Pente de ouro: Conheça a história da trançadeira que tirou a família da pobreza

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19.04.2020, 13:00:00
Atualizado: 19.04.2020, 18:17:05
Jandira emprega hoje em seu salão 10 mulheres negras, equipe que ela mesma ensinou a fazer tranças e usar o seu cabelo como forma de empoderamento. 'É o meu orgulho', diz. (Foto: Tiago Caldas/ CORREIO)

Pente de ouro: Conheça a história da trançadeira que tirou a família da pobreza

Jandira tirou a família da Baixa da Égua, montou seu salão e hoje, a trançadeira que já cobrou R$ 1 por penteado conquistou uma vida melhor empoderando muita gente

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Como um pente pode mudar a vida de alguém? Nascida e criada na comunidade da Baixa da Égua em uma casinha com mais 15 irmãos, no Engenho Velho da Federação, a trançadeira Jandira Ferreira dos Santos queria mesmo era tirar a família da pobreza. 

Era R$ 1 aqui, R$ 2 ali trançando o cabelo de quem passava pela esquina do Teatro Castro Alves, onde sua mãe, Alaíde, tinha um tabuleiro de acarajé. E haja trança para ela conseguir montar seu salão especializado em penteados para cabelos crespos, mudar de bairro e ainda trazer a família junto.

A gente vai precisar voltar um pouquinho no tempo. No final da década de 80, um fotógrafo do balé do TCA na época, lançou o desafio: “Mulher, porque você não se inscreve no concurso de tranças e penteados que vai ter no Pelourinho? Fiquei sabendo que o prêmio é um pente de ouro”.

Ouxe, não deu outra: Jandira topou na hora. “Como é que é isso? Eu vou mudar a vida da minha mãe com esse pente de ouro. Foi só o que passava pela minha cabeça. Quero tirar minha família dessa pobreza, da miséria que nós vivemos e eu vou ganhar esse concurso”, lembra a trançadeira.

Na humildade
E Jandira só pensava nesse pente. Pesquisou tudo e mais um pouco sobre penteados afro, foi em busca da modelo, do figurino e dos adereços, que comprou com o dinheiro que ganhava com as tranças que fazia na rua. Na hora do concurso faltou coragem, mas nada como uma dose de cravinho para resolver.

“Ali eu me encantei por essa área de tranças e penteados. Ia tirar minha família do buraco. O Pelourinho tomado de gente, a quadra do Olodum cheia e aquelas meninas lindas, maravilhosas, descoladas cada um com um penteado diferente e eu fui chegando para ocupar o meu espaço. Eu estava toda me tremendo, mas esse cravinho me deu uma coragem que eu não sei de onde veio”.

Não te falei? O penteado vencedor tinha nome, sobrenome, búzios, palha da costa e talisca de bambu. “A modelo entrou dançando linda parecendo uma deusa. Eu fui tirando o lenço do cabelo dela devagarzinho, quando surgiu aquele penteado alto, bonito. Todos os holofotes se viraram para mim. Alubaça significa cebola.  Foi o nome que eu dei para ele, um penteado bem pra cima, parecia aqueles caminhos da cebola. Aí ficou assim: Alubaça”.

O tão esperado pente veio em uma caixa dourada, mas na verdade, era de isopor.  Porém, o talento de Jandira, esse sim, era de ouro. Como prêmio, ela ganhou uma cadeira de salão, um espelho e uma bancada. A partir daí, a trançadeira não parou mais. Deu cursos, participou de projetos de valorização da cultura negra e até trançou o cabelo da atriz Jacqueline Bisset, durante as gravações do filme Orquídeas Selvagens (1989), em Salvador.

“Peguei o pente de ouro com toda humildade e de lá para cá abri meu salão, comprei meu carro, comecei a mudar de vida. Dei casa para algumas pessoas da minha família que não tinham. Amo o que faço. Eu só tenho a agradecer a Deus por tudo que ele tem feito e o que há de fazer na minha vida”.

Respeite esta história
Hoje a trançadeira emprega no seu salão localizado na Garibaldi, dez mulheres - entre elas, parentes e as mais 'chegadas' - que mudaram de vida junto com Jandira.  Por conta da pandemia provocada pelo novo coronavírus, o salão está temporariamente fechado, mas ela segue se virando e se superando também.  

'Eu não aguentava mais ver tanta violência'. Superei muita coisa para chegar até aqui', afirma Jandira.
(Foto: Tiago Caldas/ CORREIO)

“Minha equipe tem ainda os ‘achegos’, algumas meninas que eu resgatei aqui, que eram da vida do crime. Dei profissão, trouxe pra perto de mim e hoje é pessoa do bem. Dei dignidade. Isso aí pra mim não tem preço. É o meu orgulho”, pontua.

Mesmo quando perdeu um sobrinho de 16 anos para a violência, Jandira não desistiu de realizar o sonho de mudar a vida da sua família, sem deixar de empoderar mulheres negras. “Eu não aguentava mais ver tanta violência. Superei muita coisa para chegar até aqui. A gente tem mostrar que o preto é lindo, é bonito. Eu venci”. Um salve para essa rainha.


PALAVRAS QUE NUNCA SAÍRAM DA CABEÇA DE JANDIRA

Humildade O pente não era de ouro, mas despertou o talento que Jandira tinha para tranças e penteados.

Confiança Não duvide do seu sonho. A vontade de tirar a família da pobreza foi o que fez com que a trançadeira conseguisse conquistá-lo.

Empoderamento No sentido coletivo, empoderar a si e aos outros e colocar as mulheres negras para protagonizarem suas próprias mudanças, seja na aceitação do seu cabelo, na profissão e na sua dignidade também. Esta é a lição que Jandira quer deixar. "Não desista nunca, apesar de qualquer dificuldade", defende a trançadeira.

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