Pesquisadora da Ufba é premiada ao mostrar como poluentes saem da Bahia até a Antártida

bahia
06.10.2021, 05:45:00
Pesquisa de Ana Cecília mostra que perfume e o protetor solar que você usa quando vai à praia na Bahia podem chegar à Antártica em forma de poluição (Foto: Acervo Pessoal)

Pesquisadora da Ufba é premiada ao mostrar como poluentes saem da Bahia até a Antártida

Ana Cecília Albergaria-Barbosa receberá bolsa de R$ 50 mil para dar prosseguimento à pesquisa

Os meses no frio polar passados pela professora Ana Cecília Albergaria-Barbosa, de Oceanografia na Ufba, foram reconhecidos: a pesquisadora estuda a presença de poluentes, oriundos de países tropicais, na Antártida - também conhecida como Antártica. Ana Cecília foi uma das sete vencedoras do programa “Para Mulheres na Ciência”, promovido por L'Oréal, Unesco e Academia Brasileira de Ciências. Com isso, ganha uma bolsa-auxílio de R$ 50 mil para dar prosseguimento aos seus estudos.

Como dito, a pesquisa avalia a presença de substâncias químicas tóxicas emitidas pela atividade humana na Antártida. Essas substâncias estão presentes em coisas de nosso dia-a-dia: o perfume que passamos para não fazer feio no buzu ou em um encontro; ou mesmo o protetor solar que utilizamos para nos proteger da ‘lua’ tropical num dia de praia.

Antes da pandemia de covid-19, ela viajou por cerca de dois meses ao local do estudo, mais especificamente nas regiões conhecidas como Estreito de Bransfield e Baía do Almirantado – onde fica a estação de pesquisa brasileira no continente – para coletar amostras de sedimentos e materiais que ficam suspensos na água. 

“Sabemos que há resistência à presença feminina em diversos setores. Nosso espaço é muito pequeno. Estou num departamento dominado por homens. (...) Projetos assim são importantes para incentivar mulheres a continuar”, disse a professora antes da premiação, que aconteceu no Rio de Janeiro.

De volta ao seu laboratório em Salvador, e já com a bolsa, ela vai analisar as amostras em busca de três tipos de poluentes: hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, poluentes orgânicos persistentes e contaminantes emergentes.
Os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos são compostos formados por hidrogênio e carbono, produzidos na queima de carvão ou florestas, além de derramamentos de petróleo no mar. Já os poluentes orgânicos persistentes são substâncias introduzidas pelo homem na natureza, como é o caso de pesticidas como o DDT.

Todos esses compostos são tóxicos e de difícil degradação no meio ambiente. Eles podem ter impacto sobre a vida de animais marinhos, como os corais. De acordo com Ana Cecília, as substâncias encontradas durante sua pesquisa eram em pouca quantidade, mas seu trabalho é importante para mostrar como elas podem se deslocar no próprio meio ambiente e gerar problemas a longo prazo. 

“Todas essas substâncias podem chegar até a Antártica por alguns caminhos diferentes. Uma possibilidade é chegar por via atmosférica. Compostos voláteis usados em regiões tropicais, de clima quente, atingem camadas bem altas da atmosfera, viajam pelo planeta e, depois, se depositam em lugares mais frios, como a Antártica”, explicou.

A pesquisadora também conta que uma outra forma dos poluentes se espalharem é por animais como baleias e aves, que migram de regiões tropicais para os polos. 

Segundo ela, a presença desses poluentes em um lugar tão remoto como o continente gelado serve de alerta sobre o amplo impacto que as atividades humanas têm sobre o planeta. “Fica claro que as atividades que ocorrem na Bahia, em São Paulo, no Rio de Janeiro têm impacto na Antártica. Precisamos repensar nossos hábitos e formas de reduzir essa contaminação”.
 

Professora falou sobre as dificuldades de ser uma mulher cientista e diz que sempre busca abrir espaço para que outras possam mostrar sua capacidade 

(Foto: Arcervo Pessoal)

Mulheres e ciência
Um levantamento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apontou que apenas 30% das vagas de cientista em todo o mundo são ocupadas por mulheres.

Em 2020, a L’Oréal fez uma pesquisa com 70 das laureadas por meio instituto inglês Kite Insights, visando entender os obstáculos que as cientistas encontram. Os desafios da vida pessoal foram apontados como os principais em suas carreiras. Na pesquisa, 61% informaram que responsabilidades como lecionar ou cuidar dos filhos são as maiores dificuldades. 

Já para 51% das mulheres, o ponto mais complicado foi encontrar equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Para 46% delas, as demais responsabilidades no âmbito familiar foram as mais desafiadoras.

Ana Cecília Albergaria venceu a premiação na categoria Ciências Químicas 

(Foto: Acervo Pessoal)

Ana Cecília já viajou quatro vezes à Antártida e realizou outras viagens de campo, por exemplo, no litoral baiano, paulista, catarinense e carioca, além da Ilha da Trindade e em outros embarques em navios. A presença feminina nas embarcações ainda é motivo de preconceito.

“Às vezes se dá preferência por levar profissionais homens, usando como desculpa que é preciso muita força física e que pode ser difícil para as mulheres. Faço questão de convidar outras mulheres para as atividades para mudar isso”, afirmou. Para Ana Cecília, existe uma pressão muito grande para brecar o desenvolvimento de mulheres na academia e por isso é importante que existam medidas para incentivá-las a seguir. 

Ter referências é fundamental para seguir em frente. Além do apoio familiar, ela faz questão de agradecer a um quarteto que trabalhou com ela na Antártida: a orientadora Márcia Caruso Bicego, a professora Rosalinda Carmela Montone, a técnica do laboratório Satie Taniguchi e sua colega de projeto, Tatiane Combi.

Sem soltar a mão de ninguém, elas seguem abrindo caminhos na ciência: transformando vidas. Do mundo e delas próprias.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas