Relato: 'Tenho vitiligo e fui acusado de fraudar cotas para curso de Medicina'

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17.04.2021, 06:30:00
Atualizado: 17.04.2021, 08:35:34
Gildásio na adolescência e depois já adulto (Foto: Reprodução/Acervo pessoal)

Relato: 'Tenho vitiligo e fui acusado de fraudar cotas para curso de Medicina'

Caso complexo em universidade federal baiana envolve Gildásio, que tem mais da metade do corpo descolorido e se inscreveu para cotas para pardos

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Meu nome é Gildásio Warllen dos Santos, tenho 33 anos, sou portador de vitiligo universal e estudante do quarto ano do curso de Medicina da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Nasci pardo, sempre me autodeclarei assim, sou filho caçula de lavradores rurais, tenho 11 irmãos e, agora, estou lutando contra uma denúncia que foi feita contra mim na ouvidoria da UFSB, que me acusa de ser fraudador do sistema de cotas. 

O vitiligo iniciou em minha vida aos 2 anos de idade. Por morar na roça, na cidade de Capelinha, em Minas Gerais, sempre estive muito exposto ao sol e sofria com queimaduras. Meu pai, homem trabalhador e duro para algumas coisas, não entendia que as manchas eram motivo pra eu ficar na sombra, então o resultado sempre foi doloroso. Ao queimar as regiões despigmentadas, formavam-se bolhas. Tomar banho era sacrifício e dormir quase impossível nestes dias. Minha mãe sofria comigo vendo aquelas situações se repetirem, fazia banhos de ervas para amenizar o ardor e rezava muito pedindo a cura.

Leia mais: De onde saiu essa mancha? Vitiligo pode ser ativado por estresse e ansiedade na pandemia

Dentre vários episódios, um eu não tenho como esquecer. Após um dia muito quente de trabalho, me queimei feio e, no dia seguinte ao acordar, não consegui sair da cama. Bolhas se formaram à noite, estouraram e o lençol grudou em minha pele. Acordei aos gritos de choro e fui para debaixo do chuveiro. Aquela água gelada foi o maior alívio da vida.

Iniciei meus estudos numa escolinha da roça, eu ia andando alguns quilômetros até ela. Depois, meus pais me levaram para a cidade para morar com minha avó e estudar. Foi ali o início de dias nada fáceis. Além da saudade de casa, de meus pais e irmãos, ir pra escola era a pior parte. Na nova escola, embora muito querido por muitos e principalmente pelos professores, havia um grupo que fazia daquele o pior lugar da vida. Lá, eu perdi minha identidade.

Não era mais reconhecido pelo meu nome, mas por apelidos desagradáveis. Agora eu era “o vaca”, “o cavalo pampa”, “o onça”, “o marsupilami”, “o dálmata”. Sempre fui aluno exemplar, mas me tornei o maior brigador da escola. Todo dia eu tinha que bater em alguém diferente pra tentar ganhar respeito e ter direito a ser chamado pelo nome. 

Os apelidos e brigas não eram o pior. A exclusão, o medo dos colegas de se aproximarem de mim e se “contaminarem” com aquelas manchas. As mães dos colegas os proibiam expressamente quando tomavam ciência da amizade daqueles que se aproximavam de mim. Não me esqueço de um dia, sentado na calçada da casa de minha avó, conversando com meu colega de sala e vizinho, quando a mãe dele sai no portão e grita: “Fulano, entre agora”, e quando ele se aproximou dela, ouvi: “Já não falei que não quero você com esse menino! Ou você quer ficar manchado igual ele?”.

Quanto mais eu crescia, pior ficava, mais o vitiligo se alastrava. Cheguei à adolescência e aí ficou difícil, a vaidade da puberdade nos atinge, o interesse pelas coleguinhas, as primeiras paixões. Embora já tenha admitido que não havia o que fazer, ia tentando aceitar ser diferente dos outros. Eu não era como os demais e tive a certeza disso quando em um final de semana deixei de ir pra roça e fiquei na cidade pra ir a um clube com meus primos. Cheguei lá feliz, entreguei o atestado médico para uso da piscina. Eu nunca havia ido em uma piscina antes, aquilo era o paraíso. Eu me joguei na água com meus primos, porém durou muito pouco. O responsável pelo clube veio e pediu que eu me retirasse. Perguntou o que eram aquelas manchas e disse que eu não podia usar a piscina.

Por episódios como esse, não usei a piscina por muitos anos da minha vida. Nunca gostei de fotografias porque achava horrorosas as imagens das minhas lesões de pele, sempre escondi com uso de manga longa e bonés. Graças a Deus, encontramos força para superar todos esses momentos difíceis embora jamais tenha esquecido todos os preconceitos. A vida precisa seguir. Todo sofrimento me fez mais forte, alimentou em mim a esperança de dar a volta por cima, de um dia não precisar ser conhecido, apontado ou julgado pelas lesões.

(Foto: Reprodução/Acervo pessoal)


Após terminar o ensino médio, não pude voltar para a roça e seguir lavrando a terra como todos meus irmãos. Afinal, eu não posso ficar exposto ao sol, e como um homem sobrevive no meio rural sem tomar sol? Impossível. Decidi, então, que pelos estudos eu iria realizar todos os meus sonhos e coloquei na cabeça que seria médico. Meu pai deu risadas um dia quando falei. Ele me fez ver que não era um sonho para pobre. Sempre trabalhei desde os 13 anos de idade, mas então, após os 18 e agora, podendo trabalhar, e, receber como um adulto, estabeleci que trabalharia até conseguir ter uma economia que me fosse suficiente para fazer um bom cursinho e tentar cursar medicina. E foi bem assim. 

Trabalhei até os 25 anos economizando cada centavo. Larguei tudo: o meu antigo trabalho — que já era a realização de uma vitória —, minha família e amigos. Peguei as minhas economias, o seguro desemprego e rumei pra Campinas, em São Paulo, para fazer cursinho pré-vestibular. Um ano de cursinho e, pela honra do Senhor, consegui ingressar na recente criada Universidade Federal do Sul da Bahia. Não tem como traduzir em palavras o significado dessa aprovação.

Estou em meu quarto ano de curso. A vida aqui é uma loucura, e por tamanho estresse e correria, meu corpo foi 100% tomado pelo vitiligo. A verdade é que eu estou achando isso o máximo. Embora os cuidados com o sol exijam muito, pela primeira vez na vida não sou o manchado, o estranho pintado, “o vaca”, “o cavalo pampa”, sou só Gildásio. Mesmo não sendo minha cor original, não tendo nenhuma proteção fisiológica ao sol, agora tenho uma cor mais uniforme. Até perdi o medo de tirar fotos e me divirto quando meus amigos falam que preciso pegar um sol, pois estou muito sem cor.

Foto tirada por volta de 2013, quando ele já tinha mudado da roça para a cidade (Foto: Reprodução/Acervo pessoal)

Mas, para testar nossa força, os ventos ficam mais fortes. Estou enfrentando uma grande ventania. Fui denunciado na ouvidoria da instituição com a acusação de fraude ao sistema de cotas. Quando entrei na instituição, me inscrevi para a cota de pardo regulamentada pelo IBGE — candidatos autodeclarados pretos, pardos ou indígenas, com renda familiar bruta per capita igual ou inferior a 1,5 salário mínimo e que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas (Lei nº 12.711/2012). Pois bem, o IBGE  diz que pardo é uma mistura de cor, ou seja, é uma pessoa gerada a partir de alguma miscigenação, seja ela “mulata, cabocla, cafuza, mameluca ou mestiça”. 

Sem dúvida, sou pardo. Sou filho de miscigenação, tenho irmãos miscigenados, sempre me autodeclarei pardo. Sempre me vi socialmente pardo. Sempre sofri preconceitos duplos por ser pardo e portador de vitiligo. Eu nem precisaria da cota para entrar no curso, pois minha nota está entre as maiores da minha turma. Sou bom aluno, me relaciono muito bem e sou dedicado, não cometi nada ilícito. Mas os denunciantes alegam que estou branco. Eles não sabem que não ter cor é diferente de ser branco. Ou se sabem, não se importam. Fico profundamente triste com tamanha maldade. 

Como poderia saber que, mesmo me autodeclarando pardo como pede o edital, possuindo documentos que comprovam, laudos e fotos, eu poderia ser acusado de fraude? Quais são as características fenotípicas que uma pessoa deve ter para se declarar pardo? Onde estão descritas essas características? Na época, antes de me inscrever no edital, eu busquei informações junto a Comissão de Políticas afirmativas (CPAF), assim como na assistência social da universidade. Foi-me dito que se sempre me autodeclarei pardo, poderia continuar me declarando sem problemas.

Quando finalmente me vejo superando todos os horrores já sofrido por apenas ser portador de vitiligo, quando entro no curso sonhado por toda uma vida, quando até as manchas somem de minha vida, quando parecia de fato estar vivendo a plenitude de um paraíso, ressurge o pesadelo. Novamente sou apontado por ter vitiligo, novamente querem me excluir por ter uma cor diferente. Não sei o que fazer, sempre questionei a Deus o porquê eu tinha que ser todo manchado, e hoje me pergunto novamente, o porquê eu tenho que passar por tudo isso novamente. Não escolhi ter vitiligo, não escolhi perder toda minha cor.

Embora acometa cerca de 2 milhões de brasileiros, o vitiligo ainda não é reconhecido pela sociedade. Portadores da doença sofrem muito por todos os julgamentos e preconceitos. Ainda hoje dizem que Michael Jackson “quis” ficar branco. Ainda existem pessoas como a ex-BBB Karol com Conká, que disse que não existe vitiligo que tome todo corpo de uma pessoa. Ainda hoje há quem tenha medo de chegar perto, de sentar próximo, de se contaminar, mesmo com informação disponível a todo lado mostrando que vitiligo não é transmissível.

Pessoas com vitiligo sofrem danos causados pelo sol e sofrem mais pelos danos psíquicos. Raramente temos acesso a dermatologista pelo Sistema Único de Saúde. Pelo menos eu, que sempre morei no interior, só tive acesso duas vezes ao longo de 31 anos. Não temos dispensado pelos governos protetores solares gratuitos, que são tão importantes para nós. 

Estar em universidade pública na cota de pardo deveria mostrar o cumprimento do que a lei de cotas propõe, a inclusão das minorias. Sou exemplo de um filho de lavradores, do interior do Vale do Jequitinhonha, de baixa renda e escola pública que ingressa no tão sonhado curso. Sou exemplo de reparo social através do sistema de cotas. Sou exemplo de vitória para muitos, principalmente pra minha família. 

Estou prestes a me formar, sigo no 8º período do curso, ansioso para servir à sociedade, dar o retorno ao que me foi confiado. Alimento diariamente o sonho de que, em pouco tempo, minha cidade, que tem só 38 mil habitantes, terá um de seus filhos médicos, minha família terá o primeiro médico. Porém, esse sonho sempre é interrompido pelo medo dessa acusação. A acusação de fraude dói muito para alguém que tem como princípio de vida zelar por seu nome. Para alguém que aprendeu em sua família que a honestidade deve ser sempre a maior virtude de um homem. Novamente, repito, durante toda minha vida sempre me vi e sempre me declarei pardo.

Na terça-feira, 13 de abril, passei pela entrevista da banca de heteroidentificação. Eles têm 60 dias para darem seu parecer. Se for favorável, estarei livre de todo esse tormento. Do contrário, estarei expulso. Expulso por ser, aos olhos externos, aparentemente branco. Tenho algumas dúvidas que não se calam: Será que ao perder a melanina minha condição social mudou? Tenho que mudar meus documentos que trazem pardo? Ter nota, provar minha boa-fé, ter declarações prévias de pardo, ter fotos, laudos médicos, será suficiente para acertar toda essa situação?  
 

Resposta da UFSB

Em nota enviada ao CORREIO, a universidade disse que o caso, considerado complexo, está em análise pelo Comitê de Acompanhamento de Política de Cotas (Capc). De acordo com a instituição, a denúncia foi apenas admitida e o comitê tem, ao todo, 120 dias para avaliar. Neste período, Gildásio foi convocado para apresentar a sua defesa. Ele já foi ouvido e passou por uma oitiva, onde pode enviar documentos e apresentar argumentos. A UFSB pode solicitar o arquivamento do caso ou expulsão do estudante, se considerar que houve ocupação indevida da vaga.

O comitê que julga o caso é composto por mais de 20 pessoas, entre elas servidores técnicos, professores, alunos e membros dos movimentos negro e indígena, que se reunirão para decidir. Se desejar, Gildásio poderá entrar com recurso, que será analisado no prazo de até 60 dias. Se ele optar por recorrer, passado esse prazo, uma nova comissão é nomeada e divulgará um novo resultado também em até dois meses.

"Lembramos que pretos e pardos são, do ponto de vista dessa política pública de ingresso, aqueles que são assim heteroidentificados. Essa avaliação segue decisão colegiada do egrégio pleno do Supremo Tribunal Federal no caso da ADPF 186 e ADC 41. Ou seja, não basta que o candidato se autodeclare preto ou pardo", lembra a UFSB. O processo corre em sigilo.

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