Produtos até 140% mais caros forçam caruru de São Cosme e Damião a ser mais modesto

bahia
21.09.2021, 06:23:00
(Paula Fróes/CORREIO)

Produtos até 140% mais caros forçam caruru de São Cosme e Damião a ser mais modesto

Veja como baianos estão se virando pra lidar com alta do frango, castanha, amendoim e banana da terra

Quem gosta de comida baiana passa o mês todo de setembro pensando em caruru e torcendo para receber o convite para alguma celebração. Você já recebeu o seu este ano? É bom não se animar muito porque, mesmo com a queda dos números da pandemia de covid-19, os festejos devem permanecer escassos. Isso por conta dos preços dos alimentos que compõem aquele prato caprichado de dar água na boca. O feijão fradinho, o frango e a castanha foram os que mais subiram no mês de setembro na comparação entre 2020 e 2021. O grande campeão é o feijão, com aumento de 140%. 

Dona Anete Maria Dias nasceu no dia 26 de setembro e, desde 1970, é tradição fazer um caruru nesse dia para comemorar o seu aniversário. Normalmente a família toda se reúne para comer e ela ainda distribui quentinhas na rua e nas creches. Mas, por conta dos preços dos alimentos, essa tradição vem diminuindo de tamanho e, dessa vez, quando ela vai completar 76 anos, não vai ser diferente. 

“Já fiz caruru para umas 150 pessoas. No ano passado, foram 21 quentinhas, só para o pessoal aqui de casa mesmo. E esse ano vai ser assim também, coisa pequena”, diz ela. “O pessoal me cobra, ex-colegas de trabalho, familiares. Eles falam que vem, mas eu digo: ‘vem não, porque esse ano vai ser bem menor, não vai dar pra todo mundo, não’”, conta. 

Dona Anete reclama dos preços e diz que, mesmo tentando driblar a alta ao comprar antecipado, fica sem ter por onde fugir.

“O camarão sempre está caro, o azeite [de dendê] está terrível, eu não esperava tão alto assim. Eu estava acostumada a comprar o litro por R$ 5 ou até R$ 8, mas agora está R$ 12. Eu fui adiantar e comprar as coisas secas, que não são perecíveis, e já gastei R$ 400. Antes eu gastava R$ 2 mil com tudo; este ano vou gastar a mesma coisa para fazer a metade da quantidade que fazia”, revela. 

E as pesquisas comprovam que Dona Anete tem razão. Os alimentos no geral estão mais caros e aqueles utilizados no caruru não ficam de fora disso. O saco com 10 kg do feijão fradinho saltou de R$ 25 para R$ 60 (140%) do ano passado para cá. Já o kg do frango congelado subiu de R$ 8,49 para R$ 10,99 (29,45%). A castanha inteira aumentou em 19,05%, passando de R$ 42 para R$ 50 o kg. Os preços são do Centro de Abastecimento da Bahia (Ceasa-Ba), administrado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE). 

Mais baratos
O amendoim sem casca e a banana da terra também estão mais caros. Já a cebola, o coco seco médio, o gengibre e o quiabo tiveram queda de preço. O campeão do descontinho foi o gengibre, que custava R$ 200 em setembro do ano passado e, agora, custa R$ 80 a caixa com 15 a 17 kg. A queda foi de 60%.  

Quiabo foi o elemento do caruru que mais subiu de preço entre 1º e 13 de setembro deste ano
Quiabo foi o elemento do caruru que mais subiu de preço entre 1º e 13 de setembro deste ano (Foto: Paula Fróes/CORREIO)
A castanha sofreu aumento de 19% do ano passado para cá
A castanha sofreu aumento de 19% do ano passado para cá (Foto: Paula Fróes/CORREIO)
O camarão seco grande não teve mudança de preço e custava R$40 o kg na Ceasa no dia 13/09
O camarão seco grande não teve mudança de preço e custava R$40 o kg na Ceasa no dia 13/09 (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Mas os preços ainda podem subir. A tendência é de que, conforme o dia 27 vá se aproximando, os valores aumentem.  E esse movimento já vem acontecendo desde o dia 1º de setembro. Na comparação entre o período até o dia 13 deste mês, azeite de dendê, cebola, gengibre, leite de coco e quiabo já ficaram mais salgados. 

O que mais subiu foi o quiabo, que saiu de R$ 60 para R$ 80 o saco com 25 kg (33,33%). Logo em seguida, vem a cebola, que custava R$ 25 o saco com 20 kg no dia 1º e R$ 30 no dia 13 (20%). Em 3º lugar está o gengibre, que saltou de R$ 70 para R$ 80 (14,29%). Vale ressaltar que a SDE não informou os preços de 2020 do leite de coco e do azeite de dendê. 

É por isso que Geovana Matos, de 47 anos, prefere comprar com antecedência os ingredientes da comida baiana que prepara para encomenda na Cozinha da G (@cozinha_da_g). Mas, mesmo assim, não conseguiu fugir dos aumentos e precisou repassar o valor para os clientes. Os preços das porções do caruru tiveram elevação entre 5% e 10%. Já o buffet completo com entrada e serviço de garçom para eventos, que custava R$40 por pessoa no ano passado, passou para R$55 este ano. 

“Eu precisei aumentar o valor final da venda porque os alimentos estão muito caros, principalmente o frango, que está um absurdo. Para conseguir manter a qualidade, não teve jeito. Mas foi um aumento só para repassar os custos, os clientes estão sendo compreensivos”, diz. As encomendas podem ser feitas pelo telefone (71) 991599422. 

Na Cozinha da G, os preços das porções de caruru tiveram aumento entre 5% e 10% de 2020 para 2021 (Foto: Divulgação)

Já o tradicional caruru da Feira de Fraternidade, ligada à Paróquia Nossa Senhora da Vitória, este ano vai acontecer fora de época justamente por conta dos preços dos itens. Segundo a organizadora Ianê Távora, da Barraca Baiana, em setembro os alimentos ficam mais caros por conta da alta procura e, por isso, a saída encontrada foi realizar o caruru no primeiro domingo de novembro. Os voluntários arrecadam doações em dinheiro para fazer o caruru e o valor das vendas é revertido para ações da paróquia. 

“Quiabo, castanha, amendoim, camarão...tudo fica mais caro em setembro. Aí fica complicado fazer um caruru assim porque o preço da quentinha fica alto e o pessoal não quer pagar. Aí vamos deixar para novembro porque não vamos precisar cobrar um valor tão alto”, diz Ianê. 

Religião
E se está pesando no bolso de quem quer aproveitar a época e se deliciar com os sabores da comida, imagina para quem depende desses alimentos para realizar rituais religiosos. O babalorixá Rychelmy Imbiriba, líder do Terreiro Ilê Asé Ojisé Olodumaré, diz que está assustado com os preços e que os valores estão mais altos a cada ida à feira. 

“Antes da pandemia, a gente comprava um galo a R$18 ou R$20 e, agora, na feira ele está custando de R$60 a R$70. É algo absurdo! O preço sobe e nosso salário continua o mesmo ou fica até mais baixo”, reclama. 

Outros elementos utilizados nos rituais semanais são o feijão fradinho, o quiabo e o camarão seco, por exemplo. E, além dessas ocasiões, os candomblecistas também comemoram em setembro o mês dos orixás Ibejis (Erês), assim como os católicos e umbandistas homenageiam Cosme e Damião. Imbiriba conta que, no terreiro, a celebração vai acontecer no dia 25 e uma organização especial está acontecendo para que não falte nenhum elemento.

“A festa é coletiva e colaborativa. Fizemos uma lista com os itens e cada um vai trazer o que pode. Um traz dois litros de dendê, outro traz o frango, outro traz as balas e assim vai. Tem gente que pode mais e dá mais e tem gente que está sem emprego e a gente entende, aí a pessoa não oferece nada, mas participa do mesmo jeito”, conta o babalorixá. 

Mas, afinal, porque os alimentos estão tão caros?

Você deve ouvir por aí que a inflação está em alta e ver de perto que as coisas, em geral, estão mais caras. É mais ou menos assim que funciona: se a inflação está alta, significa que tudo está mais caro, inclusive os alimentos. A inflação do mês agosto na Região Metropolitana de Salvador (RMS) fechou em 0,70%, segundo informações divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O índice foi o maior para um mês de agosto desde 2001 (portanto, há duas décadas), quando havia ficado em 1,14%. 

Como explica a supervisora de disseminação de informações do IBGE, Mariana Viveiros, um dos grandes componentes da inflação é o preço dos alimentos, que vem subindo e levando com ele a inflação. “A inflação acompanha os preços, ou seja, reflete e mede o custo de vida. Se a inflação está aumentando é porque o custo de vida das pessoas está aumentando, os produtos estão mais caros”, afirma.

“Desde o segundo semestre do ano passado, temos tido uma inflação muito mais acelerada do que nos últimos anos anteriores, com aumentos maiores dos preços; o preço dos alimentos em quase todos os meses é o principal fator que puxa a inflação para cima. Aqui na RMS, os alimentos representam cerca de 20% dessa conta”, acrescenta a supervisora. (Confira aqui o vídeo do IBGE que explica como funciona a inflação)

Segundo o economista da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais (SEI), Denilson Lima, diversas variáveis explicam a alta dos preços dos alimentos em geral e dos produtos que compõem o caruru de Cosme e Damião, entre eles a demanda maior que a oferta e aumento do preço dos combustíveis e da energia. 

O economista explica que, com a melhora da pandemia, o setor produtivo está voltando a se aquecer e, por conta da demanda reprimida, muitas vezes está ficando difícil dar vazão a esse movimento, o que gera uma demanda maior que a oferta e, consequentemente, preços mais elevados. Lima destaca que, segundo dados do Ministério da Economia sistematizados pela SEI, foram gerados no Brasil cerca de 1,8 milhão de postos de trabalho entre janeiro e julho de 2021. Na Bahia, foram cerca de 81 mil postos a mais. 

Além da retomada da economia, Lima ressalta que, com alguns alimentos, como o frango, o fator da exportação contribui muito para o aumento de preço. “A China é um grande comprador de frango, carne bovina e carne suína do Brasil e é um país que precisa e paga bem. Então os produtores priorizam a exportação e sobra menos produto para o mercado interno, que fica com preço mais elevado pela baixa oferta, seguindo a lei da oferta e da procura”, acrescenta.

“E não podemos deixar de lado os preços de custo dos produtores em geral e também de alimentos, que estão mais altos, como também mostra a inflação. O custo do combustível é muito importante, assim como o da energia elétrica e isso tudo está mais caro, entra na conta do produtor e vai parar no preço final do alimento”, coloca o economista.

Lima ainda explica que, independente do cenário econômico, os preços dos alimentos usados no caruru vão subir no mês de setembro, como já destacaram Geovana e Dona Anete. “A expectativa dos vendedores é de que vai haver aumento da procura por conta desse caruru tão famoso na Bahia no mês de setembro. Então é um momento em que as pessoas vão demandar mais por esses produtos, ainda mais porque no ano passado a situação da pandemia era bem mais crítica e muita gente não fez nada e vai querer fazer esse ano”, finaliza. 

Preço de 25/09/20 (Ceasa-Ba): (Com exceção do azeite de dendê e leite de coco)

Amendoim sem casca (kg) - R$9,90 
Banana da terra (Kg) - R$3,00 
Camarão seco grande (Kg) - R$40,00
Castanha inteira (Kg) - R$42,00 
Cebola (saco com 20 kg) - R$35,00 
Coco seco médio (cento) - R$240,00
Feijão fradinho (saco com 10 kg) - R$25,00 
Gengibre (caixa com 15 a 17 kg) - R$200,00 
Quiabo (saco 25 kg) - R$85,00 
Frango congelado (Kg) - R$8,49 

Preços 01/09/21 (Ceasa-Ba):

Amendoim sem casca (kg) - R$12,00
Azeite de dendê (caixa com 12 unidades de 1L) -     R$132,00
Banana da terra (Kg) - R$3,50
Camarão seco grande (Kg) - R$40,00
Castanha inteira (Kg) - R$50,00
Cebola (saco com 20 kg) - R$25,00
Coco seco médio (cento) - R$170,00
Feijão fradinho (saco com 10 kg) - R$76,80
Gengibre (caixa com 15 a 17 kg) - R$70,00
Leite de coco (caixa com 12 unidades de 500ml) - R$20,00
Quiabo (saco 25 kg) - R$60,00
Frango congelado (Kg) - R$10,99

Preços 13/09/21 (Ceasa-Ba):

Amendoim sem casca (kg) - R$10,00 
Azeite de dendê (caixa com 12 unidades de 1L) - R$144,00
Banana da terra (Kg) - R$3,50 
Camarão seco grande (Kg) - R$40,00
Castanha inteira (Kg) - R$50,00 
Cebola (saco com 20 kg) - R$30,00 
Coco seco médio (cento) - R$170,00
Feijão fradinho (saco com 10 kg) - R$60,00 
Gengibre (caixa com 15 a 17 kg) - R$80,00 
Leite de coco (caixa com 12 unidades de 500ml) - R$22,00 
Quiabo (saco 25 kg) - R$80,00 
Frango congelado (Kg) - R$10,99 

Variação de preços entre 01/09/21 e 13/09/21: 

Amendoim sem casca (kg) - variação de -16,67%
Azeite de dendê (caixa com 12 unidades de 1L) - variação de 9,09%
Banana da terra (Kg) - variação de 0%
Camarão seco grande (Kg) - variação de 0%
Castanha inteira (Kg) - variação de 0%
Cebola (saco com 20 kg) - variação de 20,00%
Coco seco médio (cento) - variação de 0%
Feijão fradinho (saco com 10 kg) - variação de -21,88%
Gengibre (caixa com 15 a 17 kg) - variação de 14,29%
Leite de coco (caixa com 12 unidades de 500ml) - variação de 10,00%
Quiabo (saco 25 kg) - variação de 33,33%
Frango congelado (Kg) - variação de 0%

Variação de preços entre 25/09/20 e 13/09/21: (Com exceção do azeite de dendê e leite de coco)

Amendoim sem casca (kg) - variação de 1,01%
Banana da terra (Kg) - variação de 16,67%
Camarão seco grande (Kg) - variação de 0%
Castanha inteira (Kg) - variação de 19,05%
Cebola (saco com 20 kg) - variação de -14,29%
Coco seco médio (cento) - variação de -29,17%
Feijão fradinho (saco com 10 kg) - variação de 140%
Gengibre (caixa com 15 a 17 kg) - variação de -60%
Quiabo (saco 25 kg) - variação de -5,88%
Frango congelado (Kg) - variação de 29,45%

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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