O que atrai idosos e mulheres a Amaralina? Descubra motivos e conheça história do bairro

salvador
18.03.2022, 05:00:00
Amaralina traz sossego e independência aos moradores (Marina Silva/CORREIO)

O que atrai idosos e mulheres a Amaralina? Descubra motivos e conheça história do bairro

Maioria dos moradores é idosa e feminina, segundo IBGE  

A artista Laurinha Arantes, 66, sempre foi fiel ao bairro de Amaralina. Ela até namorou outros bairros de Salvador, como Boa Viagem, onde nasceu, a Pituba, onde morou alguns meses depois de casada, e a Barra, após voltar de uma temporada no Rio de Janeiro. Mas, a paixão dela é mesmo Amaralina, essa região de sossego, boas praias e que dá para fazer quase tudo andando. “Só saio daqui para o cemitério”, brinca a cantora, a primeira da banda Cheiro de Amor, ao considerar se mudar.  

Essa qualidade de vida, a proximidade com o mar, a segurança e a facilidade são um dos principais motivos que faz o bairro de Amaralina ser tão procurado pelas mulheres e idosos. Segundo o Teste do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a localidade é onde mais moram pessoas do gênero feminino e maiores de 60 anos do Brasil, além de ter a menor média de moradores por domicílio, de 2,3.  

O teste do IBGE foi feito entre novembro de 2021 e fevereiro de 2022, usando como amostra uma região ou bairro de todos os 26 estados brasileiros e Distrito Federal. A pesquisa apontou que, ao todo, Amaralina tem 3.180 moradores, sendo 56,3% mulheres e um em cada quatro é idoso (26%). Além disso, existem 1.440 domicílios ocupados, onde mora, pelo menos, uma pessoa. Os dados foram divugaldos pelo Instituto nesta quinta-feira (17), em coletiva de imprensa.  

Agora, Laurinha mora sozinha, mas as filhas foram criadas no mesmo apartamento em que ela vive até hoje, na rua Visconde de Itaborahy. “Vivi minha vida toda aqui, desde os 15 anos. Já viajei muito, morei em outras cidades, mas meu lugar é Amaralina. Minha família comprou o apartamento na planta, em 1970, e nos mudamos em 1971. E não aceito me mudar daqui, porque me sinto muito segura, o prédio é calmo e silencioso, perto do mar, de supermercado, feiras, lojas de roupa e é um dos bairros da orla mais baratos de se viver”, conta a cantora.  

Laurinha não troca Amaralina por nenhum bairro de Salvador

(Foto: Acervo pessoal)

Outro fator que faz ela permanecer nesse romance com o local é o fato de todo mundo se conhecer. “Adoro minha vizinhança, porque aqui todo mundo se conhece e são moradores antigos. São pessoas que conheci aqui e sei que posso contar, que se tiver qualquer coisa comigo, como já teve, eles vão me socorrer”, explica. Ela também adora fazer tudo a pé, desde as idas ao Rio Vermelho, às compras em um hortifruti no Nordeste de Amaralina. 

Já a servidora pública aposentada Aloísia Barreto, 77, mora há 14 anos no final da Manoel Dias, com a irmã, Neuza, e o filho, Fábio. O principal motivo que a levou se mudar para Amaralina foi o mar. Antes, ela morava no Cabula. “Sempre dou caminhadas na orla, pela manhã, e a praia daqui é uma maravilha. Gosto muito. Além disso, o bairro é muito tranquilo, nunca tive problema de assalto ou agressão, até de noite, saio com tranquilidade”, justifica. Ela também gosta de ter tudo perto, como mercado, banco e médicos, quando precisa.  

Aloísia se mudou para o bairro para estar perto da praia

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

A escolha por Amaralina 
Na Bahia, Amaralina foi o escolhido para representar o estado na pesquisa. Outros bairros chegaram a ser considerados, como Ilha dos Frades e Roma. “O IBGE pediu uma área que tivesse 10 setores censitários, que são regiões de recorte que o recenseador trabalha. A economicidade de custo foi também um fator levado em consideração, porque a gente teria equipe já estaria contratada em Salvador e não em outro município, que precisaria de deslocamento”, justifica o chefe do IBGE na Bahia, André Urpia. 

É a primeira vez que o Instituto faz um teste com todas as unidades federativas do Brasil antes do Censo oficial. Segundo Urpia, isso aconteceu por conta dos adiamentos da realização da pesquisa, que era para ter acontecido em 2020 e foi postergada por falta de verba. “Uma equipe já estava contratada desde 2021 e teria condições de treinar. Então o IBGE aproveitou essa janela e começou a fazer a coleta no final do ano passado para avaliar o processo, tirar dúvidas, ver necessidade de equipamento, supervisão e testar o sistema. Só temos a ganhar com isso”, esclarece.  

Motivos dos resultados 
Urpia acredita que o resultado do levantamento prévio em Amaralina é um retrato de Salvador. “Salvador em si já tem uma proporção maior de mulheres e sabemos que, na população mais idosa, essa diferença é ainda maior, porque as mulheres vivem mais que os homens. O fato de o bairro ser mais antigo favorece também ter moradores mais velhos, que moram sozinhos”, acrescenta.  

Em relação ao último Censo, de 2010, o coordenador operacional do IBGE, Francisco Brito, revela que foi possível notar um envelhecimento geral da população, o que será um desafio para a coleta deste ano. “Percebemos uma faixa etária mais avançada, acima de 60 anos, que são pessoas que a abordagem demora um pouco mais. E isso de ter um número menor de moradores por domicílio torna mais difícil de encontrá-las em casa. Por isso, que muitas vezes, nossos recenseadores já estavam na rua às 7h da manhã e voltaram às 22h da noite”, confessa.  

Francisco notou o aumento da faixa etária da população

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Censo 2022 começa em agosto 
O Censo Demográfico do IBGE, maior levantamento estatístico do país, começa no dia 1º de agosto de 2022. Ele é o único que visita todos os cerca de 71 milhões domicílios existentes nos 5.570 municípios do país. O orçamento total será de cerca de R$ 2,3 bilhões. Na Bahia, a expectativa é recensear cerca de 5 milhões de domicílios, nos 417 municípios.  

Segundo o Instituto, os resultados do Censo são únicos e terão impactos em políticas públicas, nas gestões municipais, na representação política, nas decisões e investimentos da iniciativa privada e na qualidade de vida das comunidades pelos próximos dez anos. Por isso o apoio da sociedade é fundamental ao sucesso da operação. Aas informações prestadas aos recenseadores são confidenciais e o sigilo é garantido por lei. 

IBGE divulgou resultados do Teste do Censo Demográfico nesta quinta-feira

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

História do bairro 
A história do bairro de Amaralina começa no século XVI, com os primeiros habitantes. Mas foi a partir de 1940 que ele começou a se expandir, com as primeiras construções. A origem do nome são duas, uma com base em uma lenda popular e outra histórica.  

“Havia um português apaixonado por uma baiana de nome Lina. Sempre que ia encontrá-la, ele dizia: ‘Vou ali amar a Lina’. Daí, surgiu o nome. Mas, existe uma versão histórica, mais provável, de que um fazendeiro chamado José Álvares do Amaral comprou uma fazenda no local, que com o passar do tempo, ficou conhecida como fazenda do Amaral e, depois, Amaralina”, conta o professor de história do Centro Estadual de Educação Profissional Anísio Teixeira, Adson Brito.  

Segundo o professor, o bairro passou a ficar conhecido muito pelas citações em músicas, versos e prosas. Um deles é na música Meninas de Amaralina, de Raul Seixas, Águas de Amaralina, de Martinho da Vila e Nelson Rufino, e em duas canções de Caetano Veloso, Tropicália e Clarice. Em Salvador, o bairro também é famoso pela praia, pela comunidade de pescadores, pelo Quartel, que foi a sede militar dos Estados Unidos, na Segunda Guerra Mundial, pelo Largo das Baianas. 

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