'Preciso ter minha paz de volta', diz motoboy investigado no Caso Atakarejo

salvador
16.07.2021, 05:00:00
Atualizado: 16.07.2021, 09:05:14

'Preciso ter minha paz de volta', diz motoboy investigado no Caso Atakarejo

Michel, que chegou a ser preso, disse que abandonará emprego por estar traumatizado

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Durante 15 dias, Michel da Silva Lins, 21 anos, passou os piores momentos de sua vida. Preso sob a acusação de envolvimento no caso Atakarejo, quando tio e sobrinho foram brutalmente assassinados após furtarem carnes no supermercado, o motoboy foi soltou na noite dessa quarta-feira (14) após a Justiça entender que ele deve responder o processo em liberdade. Mas deixar o ambiente inóspito, onde à noite deitava no chão, não é o suficiente para ele. “Quero que a justiça reconheça a minha inocência”, disse Michel na manhã desta quinta-feira (15). 

No dia 13 deste mês, dos 23 envolvidos indiciados pelo crime, 13 acusados que estavam custodiados por prisão temporária foram denunciados pelo Ministério Público da Bahia, inclusive Michel. Segundo a denúncia, ele ajudou e ocultar os cadáveres. Então, a defesa do motoboy entrou com o pedido de relaxamento da temporária, pois o MP já tinha solicitado a prisão preventiva dos denunciados. Mas nesta quarta (14), a Justiça acolheu o pedido da defesa, já que o motoboy foi denunciado por um crime de menor potencial e a prisão preventiva é designada para crime hediondo, quando a pena prevista supera quatro anos de reclusão. 

“Estava com outros presos, uns cinco na Baixa do Fiscal. Era muita tristeza, angústia, estava ali sem ter feito nada, inocente, estava muito mal, chorava todos os dias, estava sem comer direito”, disse Michel, durante entrevista no escritório do advogado na Avenida Paralela. Já passava das 20h desta quarta (14) quando ele havia chegado em casa, no Complexo do Nordeste de Amaralina. “Eu não dormi ainda, porque só vou sossegar de fato quando a Justiça disser que sou inocente, porque preciso ter a minha paz de volta”, disse ele. 

Desde a prisão de Michel, parentes e amigos do motoboy fizeram vários protestos pela soltura dele. A manifestação mais recente aconteceu nessa quarta, momentos antes de ele deixar a DRFR. “Só tenho a agradecer a Deus e depois a minha família e amigos que não desistiram de brigar por mim. Orava todos os dias, porque estou certo, sou inocente, não tenho nada com isso. Fiz uma boa ação para ajudar e acabei me prejudicando”, contou. 

Michel com a namorada Yngrid e a mãe dela, Daniele, no escritório do advogado João Vítor (Foto: Paula Fróes)

O motivo da prisão é que a moto de Michel foi flagrada em imagens pela polícia. No entanto, no dia do crime, o motoboy disse que emprestou o veículo a um conhecido, já que estava de folga do trabalho. O homem, também motoboy, teria transportado o passageiro envolvido nas execuções de Bruno e Yan, e não Michel. “Emprestei a moto a um colega, que é mototaxista. Ele pediu a minha para fazer a corrida para fazer o dinheiro para consertar a embreagem da moto dele que estava quebrada. Ele, sem saber, levou um dos envolvidos no episódio. A polícia disse que fui eu pelo capacete e relógio, mas até agora não sei nada”, disse. 

Assustado
Ainda com o semblante assustado, ele chegou às 11h ao escritório acompanhado da namorada, Yngrid Freitas Fiuza, 20, e a mãe dela, Daniele Pereira Freitas, 39. “Entrei na delegacia na manhã do dia 30 (junho) e saí ontem. Foram 15 dias. Estava dormindo quando eles invadiram a minha casa com um mandado de prisão. Reviraram minha casa, bagunçaram tudo lá, mas não acharam nada, porque não devia nada. Eles disseram o motivo que eu estava sendo levado, mas falei o tempo todo que era inocente, mas não adiantou”, contou ele. Aantes de chegar à DRFR, ele foi levado no mesmo dia pelos policiais à 28ª Delegacia (Nordeste de Amaralina), ao Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) e ao Comando de Operação Especial da Polícia Civil (COE). 

Durante o período que estava preso, ele teve medo, mas não perdeu a fé. “Estava com medo de não mais sair de lá. Só vinha isso martelando na cabeça. Ao mesmo tempo, nunca perdi (fé). Pensava que não era justo estar ali por ser inocente, estar pagando por algo que não fiz.  Então, confiei em Deus e Ele é grande e Ele sabe de tudo.  Ele é justo e verdadeiro”, declarou.

Diante de toda a situação ao qual foi exposto, Michel falou sobre o trabalho da polícia. “Não acho justo o que fizeram comigo. Minha vida hoje está muito marcada, pra eu arrumar um emprego será muito difícil e é por isso que preciso da ajuda da imprensa para mostrar que não tenho nada a ver com isso. Mas não quero falar sobre a polícia. Deixa eles trabalharem na forma deles”, respondeu.  

Perguntado sobre a volta à rotina, Michel disse que está em busca de outras profissões. “Eu pretendo procurar um emprego porque estou com trauma de moto. Não quero mais conta com moto. Vou fazer um curso de barbeiro e de vigilância. Mas quero que a justiça reconheça a minha inocência, que me tire do processo para que a minha ficha seja limpa e assim poder arrumar um emprego”

Preventiva
A Justiça decidiu decretar a prisão preventiva de 11 dos 13 denunciados pelo Ministério Público estadual por envolvimento nas mortes de Bruno Barros da Silva e do sobrinho Yan Barros da Silva, no último dia 26 de abril. As vítimas foram levadas do interior da loja Atacadão Atakarejo, localizada no bairro de Amaralina, e entregues para execução no bairro do Nordeste de Amaralina, na localidade do Boqueirão, em Salvador.

A decisão foi publicada na última quarta-feira (14). O pedido de prisão foi feito pela promotora de Justiça Ana Rita Nascimento. Na decisão, a juíza Gelzi Almeida Souza decretou a prisão preventiva dos denunciados Agnaldo Santos de Assis, Cláudio Reis Novais, Cristiano Rebouças Simões, Victor Juan Caetano Almeida, David de Oliveira Santos, Francisco Santos Menezes, Lucas dos Santos, João Paulo Souza Santos, Alex de Oliveira Santos, Janderson Luís Silva de Oliveira e Rafael Assis Amaro Nascimento.

Quanto à Ellyjorge Santos de Lima e Michel da Silva Lins, a magistrada determinou a aplicação de medidas cautelares de comparecimento em juízo mensalmente, de proibição de qualquer contato com familiares das vítimas e testemunhas do processo, e de proibição de sair da comarca de Salvador sem autorização judicial. Na decisão, a juíza aponta que as medidas cautelares são cabíveis em crimes cuja pena seja inferior a quatro anos, como é o caso do delito de ocultação de cadáver, com pena de reclusão de um a três anos e multa.

GPS
Michel terá que provar a sua inocência no decorrer do processo. “Como o Ministério Público optou pela denúncia dele, vai  demorar mesmo. Vai ter esperar o processo todo e nisso Michel ficou prejudicado porque toda vez que ele for em busca de um emprego, vai constar lá o antecedente criminal. Então, só após a sentença que a gente vai saber se ele será inocentado ou não”, declarou o advgado do motoboy, João Vítor. O motoboy terá que cumprir algumas medidas caustelares, como não se ausertar da comarca de Salvador e não poderá manter nenhum contato com os demais envolvidos no processo. 

Segundo o advogado, além de testemunhas que afirmam que Michel estava em casa na hora do crime e as imagens das câmeras coletas pela polícia não mostram em nenhum momento o motoboy, o GPS do celular do rapaz aponta que ele estava em casa. “Agora,a gente vai trabalhar a segunda fase e com uma prova mais robustas, que é o GPS, que é o tudo que a gente tem, a gente vai colocar em juízo pra que a gente venha isentar Michel. O GPS diz que, desde 1h48 até 18h25 de 06  de abril de 2021, Michel estava em casa e o episódio ao qual ele foi inserido ocorrido por volta das 16h”, declarou o advogado.

Relembre o caso
Os corpos foram encontrados no porta-malas de um carro com marcas de tortura e de tiros, e foram identificados pela polícia. Segundo os familiares de Bruno e Yan, após serem supostamente acusados de furto no supermercado, os dois teriam sido entregues a traficantes por funcionários do estabelecimento. 

“Ficamos sabendo que um gerente chamou os traficantes da área, que botaram os dois na mala de um carro. Se eles estavam roubando, tinham que chamar a polícia, e não fazer isso”, disse uma das familiares dos rapazes.

Fotos que circulam nas redes sociais mostram tio e sobrinho em três momentos. O primeiro logo após eles terem sido flagrados roubando carne na rede de supermercado. Os dois estão agachados numa área interna do estabelecimento, ao lado dos produtos que teriam sido furtados e de um homem, apontado como segurança da loja.

O segundo momento mostra tio e sobrinho sentados numa escadaria do Boqueirão. As últimas fotos mostram os corpos, ambos com os rostos deformados por conta dos disparos.  

“Ficamos sabendo que um gerente manteve contato com os traficantes, que chegaram lá pouco depois. Eram mais de 10, todos armados, e levaram eles para o Boqueirão. Lá, deram mais de 30 tiros de metralhadoras, pistolas, escopeta e ainda deram facadas”, disse um amigo das vítimas, que também teve o nome preservado. 

Por meio da assessoria de comunicação, a rede de supermercado informou que "o Atakarejo é cumpridor da legislação vigente, e atua rigorosamente comprometido com a obediência às normas legais. Não compactua com qualquer ato em desacordo com a lei".

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