'Sinto saudade dos abraços': baianos se isolam em casa para evitar coronavírus

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21.03.2020, 06:10:00
Atualizado: 21.03.2020, 19:58:37

'Sinto saudade dos abraços': baianos se isolam em casa para evitar coronavírus

Idosa completou duas semanas sozinha em apartamento

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Dona Adelaide vê o mundo apenas pelas janelas e varanda do apartamento onde mora sozinha, em Salvador, ou pelo celular. “Me protegendo, eu protejo os outros”, explicou ela, que adotou o auto-isolamento para se resguardar e evitar, ainda, ser mais uma fonte possível de propagação do novo coronavírus. Há duas semanas, não pisa os pés fora de casa. Como ela, outros baianos têm optado pelo isolamento social, sem sair, nem receber visita, desde pouco depois do primeiro caso da doença, no dia 6 de março.

A aposentada Adelaide Carrozzo, 80 anos, divide o dia entre as tarefas domésticas, como limpar a poeira e esquentar as refeições, os bordados e os filmes. Não recebe sequer os filhos desde 8 de março. Oficialmente, não há nenhuma determinação, na Bahia, para que pessoas saudáveis façam isolamento. As iniciativas são voluntárias

Dona Adelaide vê o mundo pela janela do apartamento (Foto: Betto Jr./CORREIO)

O confinamento é obrigatório, explicou o secretário de Saúdo do Estado, Fábio Villas-Boas, ao CORREIO, apenas para pessoas infectadas ou que tenham chegado de São Paulo ou do exterior. Manter uma distância de pelo menos um metro de outras pessoas é recomendado. 

Pela idade, Adelaide faz parte do grupo de risco do coronavírus, já que o sistema imunológico fica mais fragilizado para combatê-lo, junto a portadores de doenças crônicas e respiratórias. A Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere a quem está em casa, e tem o privilégio de ficar, que assim permaneça. 

“Não sair é a única maneira de não aumentar essa bola de neve. Quem pode ficar em casa, deve ficar. Mas acho que estão dormindo”, acredita Adelaide. 

No sofá ou na cama, ela atualiza as últimas mensagens enviadas por parentes da Itália e da Suíça, de onde saiu com dois meses de vida com os pais para Salvador. Lá, estão todos isolados por determinação federal e precisam ir ao mercado e farmácias em horários alternados e, às vezes, com necessidade de marcação. Não houve nenhum caso de coronavírus entre os parentes estrangeiros. 

Depois de tanto acompanhar o avanço do vírus, decidiu se isolar. Vez ou outra recebia amigas, filhos e netos. Todas as manhãs, descia a pé para um banho de mar no Porto da Barra. Na semana passada, cancelou até uma cirurgia para colocar uma prótese no joelho direito. A diarista, que trabalhava quinzenalmente no apartamento, foi liberada. A despensa de comida está abastecida.

Ao longo das semanas, Adelaide tenta criar novas distrações. Passou a assistir a um filme por dia e engatar seriados. “Sinto saudade do contato com meus filhos, meus netos, e meus banhos de mar. Às vezes de ir à feira, comprar verduras...”, relatou, no nono dia confinada. A essa altura, até os pontos mais movimentados de Salvador - como a Estação da Lapa e a Avenida Tancredo Neves - estavam esvaziados mesmo nos horários de pico. 

O CORREIO conversou com infectologistas, sociólogos, psicólogos e psiquiatras sobre casos de auto-isolamento. Afinal, qual pode ser a importância do isolamento social e quanto custa a nós, seres sociais, um prazo ainda indefinido de reclusão?  

'Sinto saudade dos abraços'
No décimo dia de isolamento da mãe, o filho mais novo de Adelaide rompeu seu próprio confinamento e esteve no condomínio onde ela mora, na Barra, para um aceno. Ela da varanda do segundo andar e ele debaixo, na área da piscina. “Foi uma surpresa linda. Mas sinto saudade dos abraços”, contou à reportagem no dia seguinte, por telefone. A imagem que ilustra a reportagem foi feita do mesmo ângulo, a pedido da aposentada. 

O infectologista Fábio Amorim, do Instituto Couto Maia, onde está concentrado o núcleo de tratamento da doença em Salvador, defende o isolamento como forma de prevenção. "Se eu pudesse, até eu ficaria isolado [risos]. Não é que a gente vai dizer que estamos completamente protegidos, mas o objetivo é reduzir risco de exposição e o isolamento é a forma mais barata e efetiva de fazer isso", explica. A transmissão do vírus é aérea - quando uma pessoa contaminada fala ou tosse próxima de você, por exemplo - e por contato direto com fluídos. 

Mesmo defendido por parte da comunidade científica, o isolamento pode ter custos. Principalmente sociais e psicológicos, explica o sociólogo Alan Mocellim, professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba). "Uma prova de altruísmo muitas vezes", pontuou. Cada ser humano depende do contato com o outro, seja qual for, para definir quem será.

Inicialmente, no caso da criança pequena, Mocellim define uma socialização primária, quando as relações familiares guiarão nossas primeiras ações e reações, como nos sentiremos em relação ao outro e assim por diante. Depois, começa a socialização secundária.

O bebê agora é uma criança no colégio, nas primeiras descobertas, um jovem adulto na faculdade ou um idoso jogando dominó na praça com os amigos. Então, todo isolamento tem um custo, pois representa um rompimento de rotina. A Sociologia nunca encontrou provas de que tenhámos, em algum momento, vivido isolados. 

“A gente sempre viveu em conexão e a conexão estrutura nossas rotinas, na rua, no colégio, na faculdade. A grande questão do isolamento são as quebras dos nossos elementos constitutivos, como nossos contatos pessoais, e as rupturas de rotina, que é um parâmetro de orientação”, explicou.

Daí a saudade de Adelaide ao ver o filho acenar sem poder convidá-lo para um abraço e uma rodada de spätzle, receita de massa comum na Suíça. Os vídeos de italianos cantando, juntos, na varanda, e de senhoras numa conversa, aos gritos para serem ouvidas à distância, em Wuhan, na China, onde começou a pandemia do coronavírus, mostram como, o tempo todo, buscamos nos conectar uns aos outros. 

Uma nova forma de viver
Numa planilha online, Renato Saraiva, 45, organiza as atividades. Tudo é feito dentro de casa, das refeições ao trabalho como gestor e consultor nas áreas de educação, cultura e sustentabilidade. “É um privilégio. Por isso, não estou isolado pensando só na minha saúde, mas na dos outros também”, disse. Desde o último sábado (14), ele circula apenas pelos 60 metros quadrados do imóvel. Antes de iniciar o confinamento, foi ao mercado, como fizeram tantos outros que, senão isolados, pretendem sair o mínimo possível de casa. 

Ele convenceu até uma amiga, que viria de Berlim, onde mora, para Salvador, a cancelar a viagem. De cara, ela achou exagero. "Convenci que não era. A transmissão ocorre para todos”, ponderou. No último final de semana, dispensou teatro, barzinho e uma ida à praia. A diarista da casa onde Renato mora com um amigo foi liberada. Os dois mantiveram o pagamento da doméstica. “Nem todos podem parar, é importante que um pense no outro”, disse, no terceiro dia confinado. 

Seu companheiro de casa não pode se isolar, mas só tem ido do trabalho para casa. Quando chega, já separa a roupa suja e toma banho. No quinto dia de isolamento, a reportagem falou novamente com Renato. “É quinto? Parece o décimo”, respondeu ele, quando perguntei sobre como se sentia passada quase uma semana. A casa estava completamente organizada. “Já vejo na casa outra formatação. Sujou, limpou”, argumentou, sobre o tempo livre.

Homem observa a rua acompanhado do cachorro (Foto: Betto Jr./CORREIO)

As novas formas de habitar a própria casa já fazem parte da vida de quem for isolado. Isoladas, as pessoas podem ficar mais ansiosas e buscar outras formas de habitar e se relacionar. O professor da Faculdade de Psicologia da Ufba Tiago Ferreira acredita que "nossa cultura é muito do toque, de pegar, mas mesmo assim podemos ser flexíveis". 

“Talvez a maior preocupação seja a sensação de não sair de um mesmo contexto, de dentro de casa. A questão não é só ansiedade, porque já estamos ansiosos há tempos. Agora, podemos mudar a maneira com que a gente lida com isso, tentando resolver algumas coisas”, comenta.

No apartamento de Débora Leite, 36, ela, a mãe e a filha de quatro anos estão isoladas desde terça (17). Antes, a personal trainer acordava às 6h e retornava para casa às 21h. Por dois dias na semana, não chegava a tempo de encontrar a filha, Maia. Agora, precisa inventar formas de distrair a menina, ter tempo parar meditar e arrumar aquela gaveta desorganizada.

“Tem séculos que eu queria arrumar. Próxima semana será um baú de documentos. Acho que será um momento para autorefletir bastante”, comentou. 

O isolamento das três foi adotado depois de um contato da educadora física com uma colega de trabalho que auxiliou, na academia onde as duas trabalham, uma paciente com coronavírus. A mulher retornou da Itália, epicentro da pandemia na Europa, sem cumprir isolamento. Três dias após o susto, o resultado do teste deu negativo. "Mas continuaremos isolados", frisou Débora.

Ela e a filha têm asma, enquanto a mãe tem mais de 60 anos e é hipertensa. Ou seja, estão no grupo considerado de risco.

Continuaremos conectados 
As interações sociais ativam uma área do cérebro chamada amigdala, que reativa sensações e memórias afetivas. O resultado é a liberações de hormônios ligados ao prazer e bem-estar, como a dopamina, por exemplo. Mas o psiquiatra Antônio Freire, doutor em Medicina e Saúde Humana, explica que o isolamento voluntário pode, também, despertar sensações, como o senso de pertencimento. Até porque, isolamento não é sinônimo de desconexão – principalmente devido às redes sociais.

Na opinião do médicos, o isolamento voluntário pode até ser uma quebra de rotina e potencializar sensações de ansiedade. Ocorre que até o confinamento, neste momento, é vivido em grupo. “Esse também é um comportamento de grupo, porque todos estão se esforçando para um mesmo fim. É como se fossemos todos bombeiros que, juntos, estão apagando um grande incêndio”, metaforizou.

O esforço, agora, será recriar rotinas habituais dentro de casa. “É difícil enxergar o lado positivo, mas vamos fazer aquelas coisas que não tínhamos tempo antes, brincar com nossos filhos, ligar para pessoas próximas”, listou. Ligações de áudio e vídeo, inclusive, ativam ainda mais conexões cerebrais. Checar as informações antes de repassar para amigos e parentes, nesses contatos, é fundamental. 

Ao fim do dia, o resultado não será o mesmo que a resposta das amigdalas cerebrais para um toque, um abraço, um beijo. Há um estudo, cita o psiquiatra, em que os macaquinhos afagados pela mãe se provam mais tranquilos que aqueles sem carinho.

“Mas é para um bem maior. O isolamento social, nesse caso, passa a ter uma importância na manutenção da vida”, pontuou.

A reportagem conversou com Dona Adelaide, no dia do fechamento da matéria, na última sexta (20), quando completou 13 dias da reclusão. Ela disse estar bem, mas triste em ver pessoas, ainda hoje, nas praias. A principal ansiedade é que os dias sozinha acabem e ela convide a família para comer spätzle com molho de carne no almoço. Todos estarão juntos e, aí sim, abraçados. 

***

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