Substâncias do petróleo cru podem ser relacionadas ao câncer

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10.11.2019, 07:00:00

Substâncias do petróleo cru podem ser relacionadas ao câncer

O benzo-A Pireno e o benzeno são destacados pela potencialidade de provocar mutações genéticas

No caminho ideal, a substância tóxica entra no organismo, é transformada e sai em forma de excreções. No caminho real, é possível que a mesma substância cause danos cromossômicos que só serão descobertos no futuro. Nos laboratórios, pesquisadores começaram a questionar quais são e como agem as substâncias do petróleo cru vazado nas praias do litoral do Nordeste e, desde sexta-feira (08), também no litoral do Sudeste, que podem ser relacionadas ao câncer. 

São oito as substâncias encontradas no petróleo relacionadas à doença. Em uma nota técnica sobre o vazamento, a Secretaria da Saúde da Bahia (Sesab) afirma que o petróleo é tóxico e apresenta misturas de agentes cancerígenos e mutagênicos.

No dia 1º de outubro, em uma reunião do Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho da Universidade Federal da Bahia, professores e estudantes comentaram como exames em pessoas que vivem próximas de áreas atingidas ou trabalham como voluntárias, poderiam servir para análise de possíveis consequências no corpo.  

“Não se sabe o quanto de quantidade e exposição ao petróleo é capaz de produzir efeito. Que efeito estou falando? Efeito de longo prazo, que tem mais probabilidade”, explica Marco Rêgo, epidemiologista especializado em câncer.

As classificações das substâncias variam entre si. Duas são comprovadamente cancerígenas, segundo avaliação de duas agências internacionais referências na pesquisa sobre o câncer - Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), na França, e Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). 

Hicrocarbonetos policíclicos aromáticos
O benzo-A Pireno e o benzeno são destacados pela potencialidade de provocar mutações genéticas. O câncer aparece a partir de um conjunto de mutações genéticas que invadem tecidos e órgãos com o início de um crescimento desordenado das células. 

A primeira substância faz parte dos chamados hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPA). 

Além do benzo-A pireno, é reconhecido como provavelmente cancerígeno o dibenzoantrafeno. As duas agências ainda reconhecem o grupo de possivelmente cancerígenos. No petróleo cru que mancha as praias baianas desde o dia 1º de outubro, são cinco HPAs nessa classificação.

(Ilustração: Arte CORREIO)

Enquanto os compostos voláteis do petróleo escapam para a superfície, as partículas microscópicas dos HPA aderem a manguezais e praias, por exemplo. 

Especialista em recuperação de áreas costeiras, Ícaro Moreira explica que esses hidrocarbonetos são mais resistentes e persistentes nos ambientes. 

Segundo o professor do Instituto de Engenharia Ambiental da Ufba, os HPAs chegam a durar 30 anos nos meios, já que a decomposição da substância é “difícil”. Por isso, nem a limpeza das praias é capaz de, imediatamente, eliminar os HPAS.

“É muito comum que a ostra, por exemplo, ou o caranguejo, acumulem. A pessoa, por ingestão, também pode ir acumulando esses compostos”, diz o professor. 

O caminho dos HPAs na natureza até encontrar o corpo humano varia entre mangues e praias. Na atmosfera, podem ser transportadas pelo vento, por exemplo, ou sofrer decomposição seca ou úmida, explica David Lockward, doutor em Química. 

O problema principal dos vazamentos é a constância dessas exposições. Nesses casos, primeiro, os compostos mais leves do petróleo são degradados. O que sobra é a parte pesada, onde estarão os HPAs. O própria origem do petróleo, que neste caso é venezuelana, tem a ver com a quantidade de HPAs. 

Origem   
Dedicada ao tema da contaminação há pelo menos 30 anos, Tânia Tavares explica que o petróleo venezuelano é um material orgânico pesado, com grande concentração de HPAs. 

A composição do petróleo alterna de acordo com a formação geológica de cada lugar. Inicialmente insolúveis na água, com o tempo, as substâncias passam a se solubilizar e entrar na cadeia alimentar. A acumulação dos compostos acontece em cadeia. 

O HPA é incorporado pelo zooplancton, que é alimento de espécies menores consumidas pelos humanos, exemplifica Tânia, química e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba). 

Como a fração pesada do petróleo é praticamente insolúvel em água, os HPAs grudam nos sedimentos. Principalmente no barro dos manguezais, que servem de alimento a cadeias alimentares.  

O petróleo é considerado uma mistura complexa, com presença de hidrocarbonetos - moléculas e carbono e hidrogênio - e de substâncias como o enxofre e o nitrogênio. As substâncias mais leves e voláteis são associadas a contaminações mais imediatas, que se refletem em dermatites e problemas respiratórios, por exemplo. 

A Sesab solicita às unidades de saúde que problemas relacionados ao petróleo sejam enviados à Vigilância em Saúde.

Contaminação
No corpo, os HPAs agem de diferentes formas. Podem ser inalados, ingeridos ou incorporados através da pele. 

No caso da inalação, considerada a principal via de contaminação, as substâncias substituem o oxigênio na passagem por microvasos. 

Ocorre, ainda, o seguinte: os HPAs seguem para o fígado, onde acontece a filtragem de substâncias. No processo, o próprio fígado produzir substâncias reativas.  “O problema é que, nessa passagem, ele pode ter causado algum dano no DNA, na medula óssea”, explica Marco Rêgo. 

Por isso mesmo, os cânceres mais comuns relacionados ao HPA são associados ao pulmão, pele e bexiga, como aponta a lista do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

A segunda forma de exposição mais citada é pela pele. Por exemplo, em casos de voluntários que, a longo prazo, tem contato com petróleo sem  proteção.  No caso da pele, os HPAs atravessam uma barreira natural de proteção. 

A terceira forma mais comum de contaminação é a da ingestão do composto por meio de um intermediário – é o caso dos frutos do mar que vivem em ambientes contaminados pelo petróleo. 

As exposições, no entanto, são sempre consideradas a longo prazo. Não é calculado nenhum tempo específico. O câncer, como explica Marco Rêgo, não é doença de uma causa só, mas multifatorial.  

Câncer
O aparecimento de um câncer não deve ser relacionado apenas com a exposição aos hidrocarbonetos policíclicos, avisam os especialistas ouvidos à reportagem. Até porque, de pessoa para pessoa, variam também os tipos de exposição e a frequência desses contatos com substâncias tóxicas. 

Além disso, nem todos os 16 HPAs encontrados no petróleo são cancerígenos.

“Não é porque aconteceu uma exposição apenas que vai ocorrer o câncer. É preciso ter uma exposição mais prolongada”, esclarece o epidemiologista Fernando Carvalho. 

O resultado de uma exposição também precisa ser associado a outros fatores como  no caso de fumantes, por exemplo, sujeitos à ingestão de pelo menos outras 70 substâncias cancerígenas. 

No caso de uma mutação provocada, também, por ação do HPA, o período de latência de um câncer varia de 5 a 10 anos, calcula Marco Rêgo.  

Uma eventual contaminação é relacionada a um tipo de exposição mais profissional ou imposta pelas circunstâncias de vida.  

Também são citados como integrantes de grupos de risco  pessoas que, diariamente, comem animais que se alimentam de outros animais ou sedimentos contaminados. Por isso, os especialistas pedem que seja evitado o pânico, mas recomendam cuidado sempre.

O que é HPA?
Pesado e tóxico Os HPAs são compostos pesados encontrados em matérias orgânicas, como o petróleo. Resistentes no meio ambiente, podem se acomodar em sedimentos de mangues, por exemplo. Lá, começam a fazer parte da cadeia alimentar dos seres vivios. A longo prazo, os HPAs, quando consumidos por seres humanos, podem causar mutações genéticas. 

Outras fontes de HPA
Do cigarro ao churrasco As fontes de HPA estão relacionadas, principalmente, à queima incompleta de substâncias  como o carvão, a lenha e a gasolina. Por isso, a química Tânia Tavares brinca “quando você come churrasco, você está consumindo HPAs”. Também podem ser citadas a fumaça do cigarro e a exaustão originada de incineração de rejeitos.

Os três tipos de contato mais associados à contaminação por HPAS

  1. Inalação - Se um gás inalado for, na verdade, uma substância tóxica, a absorção pulmonar acontece da mesma maneira. A substância passa, por meio dos microvasos, para todo o corpo. Como o pulmão é bastante irrigado por vasos sanguíneos muito finos, e os HPAs são solúveis na gordura, essa absorção é ainda mais fácil;
  2. Ingestão - Compostos como HPA se acumulam nos sedimentos e, consequentemente, na cadeia alimentar de ambientes aquáticos. As ostras e o caranguejo, por exemplo, acumulam essas substâncias. O consumo desses mariscos por humanos, por isso, é outra via de contaminação, já que o alimento já estará contaminado;
  3. Pele - A pele é o ponto de contato imediato de uma substância com o corpo. Esse contato tem mais a ver com quadros de infecções imediatas como dermatites. Por isso, é mais relacionada a exposições profissionais, como voluntários, ou exposições ao longo da vida, como no caso de populações ribeirinhas.

Tipos de câncer mais comuns

  • Pulmão - A inalação de HPAs é citada por químicos e médicos como a principal fonte de contaminação pela substância;
  • Pele - Mesmo considerada uma potente barreira de proteção, é possível que os HPAs e outras substâncias tóxicas rompam essa barreira e se alojem no corpo;
  • Bexiga - A bexiga é responsável pelo armazenamento da urina. Antes, o fígado, onde os HPAS são transformados, realizou a filtragem de microorganismos e a desintoxiação. No processo, parte das substâncias são eliminadas, mas algumas podem resistir;
  • Leucemia - O benzeno, que não é um HPA, tem predileção pela médula óssea, que produz praticamente todas as células do sangue.

Informações sobre o vazamento

  • Praias baianas - Desde o final de setembro, foram 124 praias manchadas pelo óleo;
  • Frequência no estado - Foram 28 municípios baianos que registraram casos;
  • Análise - O Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) divulgou, na última sexta-feira que está liberado o mergulho no Litoral Norte e em Salvador caso não haja nenhuma mancha visível na água. Ainda de acordo com o órgão, foi comprovada a ausência de hidrocarboneto, policíclico e aromático, além de benzeno, tolueno, etilbenzeno e xileno - substâncias derivadas do petróleo e que são prejudiciais à saúde humana - nas praias de Salvador. Os testes de balneabilidade foram feitos em 34 praias de Salvador e em todas as praias do Litoral Norte;
  • Toneladas de petróleo - Até o momento, foram recolhidas 128,7 toneladas de óleo das praias da capital;
  • Quase uma tonelada - Somente no dia 7, foram recolhidos 920 quilos de fragmentos de petróleo das praias de Pedra do Sal, do trecho que vai do Corsário até Jaguaribe e do Jardim de Alah até Pituba; 
  • Nordeste - Foram registradas manchas de óleo em 409 localidades da região; 
  • Sudeste - Na sexta-feira (08), foram recolhidos pequenos fragmentos de óleo na praia de Guriri, no município de São Mateus (ES), primeiro local da região a ser atingido.

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