Tenho paciência pra quem mora de aluguel e acha que é elite não

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15.10.2018, 05:00:00
Atualizado: 15.10.2018, 10:23:07

Tenho paciência pra quem mora de aluguel e acha que é elite não

- Zona. Sinônimo de bagunça, desordem, desorganização. Ou de área, parte, espaço, extensão demarcada.

- Tem também a Zona Franca de Manaus. A Zona do agrião. Zona Eleitoral. Zona Leste, Oeste, Norte, Sul. Zona da Mata. Zona Azul. Zona de conforto.

- E a “zona zona”.

Eles interrompem o quiproquó para tomar um gole da gelada que, trincada, pedia atenção para molhar as gargantas roucas. O “ah...” refrescante era a mensagem inequívoca da necessidade de um alívio que significasse celebração em vez de brincar de não-é-comigo-não.

- Você tá entendido de zona, hein?

- Rapaz, vou lá quase o tempo todo.

- Também apareço por lá, mas de vez em quando, sabe? Teve uma vez que te vi por lá.

- Verdade, mas agora saímos dessa vida!

Os copos suam em condensação. Ligeiros, os amigos tomam outro gole, agora maior, secando os vidros.

- Pensei aqui em outras zonas famosas.

- Tipo a zaga de Mancini?

- Que tal meio-campo com Nilton?

- Oxe, véi? Nunca ouviu falar de Uillian Correia – bate na madeira –, Meli, Yago e Neilton, não? Meio-campo ruim de doer é esse!

Eles param para um terceiro gole. Ficam um pouco ressabiados. Tempos difíceis estes. Aparentemente, discutir mediocridade comparativa é a bola da vez. Assistimos, aqui, ali, acolá, nocauteados, aos embates entre o horrendo e o feioso, o ruim e o pior. E buscam aceitar fraquezas para conceder parte de um meio do caminho a uma coerência tosca, capenga, torta feito as pernas de Garrincha.

- Neilton, pelo menos, é um dos artilheiros do Brasil.

- Rapaz, e vocês que vão de Edigar Junio na reserva? Sem contar o Baianinho e a Sul-Americana...

- E o gol de Vinícius sábado, você viu? Correu, pá, na gaveta! Lindeza!

- Bonito mermo. E o sassarico de Erick e Lucas Fernandes pra cima da Chape? Era um rebivis da zorra! Filho legítimo de William Pica-Pau.

Em uníssono, secundados por parte do boteco que acompanhava a conversa, bradam: LÁ ELE!

Riem satisfeitos. Levantam os copos para mais um gole, de gute-gute. Brindam efusivamente, se abraçam e discutem querendo fazer a vez da próxima rodada.

- Eu pago a próxima.

- Oxe! É niuma! Tá na minha! Chefia, traz mais uma que a ocasião é de festa!

- Bora Bahêa!

- Negô!

Talvez esteja aí a chave para a salvação da nação. Não é quem ganhar ou quem perder que vai ganhar ou perder, tem que todo mundo ganhar e dançar de mãos dadas abraçados rumo ao pote de ouro civilizatório no pé do arco-íris.

- Agora, véi, se ligue que tem gente cutucando vocês por trás, e eu tô ligado que você gosta.

- Coé, cabeça? Tamo aqui comendo água na moral e você vem com agrestia? E até ontem tava no lixo e agora vem pagar de barão?

- Lixo? Rapaz, você vai falar de lixo mesmo? Olhe que de lixo e de zona você entende!

- Quer saber? Me deixe, viu, miséra. Tenho paciência pra quem mora de aluguel e acha que é elite não. Além do mais, me diga uma coisa: você tá na zona?

- A do rebaixamento? Não!

- Nem eu! Tome! E já fui Banda Mel!

Eles erguem os copos quase gritando:

- Bora, Bahêa!

- Negô!

Pilhéria, na Bahia, é uma forma de arte.

Gabriel Galo é escritor.


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