Relatos de duas horas de confronto do crime em um bairro sob domínio do medo

salvador
21.05.2022, 07:00:00
Ruas desertas em Valéria (Arisson Marinho/CORREIO)

Relatos de duas horas de confronto do crime em um bairro sob domínio do medo

Tiroteio na sexta expõe a permanente onda de violência em Valéria

Enquanto a onda de violência avança sobre a zona nobre de Salvador, em Valéria ela nunca saiu de lá e sempre surge com grande força. Na manhã desta sexta-feira, 20, o dia mal havia raiado quando o medo voltou a dominar o palco de um dos mais sangrentos e longos confrontos pelo controle do tráfico de drogas na capital. Dessa vez, o terror espalhou seus tentáculos pelas ruas do bairro após duas horas de intensa troca de tiros travada entre facções do crime organizado.

A batalha que deixou Valéria novamente em estado de pavor começou por volta das 4h e só acabou às 6h. Relatos de testemunhas, que só aceitaram falar sob condição de anonimato, sintetizam o nível da tensão vivida por eles do início ao fim do tiroteio.  “Eu abri a porta, botei o pé para fora e um deles (dos criminosos) apontou logo a arma pra mim e me mandou voltar. Ainda queria invadir minha casa para saber se tinha envolvido se escondendo, mas não deixei porque tem criança lá”, contou uma moradora ouvida pela reportagem, ao afirmar que os bandidos invadiram e danificaram residências em diversos pontos do bairro.

Outra moradora disse ter tomado um grande susto durante o tiroteio. Isso porque, afirmou, uma bala perdida quase atingiu seu neto enquanto dormia. “Ele fez aniversário há uma semana, e quase perco ele. A bala ficou a um palmo de acertar a cabeça do meu neto. Como não ter medo? Aqui a gente vive como quem deve alguma coisa, mesmo levando uma vida honesta, longe do crime”, desabafou. 

Sitiados
Além do medo frequente, morar em Valéria significa ter a rotina alterada e o cotidiano afetado cada vez que a onda de violência ressurge. Durante quase toda a manhã de sexta, parte do bairro ficou sem acesso a transportes público. O resultado foram pontos de ônibus lotados por pessoas que se atrasaram para compromissos diários ou sequer conseguiram sair. Só a partir das 11h, os veículos começaram a circular normalmente na região. 

O duelo de facções prejudicou também a vida dos estudantes. Na rede municipal de ensino, colégios decidiram suspender as aulas até que o clima de tensão recue, informou a Secretaria Municipal de Educação (Smed) por meio de nota. “Em decorrência dos últimos acontecimentos ocorridos nessa madrugada (de sexta), as escolas Afonso Temporal e São Francisco de Assis estão com as atividades suspensas. As aulas retornarão assim que a situação se normalizar”, informou. 

Com isso, cerca de 1.200 alunos que estudam nas duas instituições ficaram sem aula. O Colégio Estadual Professora Noêmia Rêgo permaneceu de portões fechados pela manhã, mas a Secretaria de Educação do Estado afirmou, também em nota, que a instituição estava aberta.

Ação pontual
Embora a PM tenha aumentado o efetivo para reforçar a segurança no bairro após o tiroteio, a sensação de medo permanece alta entre as pessoas. “Como dormir e fazer nossas coisas na rua? Não tem como. Olho para meus meninos e só quero proteger, mas aqui parece impossível. A gente tenta fechar os olhos ao som do fuzil, mas ninguém consegue”, lamentou outro morador de Valéria. 

A violência afeta também a vida de comerciantes. Até aqueles que se arriscam a abrir as portas sofrem com a queda do fluxo após confrontos como o de sexta, cujo motivo é o poder sobre um bairro importante para o crime. Próxima à BR-324 e à BA-528, mais conhecida como Estrada do Derba, Valéria é considerada estratégica para escoar armas e drogas por facções que cobiçam o controle da área.

Cajazeiras e Águas Claras na rota da onda de pavor

O convívio com a sensação recorrente de medo provocada pela violência não é exclusividade de Valéria. Há 10 dias, Cajazeiras e Águas Claras, outras duas grandes trincheiras na guerra do tráfico, viveram mais uma vez momentos de extremo pavor, depois que a morte de três PMs na região desencadeou uma série de confrontos nos bairros. 

Os assassinatos dos policiais ocorreram  todos em Águas Claras. No dia 7 de maio, o soldado Alexandre José Ferreira Menezes Silva, 30 anos, levou um tiro de fuzil na cabeça quando fazia ronda com outro PM, que também foi baleado, mas sobreviveu. 

No dia seguinte, os soldados Shanderson e Victor Vieira Ferreira Cruz saíram do enterro de Alexandre e, em circunstâncias ainda não esclarecidas, foram emboscados a poucos metros do local onde o colega foi morto. Os assassinatos geraram forte resposta da PM. O impacto do confronto entre criminosos e policiais levou o medo das ruas para as instituições públicas de ensino.

Pelo menos 16 escolas na região ficaram sem aulas por dias, prejudicando um contingente de quase 3 mil alunos, em um efeito dominó que afetou comércio, transporte público e o dia-dia de moradores.

*Com a orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas