Eu tinha uns 9 anos quando ganhei o primeiro sutiã. Bege claro, discreto, nada de atenção - exatamente como deve ser. O intuito era cobrir os minúsculos seios, carinhosamente apelidados de ‘limãozinhos’ pela minha mãe.
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Eles estavam começando a aparecer e não podiam, jamais, serem vistos. A ordem era cobrir em cima e fechar em baixo. Fechar não, cruzar. Porque mocinha educada senta de perna cruzada. Cresci assim, nesse ciclo de vigilância.
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Foto do movimento Free The Nipple (Libertem os mamilos) no Instagram: com arte e bom humor, mulheres questionam a sexualização dos peitos femininos em comparação com a liberdade dos peitos masculinos |
Juh Almeida (@juh_fotografia), como é conhecida a fotógrafa e cineasta Juliana Almeida, é a única menina entre quatro irmãos homens. Na infância, enquantos eles jogavam bola sem camisa, ela não podia fazer isso de forma alguma.
É a resposta que a gente precisa. Você é uma mulher, é óbvio que você tem mamilos. Problematizar e censurar seios é surreal! (Juh Almeida, fotógrafo)
A libertação tardou, mas não falhou: hoje, aos 28 anos, ela não usa sutiã há seis. Juh apoia o movimento Mamilos Livres, que nada mais é do que uma versão lusófona do Free the Nipple, uma campanha mundial que reúne quase meio milhão de pessoas nas redes sociais em defesa da liberdade do corpo feminino.
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Juh Almeida não usa sutiã há 6 anos (Foto: Reprodução/Facebook) |
Tudo começou em 2014, após o lançamento do filme Free The Nipple conseguir alcance mundial. “É a resposta que a gente precisa. Você é uma mulher, é óbvio que você tem mamilos. Problematizar e censurar seios é surreal!”, comenta Juh.
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Cenas do filme Free The Nipple, lançado em 2014 (Foto: Divulgação) |
Ela já teve seu Instagram de trabalho deletado após postar fotos de mulheres com peitos à mostra, sem cunho sexual. O mesmo aconteceu com seu Facebook.
"Não podemos exercer plenamente nossa liberdade. Somos privadas de existir do jeito que naturalmente somos"
Juh Almeida
Censuradas
A tatuadora e artista plástica Fernanda Albuquerque (@fefa071) também já teve fotos apagadas. Porém, para resolver o problema, bastou recortar mamilos masculinos e colar em cima dos dela.
Ficou provado, mais uma vez, que a censura é seletiva: a foto nunca foi excluída. “Continua lá, isso já tem uns dois anos. O problema não são os mamilos, são os mamilos das mulheres”, observa Fernanda, que largou o sutiã há três anos.
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Até hoje, a foto de Fernanda com mamilos masculinos nunca foi deletada (Foto: Reprodução/Instagram) |
"Não acho justo que mulheres usem sutiã só porque disseram que elas precisam usar"
Fernanda Albuquerque
Para Darlane Andrade, psicóloga, professora da Ufba e pesquisadora do Neim (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher), é importante que a mobilização continue se espalhando pelo Brasil.
“O Free the Nipple tem crescido muito rapidamente, é um movimento libertário. No Brasil, a gente não pode mostrar os seios na praia, em outros países isso é comum. Aqui, a cultura do estupro é muito forte, somos ensinadas a nos vestir de forma ‘adequada’, nos cobrir com sutiãs para evitar situações de violência”, explica Darlane.
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Em 2014, o Instagram deletou a foto da cantora Rihanna fazendo topless na capa da revista francesa Lui (Foto: reprodução) |
Amamentação
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A designer Ellen Trindade está no sexto mês de gestação (Foto: Reprodução/Instagram) |
Se mulheres nuas em filmes pornográficos e revistas masculinas são muito bem aceitas, o papo é outro quando se trata de uma mãe alimentando seu filho em espaços públicos.
Afinal, vejam só, mulheres são mães e o leite materno é real. Isso também parece ser surpreendente. Olha que loucura: apenas quatro estados brasileiros têm leis que deixam claro que é permitido às mulheres amamentar (!) em qualquer lugar sem correr o risco da confusão com o tal 'atentado ao pudor'.
Isso tendo em vista que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), bebês devem fazer aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade.
De acordo com o organismo, o leite materno protege contra doenças como diarreia, infecções respiratórias e alergias, além de ajudar na digestão, no desenvolvimento da musculatura orofacial e arcada dentária. Também auxilia no desenvolvimento cognitivo e afetivo, reduz a incidência de cáries e previne a obesidade.
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A cantora Pitty amamentando sua filhinha, Madalena, em foto postada pela cantora no Instagram (Reprodução/Instagram) |
Além de fazer bem para os bebês, o aleitamento reduz o risco de câncer uterino, de acordo com um estudo do Instituto de Pesquisa Médica QIMR Berghofer da Austrália.
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O movimento Free the Nipple também apoia a amametação e luta para que o ato seja respeitado nos lugares públicos (Foto: Reprodução/ Instagram) |
Em abril de 2017 foi aprovada a lei que transforma o mês de agosto no Mês do Aleitamento Materno. Em maio do mesmo ano, o Ministério da Educação garantiu o direito à amamentação em escolas, universidades e outras instituições federais de ensino, independentemente de haver instalações destinadas especificamente para esse fim.
Porém, o direito das mães de amamentar em qualquer local público ou privado sem sofrer nenhum impedimento, garantido pelo Projeto de Lei do Senado (PLS) 514/2015 e idealizado pela senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB–AM), ainda está em fase de aprovação.
Enquanto isso, homem anda sem camisa por aí quando quer e bem entende. E revistas de nudez feminina continuam de vento em popa, às vezes mostrando um derrière, às vezes uns peitinhos.
O problema não são os mamilos, são os mamilos das mulheres (Fernanda Albuquerque, artista plástica)
“Estou grávida e penso muito nisso. Estou só amamentando, é só isso. Ainda assim é visto como algo sexual, altamente erotizado, nesse contexto de mãe e bebê. Não é uma relação pornográfica”, desabafa a designer Ellen Trindade.
Ela está no sexto mês de gestação e sempre posta fotos com os seios aparentes. Muitas delas, pra variar, já foram deletadas. Mas nossa voz é imune às tarjas. Essa, eles não podem censurar. Ainda bem.
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