Saiba como 15 minutos no sol pode fortalecer seu corpo contra a covid-19

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18.04.2020, 05:00:00
Atualizado: 04.06.2020, 13:48:53
(Arisson Marinho/CORREIO)

Saiba como 15 minutos no sol pode fortalecer seu corpo contra a covid-19

Pessoas começam a se expor ao sol dentro de casa e médicos respondem se a vitamina é bem-vinda

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Às 12h, Renata Gomes, 26 anos, senta-se na varanda do apartamento. O sol bate a pino. Ela não vê, mas, embaixo da sua pele, a síntese da vitamina D já começou. O isolamento imposto pelo coronavírus tem criado um novo cenário nas janelas e sacadas: corpos expostos ao sol para a formação da substância que tem sido ligada ao combate à covid-19. A ciência explica o que é realidade e o que não passa de mito.
 
Um estudo publicado pela Universidade de Turim, na Itália, no mês passado, acendeu o debate sobre a possível relevância da vitamina D contra a doença. A pesquisa sugere que o nível da substância no sangue pode ajudar o organismo a identificar o vírus e, a partir daí, tornar o combate mais intenso. Também apela para os níveis baixos de vitamina D no sangue de alguns pacientes infectados para justificar o papel da substância. 

Renata leu a repercussão da pesquisa. Tornou o ritual do sol mais disciplinado desde então. Ela espera o sol mais forte do dia, geralmente entre 12h e 13h, e se expõe meia hora, por quatro dias na semana. Não usa protetor e veste um biquíni, como se estivesse na praia. Ela e outros adeptos do banho de sol têm sido apelidados de "vitaminers" na internet. “Sempre soube da importância do sol, ter resistência é importante sempre”, contou.


 
O Ministério da Saúde informou que não existe evidência da relação direta entre o coronavírus e a vitamina D. Mas médicas ajudam a entender o possível motivo dessa corrida pelo sol.

Tudo começa no sol
A alquimia do sol no corpo é iniciada nas camadas mais profundas da pele. Lá, uma substância  chamada desidrocolesterol (7DHC) aguarda ser atingida por um raio de sol para começar a síntese da vitamina D, explica a dermatologista Taís Valverde, presidente da Sociedade Baiana de Dermatologia. A absorção da radiação UVB promove uma quebra da 7DHC adormecida e origina a vitamina D3 - uma precursora.

Só então a D3 segue seu caminho até o fígado, onde acontece a segunda reação química, e, depois, para o rim. O resultado desses três processos resultam na vitamina D, que parte para ação em diversos tecidos e órgãos. 

Um dos destinos é o sistema imunológico, o ponto principal da discussão relacionada ao coronavírus. É consenso, explica a endocrinologista Mariana Lopes, que a substância tem efeito imunomodulador. Significa que ela auxilia no reconhecimento das células. Sendo assim, corpos estranhos, como bactérias e vírus, podem ser combatidos mais rapidamente.

“Só pode existir combate a um vírus, por exemplo, se ele for reconhecido pelas células, e a vitamina D também vai atuar nisso. Mas não se pode extrapolar e dizer que, por isso, a vitamina D vai combater a covid-19 e nem outras infecções virais”, frisou Mariana  

O banho de sol ideal
A vitamina D, na verdade, é um hormônio. Diferentemente das vitaminas, quem têm funções específicas, os hormônios são transportados pelo sangue até seus respectivos destinos, onde produzirão efeitos. Cada reação é diferente da outra. 

Ao logo do tempo, a vitamina D foi relacionada sobretudo aos benefícios para a massa óssea, já que participa diretamente da regulação do cálcio no corpo e previne doenças como osteoporose. 

Nos últimos 10 anos, experiências clínicas levaram a novas perspectivas científicas. Alguns pacientes com doenças autoimunes, provocadas por uma falha no sistema imunológico, como Lúpus, apresentam deficiência do hormônio, por exemplo.

Na Europa, também foram descobertos pacientes infectados pelo vírus com baixo nível da vitamina no sangue. “Mas é bom lembrar que eles estavam saindo de um inverno, não podemos ligar uma coisa à outra e pronto”, completou Mariana Lopes. 

O nível de vitamina D é considerado ideal quando há 20 nanogramas por milímetro, e insuficiente se abaixo disso.

A forma correta de tomar banho de sol
A vitamina D só será sintetizada corretamente se forem cumpridos requisitos. Não precisa usar biquíni e sunga e deitar, estirado, para o sol bater. Expor pelo menos 15% do corpo – equivalente a um braço, por exemplo – já é suficiente, desde que você faça disso um hábito por três vezes na semana, durante 15 minutos. O horário mais adequado é entre as 10h e 16h, quando há maior produção de raios UVB. 

O tempo, segundo o médico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia Joaquim Custódio, é um balanceamento entre os riscos de uma exposição longa a raios ultravioletas – como queimaduras – e os benefícios oferecidos.

(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

O banho de sol deve acontecer numa exposição direta. Sem protetor, nem janelas no caminho entre o corpo e a luminosidade. Os filtros solares e os vidros diminuem a absorção da radiação UVB, sem a qual a vitamina D não é produzida.  

“A recomendação é proteger a face, porque tem uma musculatura mais sensível, e expor braços e pernas. Se tiver problema de pele, não se exponha, é necessária uma orientação clínica”, ressaltou.

Corrida por cápsulas
A discussão sobre os efeitos da vitamina D provocou uma corrida à farmácia. Conversamos com cinco drogarias e a resposta foi unânime: o consumo cresceu entre 30% e 60%. A vitamina vendida nas farmácias é uma manipulação química do composto que podemos sintetizar naturalmente. Existem os formatos capsular e líquido.

No dia 7 de abril, a vitamina D foi incluída na lista de produtos que não são taxados pelo imposto de importação para “facilitar o combate à pandemia do coronavírus”, segundo o decreto do Governo Federal. As sociedades brasileiras de Dermatologia (SBD) e Endocrinologia e Metabologia (SBEM) manifestaram-se contrárias ao consumo sem prescrição adequada.

Não há "relação causa e efeito [entre a vitamina e o coronavírus]" e o estudo de Turim não "disponibilizou dados mais relevantes", escreveu a SBEM.

A principal preocupação é o limite que separa a vitamina D em remédio e veneno, por assim dizer. O médico e professor Joaquim Custódio explica que, em excesso no sangue, ela pode absorver cálcio em volume superior ao necessário. Pode haver, então, problemas renais, náuseas e até quadros de convulsão. O risco de intoxicação acontece quando o limite de 100 nanogramas por milimetro foi ultrapassado. 

Diferentemente da vitamina C, usada para fortalecer imunidade, o excesso da vitamina D não é eliminado na urina. Ele permanece no sangue,  com efeitos reversos.

"Tomar vitamina D não é  inócuo. Não existe sair comprando. Precisa fazer um exame de sangue, ver  se você precisa", disse.

Também existem alimentos que são fontes da vitamina, como sardinha, atum e gema de ovo. Mas o sol já é o suficiente na maioria dos casos.

Sol pode ter impacto no humor 
Outros efeitos de banhos de sol alternados são lembrados pelos médicos. Num momento de isolamento e de redução das atividades, a substância auxilia a prevenção de quedas e artrites, elencou Custódio, pois fortalece a massa óssea.

A ciência também tem se interessado no papel do sol, não só da vitamina. Vizinha do Farol de Itapuã, mas sem poder ir à praia, Amanda Calfa, 25, espicha o corpo numa espreguiçadeira no quintal três vezes por semana durante 30 minutos.

"Dá uma sensação de liberdade, de que não estamos presos em casa", disse.

Os estudos têm tentado entender a sensação de Amanda. "Nos países mais frios, existem tratamentos com fototerapias para depressões sazonais. Nos meses de menos luz, cresce a incidência de depressão", falou a doutora em Psiquiatria Milena Pondé.

Não há nenhuma conclusão sobre isso. A suspeita é de que a vitamina possa ter um papel também na regulação de hormônios do prazer como dopamina e citocina. Nada provado.

"Me sinto melhor, mais leve", relatou Amanda. Em tempos de quarentena e feito responsavelmente, tomar um banho de sol e se sentir bem apenas por isso pode, por si só, ser um bom remédio.  

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