Pintores de retratos dos séculos XIX e XX na Bahia também foram fotógrafos

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16.05.2021, 07:00:00
José Teófilo de Jesus é um dos artistas mais velhos dessa geração; ele fez 23 retratos para o Convento da Piedade (Nara Gentil/CORREIO)

Pintores de retratos dos séculos XIX e XX na Bahia também foram fotógrafos

Artistas que fizeram obras do IGHB e da Casa Pia, que estão sendo restaurados, foram alunos de três mulheres

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Boa parte dos pintores baianos que se destacaram como retratistas nos séculos XIX e XX - e que pintaram algumas das telas que estão sendo restauradas pelo artista plástico e restaurador José Dirson Argôlo e sua equipe - também teve destaque na fotografia, alguns anos depois: é o caso, por exemplo, de Cunha Couto e Vieira de Campos, que têm retratos nos acervos que estão sendo restaurados desde dezembro do ano passado.

“Os retratos pintados vão perder força à medida que a fotografia vem chegando. Quase todos esses pintores também foram fotógrafos. À medida que foi ficando mais barata, eles iam fazendo fotos”, explica o professor Anderson Marinho, do Departamento de História da Arte e Pintura da Escola de Belas Artes da Ufba.

Ele cita outros dois nomes de pintores-fotógrafos: Oséas Alves dos Santos e Olavo Baptista. Os dois foram professores da Escola de Belas Artes e também tiveram lojas de fotografia em Salvador. Para o professor, mesmo com essa mudança, o retrato pintado perdeu espaço, mas não prestígio no século passado. “Todas as faculdades continuaram a ampliar suas galerias de retratos. Mesmo com as mudanças de vanguarda e aparecendo outras temáticas, ainda assim o retrato persistiu e se manteve. A gente encontra na Ufba retratos de Robespierre de Farias na década de 1930 e a reitoria encomendou retratos na década de 2000”, aponta.

Não se pode dizer o mesmo agora. Hoje, segundo Anderson, as pessoas olham para esses trabalhos e não compreendem. É por essa razão que ele estuda o que chama de pintores esquecidos. Entre estes esquecidos, encontram-se três mulheres, todas professoras da Escola de Belas Artes, mas que eram chamadas de ‘alunas-mestras’.

“A Escola de Belas Artes tinha três mulheres poderosas nessa transição do XIX para o XX: Etelvina Rosa Soares; Maria Constança Lopes Rodrigues e Maria Porcina Caçador. Elas eram chamadas de alunas-mestras, o que é absurdo porque elas eram artistas e formaram esses principais nomes. Muitas delas ficaram na escola por mais de 50 anos e eu acredito que elas pintaram e desenvolveram muitas obras”, afirma Anderson.

Curioso é que, embora tenham permanecido por tantos anos na escola, não foram encontradas obras delas – ou, pelo menos, não assinadas. “Elas estão tão apagadas quanto esses outros pintores. Eu sei da existência delas e elas não estão no meu trabalho porque eu não encontrei obra nenhuma e um dos requisitos é analisar obras. E eu comento como elas foram importantes para o desenvolvimento a Escola de Belas Artes”, diz o professor.

Etelvina e Maria Constança são citadas na história da Escola de Belas Artes na lista dos primeiros docentes da instituição. Já Maria Porcina aparece citada no Almanak Laemmert de 1910 como professora de primeiras letras na Escola de Belas Artes. Há, no prédio, um retrato dela, mas sem assinatura, provavelmente pintado por um aluno que decidiu homenageá-la.

Conheça alguns dos principais artistas do período:

Cunha Couto (1832-1894)
José Antônio da Cunha Couto foi aluno das primeiras turmas da Escola de Belas Artes, depois de ter estudado no Liceu de Artes e Ofícios, onde fez sua clientela. Pintava cenas bíblicas, santos e personalidades e foi um dos retratistas que mais produziu em seu tempo. Seus retratos, feitos em ateliês desde a Ladeira da Conceição até a Castro Alves, passando por Itapagipe, eram conhecidos pelo colorido e pelas expressões dos personagens. Ele também se tornou um dos fotógrafos mais conhecidos na Bahia no final do século XIX e foi professor do Liceu de Artes e Ofícios.

Vieira de Campos (1865-1943)
Se chamava Francisco Terêncio Vieira de Campos, mas assinava seus quadros apenas com o sobrenome. Assim como Cunha Couto, foi dos alunos mais antigos da Escola de Belas Artes e foi um dos grandes nomes da pintura de sua época. Foi para o Rio de Janeiro, depois para Paris, e retornou a Salvador, onde foi professor na Escola de Belas Artes. Também se destacou como fotógrafo.

Presciliano Silva (1883-1965)
Também iniciou sua carreira como aluno do Liceu de Artes e Ofícios e, de lá, matriculou-se na Escola de Belas Artes, onde estudou desenho e pintura. Foi para o Rio de Janeiro e chegou a estudar em Paris, onde teve retratos premiados. Além de retratos, pintou a nave central e a capela-mor da Igreja da Piedade, em Salvador, e é também o autor do quadro Entrada do Exército Libertador, que representa o fim das lutas pela Independência do Brasil na Bahia. Foi professor na Escola de Artífices da Bahia e na Escola de Belas Artes.

Francisco Lopes Rodrigues (1825-1893)
Ele e o filho, Manuel Lopes Rodrigues, foram dois dos grandes pintores da Bahia nos séculos XIX e XX. Pai e filho são os responsáveis por pintar painéis da Igreja da Conceição da Praia, em Salvador. Francisco Lopes Rodrigues foi professor do Liceu de Artes e Ofícios e também da Escola de Belas Artes. Além dos retratos, tem pinturas de natureza morta, expostas no Museu de Arte da Bahia (MAB). Lá também está um quadro famoso, uma alegoria da República, de Manuel Lopes Rodrigues.

José Teófilo de Jesus (1758-1847)
É o mais velho desses cinco principais pintores com retratos no acervo restaurado. Ele estudou em Portugal e, de volta a Salvador, no início do século XIX, fez inúmeros trabalhos em igrejas, como painéis para a Ordem Terceira de São Francisco, o forro da Ordem Terceira do Carmo e a Igreja dos Órfãos de São Joaquim. Mas também fez retratos: foram 23 só para o Convento da Piedade.

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