Quando a escola não basta: aulas particulares de até R$ 850 por mês têm lista de espera

coronavírus
14.02.2021, 07:00:00
A professora Luciana Limoeiro montou espaço na garagem de casa para ministrar as aulas de reforço. Demanda maior é de alunos em fase de alfabetização (Foto: Nara Gentil/ CORREIO)

Quando a escola não basta: aulas particulares de até R$ 850 por mês têm lista de espera

Déficit de aprendizado na pandemia causou aumento na procura por reforço escolar

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Di-fi-cul-da-de. No ano em que seria alfabetizado, Francisco, de 7 anos, precisou aprender a ler e a escrever com a mediação de uma tela. “Meu filho, e outros estudantes, foram as primeiras crianças a serem alfabetizadas virtualmente. Não desmerecendo o sistema de ensino virtual, mas nessa fase é bastante complicado para um pai chegar ao final do ano letivo, ver seu filho com boas notas e não ver que ele já está pronto para a série seguinte. Se eu fosse professor, no ano passado, eu teria reprovado ele”, desabafa o empresário Antônio Sá. 

O ano letivo de 2020 terminou, mas Antônio é um dos pais que perceberam as lacunas que a pandemia deixou no processo de aprendizagem do filho. A solução foi ir em busca de um reforço fora da escola para ajudar Francisco a começar a ler e a escrever. O movimento de procura por esse serviço cresceu a ponto de professores que costumam dar essas aulas particulares estarem até com lista de espera, enquanto os estudantes disputam uma brecha na agenda. 

A pedagoga Fernanda Marques tem, atualmente, 16 alunos e outros 10 em busca de uma vaga. Ela começa a dar aulas às 6h30 da manhã e vai até às 20h30, inclusive, aos sábados.

“O déficit no aprendizado está muito grande. Estou com a agenda super, hiper, mega cheia e tem criança, sim, na fila de espera. Sempre fui professora e decidi trabalhar só com reforço escolar em domicílio. Quase todo dia, recebo mensagem no celular me pedindo data. Dou aula até em dia de sábado”, conta. 

No caso das aulas ministradas por Fernanda, o valor mensal, por cinco dias na semana, chega a R$ 850, mas o preço pode variar a depender da quantidade de aulas. “As dificuldades maiores são na escrita e na leitura, principalmente de alunos que cursaram o 1º ano do Ensino Fundamental I. Eu utilizo muitos jogos, quebra-cabeças, leiturinhas e ditado de palavras”. 

Já a professora Luciana Limoeiro chegou a criar um espaço na garagem da casa onde mora, no bairro da Graça, para dar as aulas de reforço. “Como é tudo presencial, eu atendo dois alunos no período de 2h cada, em carteiras separadas (com distanciamento), termômetro para aferir a temperatura na chegada e álcool gel. A sandália fica na entrada, uso da máscara contínuo e sempre que há troca de crianças, as carteiras e os materiais de uso são higienizados”. 

A hora-aula na Pró Lu Reforço Escolar custa R$ 33. “Com o período da pandemia, houve um aumento da demanda. O que mais preocupa os pais é o engajamento dos estudantes, a gestão do currículo, o bem-estar social e emocional, a aprendizagem em si. Vejo crianças chegando muito desmotivadas e sem concentração”, completa.  

Foi justamente a falta de interesse para fazer as tarefas e acompanhar as aulas que acendeu o alerta de Antônio e o levou a buscar o suporte das aulas particulares para Francisco. O investimento no reforço corresponde a 20% do valor da mensalidade que ele paga na escola.

“Sei que o déficit de aprendizagem de um ano acumula no outro, que se soma no próximo e por aí vai. Hoje, Francisco já faz leitura, domina os números, conta histórias, canta”. 

Turno oposto
A renda principal da professora Gal Perez é o que ganha com as aulas em domicílio. Atualmente, ela acompanha oito crianças, na faixa etária entre 6 a 9 anos. Outros oito alunos aguardam na lista. “O valor da minha hora aula é R$ 70. Antes de iniciar com as aulas de reforço, faço uma avaliação com a criança para identificar as dificuldades e necessidades específicas de cada uma. Aí vejo qual método trabalhar. A melhor didática é aquela em que a criança aprende com facilidade e se apropria do conhecimento de forma leve e tranquila”. 

O Ministério da Educação (MEC) não deu informações sobre a existência de regulamentação ou recomendação, no que diz respeito à prestação de serviço de aulas de reforço fora da escola. A empresária Jeane Patrícia Santana lembra que precisou procurar bastante até encontrar uma professora particular para ajudar os filhos. Mãe de Andrezza, Guilherme e Giovana - de 15, 8 e 6 anos, respectivamente -, a formação profissional foi o que pesou na escolha.   

“Por incrível que pareça, achar uma banca foi uma caça ao tesouro. Devido à necessidade de muitos pais em contratar o serviço, tive que procurar, e muito, até chegar ao profissional que se identificasse com o perfil que procurávamos, o de alguém, de fato, comprometido com a sua formação”. A filha caçula foi quem mais sofreu os reflexos da pandemia na hora de aprender: 

“Sempre haverá defasagem por mais que a escola tente se adaptar, crie, pesquise plataformas diferentes, capacite os seus profissionais. Nada nunca será como a aula presencial, como o olho no olho e o calor humano. Mas, claro, isso só poderá acontecer de forma segura e de preferência com todos imunizados. É um desafio manter Giovana atenta em uma tela de computador por mais de duas horas”, afirma. 

Para a psicanalista, orientadora educacional e educadora parental, Larissa Machado, antes de contratar um reforço escolar, os pais precisam entender o que a escola está ofertando e identificar se essa lacuna é uma questão do conteúdo – se a instituição de ensino está fazendo o que deve ser feito – ou se a limitação na aprendizagem é devido às condições impostas pela pandemia.

“Leve a discussão para a escola sobre o que ela pode fazer mais ou se essa lacuna é consequência do momento que estamos vivendo”, aconselha a especialista.  

Se a escolha for optar pelo reforço, além de observar a competência técnica do professor, vale conhecer a sua didática para passar o conteúdo e a maneira como se relaciona com o aluno. “O ideal é que esse profissional entenda a metodologia da escola para que não haja divergências. Observe os recursos que ele usa, se aplica atividades diversificadas. Outro ponto está no vínculo que ele estabelece e abordagem para transmitir o conhecimento”. 

O reforço escolar deve ser um estímulo à mais e não um substituto da escola ou da supervisão dos pais, como complementa Larissa. “O papel da escola enquanto espaço de aprendizagem social, ninguém tira. Estamos vendo, agora, a falta que isso está fazendo. A família tem a sua importância, como sempre teve, e o reforço escolar pode ser um apoio pedagógico, mas a escola tem o seu lugar”, opina.       

Currículo  
Algumas escolas começaram a desenvolver iniciativas na intenção de compensar essas perdas. O Colégio Oficina, na Pituba, iniciou o ano letivo com uma série de avaliações de sondagem diagnóstica para todos os alunos de todas as séries.

“O objetivo é realizarmos um levantamento minucioso de eventuais defasagens em relação a conteúdos e habilidades referentes ao ano que passou. Assim, o ponto de partida para o ano de 2021 será a retomada daquilo que, a partir das nossas sondagens, requeira atenção especial para preenchimento de eventuais lacunas”, explica a gestora do colégio, Lurdinha Viana. 

A Escola Experimental Casa do Horto, localizada no Horto Florestal, montou grupos de estudos. “Chegamos mais fortes em 2021, com a experiência acumulada de 2020. Após uma avaliação, separamos esses alunos em grupos de quantidade reduzida. A escola também ofereceu um curso de recuperação paralela, no turno oposto, como uma nova oportunidade de aprendizagem através de um trabalho individualizado”, diz a diretora da instituição e membro do Grupo de Valorização da Educação (GVE), Bisa Almeida. 

Na Pan American School of Bahia (Pasb), em Patamares, novos protocolos internos foram desenvolvidos para acompanhamento de frequência nas aulas síncronas (em tempo real) e resolução das atividades assíncronas (offline). “Essa estratégia permitiu a oferta de um atendimento especializado para estudantes com dificuldades de aprendizagem e com alguma questão emocional específica”, garante a diretora do Programa Brasileiro da PASB, Andréa Basílio. 

O Sindicato das Escolas Particulares da Bahia (Sinepe-BA) planeja aplicar uma avaliação para identificar o que foi realmente aprendido desde o início da pandemia, como adianta o diretor da entidade, Jorge Tadeu. “A avaliação de uma escola não é apenas uma prova. As defasagens serão constatadas no ambiente escolar. Após o retorno presencial, pretendemos fazer essa avaliação e detectar o que foi absorvido e o que não foi”.  

Além do conteúdo  
A médica Renata Dias é mãe de três filhos: um de 8 anos, outro de 9 e o mais velho, com 15 anos. Ela conta que procurou a escola e deixou clara a necessidade de tentar resgatar o último ano letivo nos próximos anos. “Ainda não tive nenhuma resposta. Os meninos sempre foram excelentes alunos, mas não renderam com as aulas à distância”. 

Para o filho maior, Renata pensa em contratar um reforço que possa melhorar o desempenho nas disciplinas de Física e Matemática. “O Enem não tem jeito, ele tem que fazer. Não tenho dúvida da capacidade das crianças e adolescentes, meu receio é que não sejamos capazes de nos reinventar como pais, educadores e gestores. O fato é que vamos ter que correr atrás. O foco agora é construir uma forma, buscar os meios”. 

Leia também: Cinco mudanças trazidas pelo ensino remoto que devem permanecer nas escolas em 2021

A professora titular da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo), Carlota Boto, chama atenção para o compromisso da escola em reconhecer que houve perdas e que essas perdas precisam ser recuperadas daqui para frente.

“Estamos falando sobre a necessidade de dialogar com as famílias. Como ensinar o que é essencial? Pensar sequências didáticas que façam sentido”. 

O conhecimento avança, o que se define como importante e necessário a ser aprendido também, como defende a presidente da Avante Educação e Mobilização Social, Maria Thereza Marcilio. “Se conseguirmos aprender a distinguir o que é informação da ciência e o que é mentira e enganação, se conseguirmos escutar o que significaram o distanciamento social, as perdas afetivas, as incertezas e transformar em matéria de estudo e investigação, será muito bom”, complementa.  


CINCO SINAIS DE QUE SEU FILHO PRECISA DE UM REFORÇO

1. A criança em casa é desatenta em relação a suas tarefas escolares? Ela se dispersa ao fazer a lição de casa?  

2. Tem preguiça ou medo de acompanhar as atividades? Chega a pedir aos pais para faltar às aulas?

3. As notas e avaliações revelam dificuldade de aprendizado? Se queixa das atividades propostas pelo professor?  

4. A criança tem dificuldade de relatar o que aprendeu na escola? Como ela se comporta quando os pais fazem esse questionamento?

5. Seu filho reclama muito da professora? Questiona a maneira como as aulas acontecem? Tem dificuldade de prestar atenção? 


LIÇÃO DE CASA

Supervisão mais de perto  
Para a psicanalista, orientadora educacional e educadora parental, Larissa Machado, é importante estudar junto. “A presença da família se tornou ainda mais essencial. A escola está em casa. É preciso ter esse feedback, acompanhar o retorno das aulas dia a dia”.  

Amplie as discussões que a escola traz 
Esse é mais um conselho da especialista, para os pais que não contratam aulas particulares. “Traga para esse momento da supervisão, o foi aprendido nas aulas”.  

 Jogos e Brincadeiras 
“Amplie os momentos de lazer com o envolvimento em jogos educativos. Participe, ao máximo, dessa vida escolar”, completa a especialista. 


E AS ESCOLAS?

Reformulação do currículo
A doutora em Educação e docente da Faculdade de Educação da Ufba, Telma Brito Rocha, destaca a importância das escolas definirem um currículo mínimo com conteúdos essenciais. “Podemos fazer também um currículo contínuo e retomar o que não foi trabalhado em 2020, agora em 2021”.    

Gestão participativa 
Nesse caso, é fortalecer o diálogo com pais, alunos e professores, como recomenda a doutora em Psicologia Evolutiva e da Educação, professora  e coordenadora do Núcleo Integrado de Estudos e Pesquisas sobre Infâncias e Educação Infantil (Faced/ Ufba), Silvanne Ribeiro. “Criar espaços para o debate de ideias e estratégias de planejamento e execução de propostas que dialoguem com toda a comunidade escolar”.  

Grupos de estudo 
A professora titular da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo), Carlota Boto, aponta para a necessidade de criação de grupos menores de alunos para estimular as trocas. “Ou seja, favorecer mecanismos partilhados de aprendizagem, onde as crianças possam também ensinar umas às outras. Reforço com aulas em turno oposto é outra estratégia”. 

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