável para o autor e sua família. E também essencialmente solitário: escrever como quem chora de desalento ou desencanto, que nem Bandeira. Ou como quem estende raízes até o ponto mais profundo do coração, feito Rilke. Escrever, enfim, para tentar compreender a máquina do mundo, mesmo sendo ela complexa demais para a simplicidade dos homens, como disse Borges.

Mas, em vez de continuar citando autores que me fascinam e correr o risco de soar um tanto esnobe, prefiro aconselhar o raro leitor a ir direto à fonte, onde desfrutará do verdadeiro fascínio. Tive esse prazer recentemente, ao me embrenhar nas páginas de Pais e Filhos, do russo Ivan Turguêniev, que acaba de ganhar nova edição no Brasil pela Companhia das Letras. Trata-se de um romance de ideias, bem à frente do seu tempo. Munido de diálogos incisivos, Turguêniev se vale de dilemas individuais e do eterno embate entre gerações para compor um vasto painel da Rússia em constante efervescência de meados do século 19.

Os questionamentos existenciais presentes no livro permanecem vívidos. Como este, do jovem niilista Bazárov: “O lugarzinho estreito que ocupo é tão minúsculo em comparação com o espaço onde eu não estou e onde as coisas não me dizem respeito; e a parcela de tempo que me foi dada para viver é tão ínfima ao lado da eternidade, onde não estive e nunca estarei... Mas neste átomo, neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro trabalha, também ele quer alguma coisa…”

Ao final, a edição nos reserva outro tesouro: um ensaio escrito por Henry James logo após a morte de Turguêniev, de quem foi grande amigo. Além de exaltar suas qualidades literárias, o autor de A Volta do Parafuso rememora a relação entre os dois, que se estreitou ainda mais nos constantes encontros que tiveram em Paris, onde o russo viveu seus anos derradeiros. O retrato afetivo se estende à capital francesa. Com seu texto elegante e sensível, James esmiúça a memória em busca de detalhes da casa em que morou Turguêniev, em Montmartre, e reconstitui a relação de ambos com um grupo de notáveis capitaneado por Gustave Flaubert.

A generosidade dessas reminiscências me deixou particularmente comovido. James lastima a morte de alguém querido e louva sua passagem pelo mundo, sua erudição sem afetação, sua alma bondosa. Eram pessoas feitas de músculos, ossos e anseios, como eu e você. Ao terminar o ensaio, lamentei não tê-las conhecido. Mais do que tentar conter nosso terror e nosso desamparo, Ivan e Henry fizeram do mundo um lugar menos árido e mais iluminado.

***

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