Padres que lacram: eles fazem mocotó, samba e até Réveillon

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05.03.2018, 12:40:00
Atualizado: 05.03.2018, 14:12:03

Padres que lacram: eles fazem mocotó, samba e até Réveillon

Tem sacerdote que faz mocotó com forró, sambão, feijoada, programa em rádio e até festa de Réveillon

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Entre missas, confissões, casamentos, batismos, eucaristias e leituras da bíblia, alguns padres ainda têm energia para feitos como cozinhar um mocotó para três mil pessoas numa festa da paróquia com direito a muito forró, criar o mais famoso samba de largo da cidade e apresentar programas de rádio.

Foto: Marina Silva/CORREIO
Padre Valson comanda a Paróquia Paulo Apóstolo, que fica no fim de linha do IAPI e realiza uma vez por ano o Mocotó do Padre (Foto: Marina Silva/CORREIO)

O sucesso vai muito além dos projetos nas igrejas. Segundo padre Valson, que faz uma festança com mocotó para três mil pessoas, o importante é não se iludir pela fama. “Não pode deixar subir pra cabeça, sabe? Sempre estou no meio de todo mundo”, conta ele, que diz já ter sido parado em mercados e shoppings sendo chamado de “padre do mocotó”.

Conversamos com ele e com padre Ronaldo, que criou o famoso samba no bairro de Santo Antônio Além do Carmo. Também mostramos como as ondas do rádio ajudam padre Paulo Avelino a disseminar a fé. Dá só uma olhada.

O padre do mocotó

O que começou como um pequeno serviço numa festa da Paróquia de São Paulo Apóstolo, no fim de linha do IAPI, se tornou uma grande festa de largo. O primeiro mocotó foi servido pelo padre Valson Sandes e pela comunidade em 2008, logo depois dele ter chegado à paróquia, em 2007, assim que foi ordenado. No primeiro ano, a iguaria foi servida para apenas 50 pessoas. “Foi o que primeiro acabou na quermesse”, lembra. 

Foto: Betto JR/CORREIO

São 600 pés bovinos que entram no Mocotó do Padre (Foto: Betto Jr/CORREIO)

No seguinte, a porção para 300, também voou. Em 2018, o Mocotó do Padre,  como ficou conhecido o evento que arrecada dinheiro durante a festa de São Paulo, teve seu recorde de público, em janeiro deste ano, recebendo 3.000 pessoas.

Para esse batalhão de gente, foram necessários 600 pés bovinos, 360 quilos de charque, 360 quilos de carne fresca, 200 de bucho, 150 de bacon e 150 de calabresa. Isso tudo servido com pirão, que para ser feito precisou de 320 quilos de farinha. 

 Sou conhecido pela alegria e descontração, não esperava que Deus fosse me conduzir por esse caminho. Padre Valson, o padre do mocotó, da paróquia de São Paulo Apóstolo

A receita, ele conta, aprendeu com a avó. Mas não revela detalhes “Tem oração no meio e a gente também não usa tomate”, confidencia. Os trabalhos começam oito dias antes, com a compra, limpeza e tratamento das carnes, tudo com a ajuda dos paroquianos dos bairros do IAPI, Santa Mônica, Caixa d’Água e parte do Pero Vaz.

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O padre conta que a fama, que já era grande, cresceu mais ainda depois de sua participação no quadro Panela de Bairro, do telejornal Bahia Meio- Dia (TV Bahia). “Vem gente da cidade inteira e de fora. Me tornei muito conhecido depois do mocotó”, conta. Ele lembra que na edição deste ano recebeu até turistas italianos e ingleses. “E é sempre certo ter gente de Santo Amaro, Valença e Madre de Deus”, comenta o religioso. 

Foto: Marina Silva/CORREIO

O Mocotó do Padre chega a receber cerca de 3000 pessoas e se tornou quase uma festa de largo, no IAPI (Foto: Betto JR/CORREIO)

Cada prato é vendido por R$ 25. O lucro, cerca de R$ 50 mil, é destinado à própria paróquia, que, segundo ele, precisa de reformas com custo estimado em R$ 150 mil. A respeito da fama que ganhou com o mocotó, o padre revela: “sou conhecido pela alegria e descontração e não esperava que Deus fosse conduzir por esse caminho”.

E diz que não tem medo de ser reconhecido por onde passa. “Eu não sou artista, ando no meio do povo. Muita gente fala comigo e eu nem sei quem é, mas respondo a todos”, completa.

Foto: Angeluci Figueiredo/CORREIO

Frei Ronaldo crisou o Samba do Carmo, que acontece mensalmente sempre na segunda sexta-feira do mês (Foto: Angeluci Figueiredo/CORREIO)

Sambar com fé

Sabe aquele samba famoso que acontece no Santo Antônio às segundas sextas-feiras de cada mês? Foi ideia de Frei Ronaldo. Ele tem 20 anos de ordenação, é pernambucano, morou no Rio de Janeiro e veio para Salvador em 2002 para assumir a Paróquia de Santo Antônio Além do Carmo, no Centro Histórico.

“Criei antes a Feijoada do Padre, que a gente faz todo ano. A gente chegou a trazer a banda Estakazero, Mariene de Castro e Batifun”, lembra. Então, ele conheceu o Grupo Botequim e assim nasceu o ‘samba do Santo Antônio’, que recebe entre 400 e 500 pessoas por edição.

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“Eles começaram a tocar no nosso espaço já tem seis anos”. Amante de música e de samba, o padre comemora. “O pessoal diz que eu sou o padre mais festeiro que eles conhecem. Gosto de Carnaval, é minha festa preferida”, diz Frei Ronaldo, que às vezes aproveita para soltar a voz também no palco do pátio da igreja. E até arrisca uns passinhos. “De leve, não sou grande sambista, sou pé de valsa, gosto de dançar, mas dá para passar”, explica, rindo.

O pessoal diz que eu sou o padre mais festeiro que eles conhecem. Gosto de Carnaval, é minha festa preferida. Frei Ronaldo, da paróquia de Santo Antônio Além do Carmo

Foto: Angeluci Figueiredo/CORREIO

O padre assume que adora festa e que no início ouviu críticas de muitas pessoas, mas diz que tudo que escutou ajudou a melhorar o evento (Foto: Angeluci Figueiredo/CORREIO)

O padre conta que sua relação com a música e com o samba vem desde a infância, quando escutava discos que seus pais colocavam na vitrola. Morar no Rio o fez conhecer sambistas famosos como Noel Rosa e Nelson Cavaquinho, além do baiano Dorival Caymmi. Mesmo seis anos depois, ele lembra que ouviu - e ainda ouve - algumas críticas.

“No início, as pessoas sempre estranham, têm dificuldade de compreender que a festa faz parte da vida do cristão. Ser padre não me impede de gostar de festa e ser feliz. Deus nos criou para sermos alegres”, lembra o sacerdote. Esse não é o único evento que o padre organiza. 

“Tem festival de tortas uma vez por ano. Temos uma ligação cultural com o bairro. E como eu gosto de poesia, música e teatro, sempre convocamos a comunidade para participar”. Inclusive, a Feijoada do Padre deste ano já tem data marcada: 16 de setembro. “Vai ter banda, começará às 11h e vai até às 19h”, finaliza sem revelar a atração musical.

Foto: Divulgação
Padre Paulo Avelino celebra todos os domingos a famosa Missas com oração por Cura e Libertação, quie acontece na comunidade de Nossa Senhora do Resgate, no Cabula (Foto: Divulgação) 

Nas ondas do rádio

Quem mora ou passa pela rua Silveira Martins aos domingos pela manhã, ali entre o Cabula e Pernambués, deve ter percebido a profusão de carros. A culpa é da Missa com Oração por Cura, celebrada pelo padre Paulo Avelino. A paróquia chega a receber de 3 a 5 mil pessoas por domingo, quando acontecem 5 celebrações. A igreja comporta cerca de 700 pessoas sentadas.

Com quase 19 anos de ordenação, ele começou celebrando na Igreja de Nossa Senhora da Luz, na Pituba e, há 10 anos trabalha na comunidade de Nossa Senhora do Resgate. A fama do padre vai além da missa badalada. No Réveillon do ano passado, ele promoveu uma festa na Arena Fonte Nova, o Santíssimo Réveillon. 

(A rádio) É um grande serviço, porque não estou falando só para 500 pessoas numa missa, mas para milhares. Padre Paulo Avelino, pároco da Igreja de Nossa Senhora do Resgate e radialista

Foto: Divulgação
No Réveillon de 2018, Padre Paulo reuniu centenas de fieis na Arena Fonte Nova para o Santíssimo Réveillon (Foto: Divulgação)

Há dois anos ele apresenta o programa Minha Fé, na rádio Bahia FM, de segunda a sexta das 5h às 6h e de lá corre para Dias d’Ávila para levar ao ar o Eu Creio na 106 FM. “É um grande serviço. Não estou falando apenas para 500 pessoas numa missa, mas para milhares”, diz o religioso. “Com isso, hoje em dia, 200 cidades acompanham pela internet ou pelo rádio e isso atinge pessoas que, por vezes, não têm comunidade próxima”, comenta. 

Entre Instagram e Facebook, ele acumula mais de 38,5 mil seguidores. Mas ele faz ressalvas à fama. “Quando se fala de padres queridos pelo povo, corremos o risco de falar dos que fazem sucesso, apenas, mas a força precisa vir da fé e não podemos abrir mão da radicalidade do Evangelho”, finaliza o sacerdote.

Foto: Evandro Veiga/CORREIO

Padre Pinto é um dos mais famosos padres que já passaram pela Arquidiocese e ficou conhecido nacionalmente com seu comportamento exótico durante os festejos de Reis, na comunidade da Lapinha (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Por onde anda Padre Pinto?

Há pouco mais de 11 anos, Salvador e o Brasil conheciam um dos mais famosos padres que já passou por esta terra. José de Souza, o Padre Pinto, ficou conhecido pelo seu comportamento pitoresco durante as animadas e coloridas celebrações da Festa de Reis, que promovia na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Lapinha, desde o início dos anos 1990. 

Em 2006, os festejos da data ganharam notoriedade em todo o país por causa do comportamento incomum do então pároco. Em um de seus momentos mais emblemáticos, o Padre Pinto, que é artista plástico e ex-aluno de balé do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, chegou a se vestir de Oxum, orixá das águas doces no Candomblé, durante a celebração dos Santos Reis. E isso foi só o começo da maior lacração de batina da qual já se teve notícia. 

Foto: Evandro Veiga/CORREIO

Anos depois, Padre Pinto se refugiou na Paróquia de São Caetano, onde é vigpario, atualmente (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

O religioso entrou em roda de capoeira, aproveitou o Verão da capital baiana, deu entevistas em que contestava posicionamentos da Igreja Católica, defendeu o fim do celibato, foi visto diversas vezes em uma boate gay que existia na Barra e até deu selinho em Caetano Veloso. 

Atualmente recluso e reconciliado com a Igreja, evita aparecer e serve como vice-pároco na Paróquia de São Caetano, sem os olhos delineados de lápis preto, sem o costumeiro tom róseo na boca, sem pulseiras, anéis, nem gargalhadas. A quermesse de lá é bem tranquilinha. O sacerdorte foi procurado pelo BAZAR, mas não foi possível contactá-lo. Segundo pessoas da Paróquia, ele está viajando.

Outros padres famosos pelo Brasil

Foto: Divulgação
Padre Alessandro Campos é o "Padre Sertanejo", tem programa de televisão e tudo (Foto: Divulgação)

Alessandro Campos
Conhecido como o padre Sertanejo. Além da carreira de cantor, em que regrava clássicos do estilo, ele comanda dois programas de televisão em que preza pelo sertanejo raiz nas apresentações e nos convidados. Nascido no interior de São Paulo, foi considerado um dos padres mais jovens do Brasil quando foi ordenado aos 23 anos. Está no ar atualmente em dois canais: Rede Vida (terças às 20h30) e Rede Século 21 (quarta-feira às 19h30).

Foto: Marina Silva/CORREIO

Padre Fábio deve ser o mais famoso sacerdote do país, estrela das redes sociais onde manda mensagens para os fieis e faz piada para seus seguidores (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Fábio de Melo
É um dos padres mais populares do país, que se tornou muito conhecido por usar intensamente suas redes sociais (@pefabiodemelo), onde faz piadas e escreve mensagens aos fiéis. Possui milhares de seguidores (4,6 milhões no Twitter, 8  milhões no Instagram), já lançou 20 discos, 5 DVDs e tem 13 livros publicados.Além disso, apresenta toda quarta-feira às 22h o programa Direção Espiritual na TV Canção Nova. 

Foto: Sora Maia/CORREIO

Padre Marcelo Rossi foi muito famoso na década de 1990 e 2000 fazendo participação em diversos programas de televisão (Foto: Sora Maia/CORREIO)

Marcelo Rossi
O padre estourou nacionalmente com suas músicas animadas em 1998, quando lançou o primeiro disco. Se apresentou em diversos programas de TV entre o final das décadas de 1990 e início dos anos 2000 cantando, dançando e louvando. Atualmente aparece menos na televisão, mas mantém um programa na Rádio Globo FM em São Paulo e celebra uma missa que é transmitida pela TV Globo aos domingos a partir das 6h25.

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