‘Tiraram ele da rua com vida e devolveram morto’, diz mãe em protesto na Barroquinha

salvador
20.09.2021, 14:38:00
Atualizado: 20.09.2021, 17:21:38

‘Tiraram ele da rua com vida e devolveram morto’, diz mãe em protesto na Barroquinha

Jovens foram encontrados mortos em Valéria após abordagem policial na Praia da Preguiça

Polícia controlou protesto na Barroquinha, ocorrido após morte de jovens que moravam na região (Foto: Wendel de Novais/CORREIO)

"Ele saiu de casa às 11h30, dizendo que ia pra praia com o amigo pra tomar um banho de mar e descansar. Era pra ficar lá umas três horas e voltar pro almoço, mas deram fim na vida do meu filho", lembra Ana Paula da Silva, 54 anos, dona de casa e mãe de Jorge Luis da Silva, 24, conhecido como Júnior, encontrado morto na manhã desta segunda-feira (20) em Valéria, com o seu amigo Jamilto Júnior Bispo Silva, 22.

Os dois deixaram as suas casas, na região da Barroquinha, antes do meio-dia deste domingo, rumo à Praia da Preguiça, onde até chegaram sem problemas, mas não conseguiram sair, de acordo familiares.

Isso porque, enquanto estavam lá, os dois teriam sido abordados, levados pela polícia em uma viatura da Rondesp (Polícia Militar) e não foram mais vistos até serem encontrados mortos. Situação que gerou revolta nos moradores que ficaram sabendo que os corpos foram encontrados hoje pela manhã por grupos de Whatsapp.

Ainda nesta manhã, os comerciantes da região decidiram não abrir as portas durante o dia e, de acordo com denúncias enviadas à reportagem, a decisão teria sido tomada por ordens de criminosos, mas não há confirmação que essas ordens estejam ligadas às mortes dos jovens. No entanto, a PM nega que haja um toque de recolher na região.

Após sairem da Preguiça na viatura, o destino dos dois foi o Grupamento Especial de Repressão a Roubos em Coletivos (Gerrc), onde permaneceram até as 17h, quando foram liberados. Pelo menos, é isso que conta Tamires Silva, 30, irmã de Júnior, que passou a tarde toda atrás dele e foi até a delegacia logo quando soube que o irmão estava lá, mas não acredita na liberação.

"A gente saiu procurando em todo lugar, até saber lá pras 16h30 que eles estavam na delegacia. Quando chegamos lá, falaram que tinham liberado. Só que como liberou se eles não apareceram? Como soltou se não voltaram pra casa?", questiona ela, que passou a noite em claro até saber na manhã desta segunda que seu irmão estava morto.

Jovens foram vistos pela última vez na Praia da Preguiça (Foto: Reprodução/TV Bahia)

Sem envolvimento com o crime
Tamires foi uma das pessoas que se dirigiram para a via em frente ao Corpo de Bombeiros para protestar contra a morte do irmão. Indignada com a situação, ela afirma que Júnior não tinha qualquer envolvimento com o crime e nada justifica a condução pela polícia.

"Meu irmão era trabalhador, pegou moto e tava fazendo serviço de moto-táxi, não tinha envolvimento nenhum. Tava batalhando pra criar a filha dele e ajudar a esposa. Júnior andava direito e só foi pra praia como todo mundo faz no domingo para curtir um pouco, e mataram ele", lamenta.

Fernanda Santos, 30, é esposa do primo de Jamilton, e foi a única familiar em condição de falar com a reportagem. Ela também destaca que ele, assim como Júnior, não estava ligado ao crime.

"Não tinha razão pra levar ele. Jamilton não estava envolvido com nada. Ele tinha uma filha de um ano, morava com a esposa e fazia bico vendendo água para se manter. A polícia não tinha nada que ver com ele, mas aconteceu esse absurdo", reclama ela, que trabalha como vendedora. 

Versão da PM

Procurada pela reportagem, a PM afirmou que os dois jovens teriam sido presos por um roubou em coletivo no sábado (18) e que uma testemunha chegou a reconhecer um deles. "No domingo (19), policiais militares da Operação Gêmeos realizavam rondas na região do Comércio e abordaram dois homens suspeitos de terem praticado um roubo a coletivo no dia anterior, sendo encaminhados pela guarnição para o Gerrc, onde um deles foi reconhecido pelo cobrador do ônibus como autor do roubo. A ocorrência foi finalizada pela PM após a apresentação dos conduzidos na delegacia", escreve.

A Polícia Civil, que tinha responsabilidade sobre eles depois que Júnior e Jamilton foram apresentados, confirmou que, ainda no domingo os dois foram liberados. "No Gerrc, os conduzidos foram ouvidos e liberados, pois não havia mandado de prisão contra eles nem indícios de materialidade de crime", explica por meio de assessoria. 

Sobre a localização dos corpos que familiares acreditam ser dos dois jovens, a PM explicou onde e como foram encontrados. "Na manhã desta segunda-feira (20), por volta das 7h30, a PM foi acionada pelo Cicom sobre a localização de dois corpos, do sexo masculino, sem sinais vitais e sem identificação na Rua Paquistão, nas Granjas Rurais. Uma guarnição da 48ª CIPM foi ao local e isolou a área até a chegada da perícia", informou. Após avaliação inicial, a PC disse que os corpos de dois homens, ainda não identificados, foram encontrados com perfurações provocadas por disparos de arma de fogo na cabeça.

Dor repetida
Para Ana Paula, este é o segundo filho que se vai de forma violenta. Segundo ela, o seu filho mais velho também teria sido assassinado. "O outro também era trabalhador, não tinha envolvimento e, mesmo assim, foi morto junto com mais cinco na última greve da polícia. Do mesmo jeito, sem culpa nenhuma e vítima da violência deles", relata ela.

Apesar de conhecida, a dor, no entanto, não ficou menor por isso para ela, que passou a noite em claro e diz que perdeu o chão ao saber do que aconteceu com Júnior.

"Tiraram meu filho da rua com vida e devolveram ele morto. Eu estou mal, não sei como estou me aguentando aqui, só pela justiça mesmo. Pegaram meu filho, que é trabalhador e não tava fazendo nada de mais, e mataram como se não fosse nada. Pra que isso? Por que destroem a vida da gente assim? Não dá pra aguentar", disse, aos prantos. 

Segundo Fernanda, a dor para a família de Jamilton é bem parecida e gera revolta. "Quando ficamos sabendo que a Rondesp tinha levado eles, já ficamos com muito medo. Corremos atrás, fomos pra todo lado pra evitar isso. Porém, mesmo sabendo da possibilidade, ninguém está preparado pra uma dor dessa, não tem como. Um menino novo, cheio de coisa pra fazer e com uma filha", fala.

Lojas da Barroquinha fecharam durante protesto; ônibus não circularam
Lojas da Barroquinha fecharam durante protesto; ônibus não circularam (Foto: Wendel de Novais/CORREIO)
Lojas da Barroquinha fecharam durante protesto no final da manhã
Lojas da Barroquinha fecharam durante protesto no final da manhã (Foto: Wendel de Novais/CORREIO)
Lojas da Barroquinha fecharam durante protesto no final da manhã
Lojas da Barroquinha fecharam durante protesto no final da manhã (Foto: Wendel de Novais/CORREIO)
Lojas da Barroquinha fecharam durante protesto no final da manhã
Lojas da Barroquinha fecharam durante protesto no final da manhã (Foto: Wendel de Novais/CORREIO)

Protestos na Baixa do Sapateiros
Pela revolta com o ocorrido, amigos e familiares de Jamilton e Jorge foram para rua e tentaram fazer um protesto na Avenida J. J. Seabra, conhecida como Baixa dos Sapateiros, para pedir justiça. 

De acordo com a Polícia Militar, os integrantes do protesto estavam enfurecidos. Policiais do 18º Batalhão de Polícia Militar (BPM), com apoio da 2ª Companhia Independente de Polícia Militar, abordaram o grupo, fazendo uso de spray de pimenta e balas de borracha. Ainda conforme a PM, alguns manifestantes chegaram a atirar pedras em ônibus que passavam no local. Eles foram identificados e levados à Central de Flagrantes - não há informação de quantos. 

Uma amiga de Júnior preferiu não revelar sua identidade, mas afirmou que os agentes da PM chegaram até eles de forma violenta. "Chegaram para acabar com tudo, sem meias palavras. Bateram em todo mundo, meteram spray de pimenta na gente mesmo com criança no meio e espancaram as pessoas. Não vieram conversar, queriam bater na gente", conta. 

O tenente que coordenou a ação da polícia no protesto, Leon Lima disse que os policiais precisaram usar a força com os protestantes, mas negou que as ações tenham machucado quem estava lá. "Chegamos e controlamos a situação. A ação policial fez o uso progressivo da força. Obviamente, quando a PM encontra um cenário desse em que nós mesmo ficamos ameaçados, é preciso realizar isso para que ninguém saia machucado e possamos restabelecer a ordem, como aconteceu", explica.

Por conta da situação, o transporte público não funcionou na região, onde os ônibus não estão circulando.A Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (Semob), confirmou que os ônibus não estão indo mesmo para a Barroquinha e que eles estão cumprindo o percurso somente até o Aquidabã, por hora. O funcionamento normal só será retomado quando a situação na região for normalizada.

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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