Pelo menos dez cidades baianas cancelam o São João em 2021

salvador
14.04.2021, 05:00:00
De acordo com dados da prefeitura, Amargosa deixa de ganhar cerca de R$ 20 milhões em impostos sem o São João (Marcos Peixoto/ Divulgação)

Pelo menos dez cidades baianas cancelam o São João em 2021

Outros sete municípios aguardam definição do governo do estado

Com a taxa de ocupação de leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) ainda em alta – estava em 83% nesta terça-feira (13), segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) - vacinação avançando lentamente e uma possível terceira onda do novo coronavírus na Bahia, ao menos dez cidades baianas que fazem o tradicional São João já cancelaram a festa. Os municípios que se adiantaram foram Amargosa, Cachoeira, Santo Antônio de Jesus, Senhor do Bonfim, Jaguarari, Itaberaba, Ipiaú, Camaçari, Mata São João e Euclides da Cunha.  

Outras sete cidades ainda não definiram se irão, de fato, cancelar, mas tudo indica que o arrasta-pé tenha que esperar 2022. As prefeituras ainda indecisas são as de Piritiba, Ipirá, Irecê, Juazeiro, Mucugê, Cruz das Almas e Ibicuí. Alguns ainda têm alguma esperança de que o cenário pandêmico possa melhorar até junho. Outros, porém, aguardam um posicionamento do governo do estado.  

Em Amargosa, no Recôncavo, o prefeito Júlio Pinheiro já definiu que não haverá São João. Ele dialoga com outras 11 cidades da Bahia para fazer um anúncio coletivo, como ocorreu no ano passado. “A situação sanitária tem se agravado nas últimas semanas, o que impossibilita totalmente os municípios de realizarem a festa por conta da aglomeração que gera, ao passo que a vacina não tem chegado aos municípios na mesma proporção que precisava”, explica Pinheiro.  

Se houvesse uma boa percentagem da população vacinada, ele acredita que a festa poderia acontecer – o que não é o caso porque Amargosa só imunizou 5.434 pessoas com a primeira dose, de acordo com o boletim de anteontem. Com população de 37 mil habitantes, esse quantitativo corresponde a 14,7% do total de moradores. “Os estudos apontam que se 70% da população estiver vacinada, já garante imunidade coletiva, então se tivéssemos esse percentual, muito provavelmente teríamos festa, mas a vacinação vem sendo interrompida toda semana por falta do principal insumo, que é a vacina”, sinaliza.  

A cidade deixa de ganhar pelo menos R$ 20 milhões em arrecadação de impostos com o cancelamento. “O São João para Amargosa é a principal data da economia, mais importante que o Natal, porque circula muito dinheiro, ajuda a cidade a aumentar seu PIB [Produto Interno Bruto], a arrecadação do comércio, o aluguel de casas, e tudo isso sofrerá impacto”, lamenta o prefeito. Durante os cinco dias de festa, a população chega a triplicar - são pelo menos 50 mil turistas por dia. A cidade registra, até então, 1.969 casos confirmados da covid-19, com 1.861 recuperados e 41 óbitos.

Prejuízo financeiro
Na Região Metropolitana de Salvador (RMS), nas cidades de Mata de São João e Camaçari, os eventos já foram cancelados. O secretário de governo de Camaçari, José Gama Neves, explica que a prefeitura preferiu se adiantar para evitar expectativas. “A gente não pode sonhar, nem do ponto de vista de investimento e nem do posto de vista epidemiológico, em divulgar festa, não tem clima. Nos dias de maior concentração, chega a ter em torno de 100 mil pessoas por dia, então é muita gente para convocar nesse período incerto que é a pandemia”, esclarece Gama.  

São cerca de R$ 6 milhões investidos pelos cofres municipais no São João, que tem como principal expoente a festa Camaforró. Esse investimento retorna em um número cinco a seis vezes maior para a cidade, segundo o secretário - ou seja, a prefeitura lucra pelo menos R$ 25 milhões. Somado aos distritos do entorno (Jauá, Abrantes, Monte Gordo, etc.), são mais de 32 eventos realizados no total, que vão desde Santo Antônio à São Pedro, ou seja, de 13 a 29 junho.  

“É uma festa esperada pela população, é muito dolorido ter que cancelar a festa pelo segundo ano consecutivo, mas precisamos encarar a realidade, o momento não é esse, até por uma questão de despesa orçamentária. Na realidade atual, de queda de receita, unimos a preocupação com a saúde e a responsabilidade de gestão, não tem como justificar uma despesa orçamentária para contratação de bandas e artistas”, detalha o secretário. São, até agora, 18.922 casos confirmados de covid-19 na cidade, com 320 óbitos. 

Em Senhor do Bonfim, que também tem um festejo tradicional, os eventos só serão no ano que vem. “É uma festa de muita tradição, fomenta a economia da cidade e o cancelamento causa um prejuízo para a região toda, desde hotelaria, vendedores de fogos de artifício, restaurantes, são várias classes atingidas. A nível cultural e psicológico também será uma perda, porque a gente sabe que muitas pessoas esperam esse período para confraternizar”, afirma a secretária de desenvolvimento econômico, turismo e esporte, Ana Cláudia Matos.  

Pela estimativa dela, em média 20 a 30 mil pessoas compareciam na cidade diariamente por conta dos festejos, isso só nas festas de rua. Nas festas particulares, como no conhecido Forró do Sfrega, mais 10 mil pessoas. A prefeitura gastava em torno de R$ 2 milhões com artistas, estrutura e ornamentação, que eram, em parte, bancados por patrocínios.  

As casas de temporada para locação, por exemplo, que custam em torno de R$ 600 a R$ 700 por mês, eram encontradas por R$ 6 mil a R$ 8 mil para os quatro dias de São João. “Tem gente que guarda as coisas em um quarto só para alugar a casa. É uma festa que movimenta a economia da Bahia inteira. A cidade se transforma”, adiciona o superintendente de desenvolvimento econômico, Anfilofio Pereira. 

Em Jaguarari, cidade com 33 mil habitantes, o São João foi descartado. “Não temos condição de fazer, porque mesmo que tenha tido avanço na vacinação até junho, todo o planejamento de licitação, orçamento... não daria tempo”, explica a Secretária Municipal de Educação, Cultura, Esporte, Turismo e Lazer, Gelsira Souza. Ela espera poder fazer uma programação virtual.  

Vacinação lenta faz esperança ser pequena

Algumas cidades baianas têm o mínimo de esperança na realização do São João. Em Cruz das Almas, o desejo é que possa existir a festa se a vacinação avançar. “Estamos seguindo os decretos publicados pelo governo do estado e as orientações do Ministério Público. Queríamos muito que a vacina chegasse para todos e, assim, pudéssemos fazer uma programação para o São João. Mas, infelizmente, essa realidade está um pouco distante, mas sempre existe a esperança da vacina e, quem sabe, o retorno dos eventos”, pondera o secretário de Relações Institucionais de Cruz das Almas, Márcio Marques.  

A tendência é que não ocorra, mesmo que haja possibilidade, por conta dos preparativos. “É praticamente inviável fazer um evento desse porte em tão pouco tempo. Já estamos quase chegando no mês de maio e o São João de cada ano é planejadoquando o do ano anterior termina. Em janeiro, começam todos os preparativos, principalmente com a ornamentação. O prefeito Ednaldo Ribeiro sabe da importância da festa, principalmente para o comércio e o aquecimento da economia, mas o pensamento agora é apenas em cuidar e salvar vidas”, explica Marques. A cidade, que tem 63 mil habitantes, registrou, até agora, 3.964 casos confirmados de covid-19 e 45 óbitos. Ao todo, são 7.453 vacinados contra a doença, entre primeira e segunda doses.  

Em Irecê, a pauta ainda não começou a ser discutida. “Não temos ainda uma definição, até porque toda atenção está voltada para o enfrentamento da pandemia. Precisamos esperar também um posicionamento do governo do estado, para só então pensar numa possibilidade do evento. O momento é delicado e mais crítico. Esperamos passar para ver o que será possível ser feito”, diz o secretário de cultura, Solón Barreto. 

A prefeitura de Ibicuí também prefere aguardar, mas, se não houver melhora nos índices epidemiológicos, a festa não ocorrerá. A mesma coisa acontece em Juazeiro e Ipirá. Em Piritiba, a decisão final depende da vacinação contra covid-19. O Secretário de Esporte, Cultura Lazer e Turismo de Piritiba, Jamerson Araújo, informou que todas as atenções estão agora voltadas para o processo de vacinação dos piritibanos e, pelo cenário atual, o mais provável é a realização de uma live seguindo os protocolos do Ministério da Saúde.

Mucugê não descarta realizar eventos presenciais

Na região da Chapada Diamantina, os ânimos são de esperança. A secretária de Turismo de Lençóis, Laura Garcia, deixou em aberto a decisão do município. Já em Mucugê, a prefeitura já começou a abrir licitações para comprar o material de decoração. Se for possível, a secretária de Cultura e Turismo, Fabiana Profeta, pensa em realizar festas presenciais fechadas, com controle do público.  

“Pensamos em fazer pequenos eventos espalhados, em pontos estratégicos, com a quantidade permitida no momento, levando em consideração a situação do estado e do município. Seriam festas fechadas com controle de entrada e sem muita divulgação. As pousadas e hotéis que têm espaço para eventos ficariam responsáveis em oferecer um evento menor aos seus clientes para que assim tivéssemos mais opções de distribuição”, argumenta Fabiana. Segundo ela, tudo será em alinhamento com o governo estadual. 

A secretária conta que, em anos anteriores, o retorno financeiro era de R$ 5 milhões para cada R$ 500 mil investidos pela prefeitura. Além disso, a cidade, de menos de 9 mil habitantes, chegava a receber 10 mil turistas por dia na época da festa. São 333 casos confirmados de covid-19, sendo 305 recuperados e sete óbitos. 

Em Miguel Calmon, a festa não passará batida. Segundo o gerente de Cultura, Wecley Nascimento, haverá uma programação virtual com 20 bandas e artistas locais e um trio elétrico que passará nas ruas da cidade, como tem sido feito nos últimos cinco anos. “Além do formato de live, a gente criou uma nova modalidade, de um carro de som com um trio de forró tocando nas ruas e a cidade foi bem obediente, todos acompanharam de carro. A própria população cobra da gente”, conta Nascimento. Sem a festa, o município perde cerca de R$ 6 milhões e deixa de receber 20 a 30 mil turistas por dia.

‘Pouco provável’, diz governador Rui Costa sobre festa

Ao CORREIO, o governador da Bahia, Rui Costa, afirmou que é pouco provável a realização das festas de São João no estado no mês de junho. De acordo com ele, é praticamente impossível que a maior parte da população esteja vacinada até os festejos. 

“Mesmo que cheguem em junho as 10 milhões de doses da vacina Sputnik V, que é o nosso desejo e estamos trabalhando para isso, são necessárias duas doses para conseguir a imunização. Desta forma, na melhor das hipóteses, só teríamos um maior número de imunizados no final de julho. Por isso, não vejo horizonte para a realização da festa de São João, pelo menos na data tradicional, que é o mês de junho”, explicou o governador em nota enviada pela secretaria de comunicação do governo. A vacina russa, vale lembrar, ainda não foi liberada para uso no Brasil. 

O martelo também não está batido em Salvador. Porém, de acordo com a assessoria de comunicação da prefeitura, apesar de não haver uma decisão oficial do prefeito Bruno Reis, é difícil que as festas juninas ocorram este ano na cidade, também por conta do ritmo da vacinação da capital baiana. 

Das dez cidades que confirmaram o cancelamento da festa junina até o momento , Itaberaba e Cachoeira estudam a possibilidade de realizar um evento on-line para não deixar o evento passar despercebido.

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro 

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