'Travesti tem que ter inteligência para saber que não é mulher de verdade', diz Rogéria

variedades
19.10.2016, 08:58:00

'Travesti tem que ter inteligência para saber que não é mulher de verdade', diz Rogéria

Travesti mais famoso do Brasil, com atuação no teatro, cinema e TV, Rogéria narra como se transformou numa estrela e conta detalhes picantes de seus casos em biografia

 Nascida Astolfo Barroso Pinto em Cantagalo, no Rio de Janeiro, há 73 anos, Rogéria se autodefine como “o travesti da família brasileira”. A aparente contradição deixa de existir diante da vida cinematográfica dessa artista querida pelas senhorinhas de Copacabana e que lança a biografia Rogéria - Uma Mulher e Mais um Pouco (Estação Brasil | R$ 44,90 | 271 págs.)

Quem vê Rogéria entrando no restaurante La Fiorentina, no começo da tarde primaveril no bairro onde mora, o Leme, não imagina que aquela bonita senhora loira é, na verdade, um senhor. 

Rogéria tem 73 anos e é um ícone do transformismo, tendo conquistado espaço no teatro, na televisão e no cinema do país (Foto: Pedro Curi)

“Um travesti precisa de inteligência e talento para saber que não é mulher de verdade. Só tenho duas preocupações com o visual: não parecer prostituta, nem homem vestido de mulher”, afirma, com a experiência de quem nunca escondeu a sua sexualidade e começou a vestir roupas de mulher aos 12 anos, em Niterói.

Inaugurada em 1957 e frequentada por personalidades como Ary Barroso, Jô Soares, Chico Anysio, Glauber Rocha, Brigitte Bardot, Grande Otelo Jean-Paul Belmondo e Rita Hayworth, La Fiorentina é o lugar adequado para Rogéria nos receber. Ela, que sonhava em ser Marilyn Monroe e Bette Davis, também tem a sua assinatura e quadro com fotografia nas paredes estelares do restaurante.  

Marilyn
“Trago uma Marilyn Monroe até hoje dentro de mim e também algo de Bette Davis. Sempre sonhei grande, nunca quis ser uma a mais”, conta Rogéria que, antes de adotar o nome artístico que a tornou famosa, maquiou estrelas do rádio e da TV como Emilinha Borba, Marlene (com quem artisticamente se identificava mais), Dalva de Oliveira, a grande amiga Elizeth Cardoso, Sérgio Britto, Fernanda Montenegro e Glauce Rocha.

Glauce Rocha, aliás, vivia lhe dizendo na TV Rio: “Rogéria, seu lugar não é aqui, você precisa ir para Paris”. E foi o que o transformista carioca fez, aos 20 e poucos anos, não sem antes viver amores e paixões intensas.

A paixão mais explosiva de Rogéria foi com o charmoso policial-bandido Mariel Mariscot, acusado de pertencer ao Esquadrão da Morte e assassinado em 1981. 

“Ele vivia cercado de mulheres bonitas e me escolheu. Ficamos juntos uns dois anos, ele era muito possessivo e gostava muito de fazer sexo - e eu estava sempre pronta”, lembra rindo.

Escondendo o peru
Sexo, é claro, não falta na biografia escrita por Marcio Paschoal (biógrafo do músico João do Vale e autor de vários livros) e que não faz a linha editorial chapa branca. Rogéria, aliás, só viu o livro pronto um dia antes do encontro com a reportagem do CORREIO.

Para evitar que Mariel Mariscot, que se dizia totalmente heterossexual e nem cogitava em ver o pênis de Rogéria, visse o seu "peru", o travesti se virava como podia para que isso não acontecesse e estragasse o encanto do “bofe".

“A tática usada com Mariel para meu pau nunca aparecer eu tirei da cena de Carroll Baker, da personagem Babydoll Meighan, no filme Boneca de Carne (1956), de Elia Kazan, com roteiro de Tennessee Williams. Na cena de sedução, ela botava uma almofada entre as pernas para ficar sensual e provocar o amante. Passei a fazer isso sempre, uma almofada, um travesseiro, uma garrafa de vinho, qualquer coisa”, diz.

A força do cabelo
Rogéria passou por Angola e Moçambique antes de desembarcar em Barcelona, numa experiência turbulenta, e alcançar o sucesso internacional em Paris. Em Barcelona, na boate Gambrino’s, foi pressionada a realizar operação de mudança de sexto, algo que nunca a atraiu.

“Eu tenho o melhor de dois mundos (risos) e ainda vou mais rápido ao banheiro, porque o banheiro masculino não tem filas grandes como o das mulheres. Jamais seria um transexual, porque gosto de ser Astolfo e não cortaria meu peru por nada. E depois não existe isso de se criar uma buceta com uma operação - ou se nasce mulher ou não”.

É interessante observar que a personagem Rogéria, a estrela loira e glamurosa, passou a ser Rogéria full time a partir da vivência na capital francesa, no começo dos anos 70, quando se apresentava na boate Carrousel, usava perfume da Estée Lauder e deixou o cabelo crescer.

“Me orgulho das pessoas dizerem que até meu perfume é de mulher, que tenho cheiro de mulher (risos). Na hora que meu cabelo cresceu, porque antes eu usava peruca, foi que senti o tchan! A partir daquele momento virei uma estrela, me sentia uma estrela. Mulher diz que tem cidade que é melhor para o cabelo crescer e é verdade. Sinto isso em Paris e Nova York”, revela enquanto pergunta se o repórter gostou do livro.

De volta ao Brasil e já reconhecida como estrela, o filho de dona Eloah - que sempre o apoiou - nunca mais parou de brilhar. Em 1979, por exemplo, conquistou o Mambembe de atriz revelação pela atuação na peça O Desembestado, de Aderbal Freire-Filho, contracenando com Grande Otelo e Nelson Caruso.

“Uma vez, quando eu ainda sonhava em ser uma atriz e tinha dúvida sobre isso, porque era insegura, Fernanda Montenegro me disse que eu podia ser, sim, uma artista, que no palco não há censura, não há sexo, podemos ser tudo”, recorda.

Visão própria
Ícone da homossexualidade no Brasil e orgulhosa da formação religiosa que teve, inclusive frequentando missa até hoje, Rogéria tem pensamentos que desafiam o tom politicamente correto do movimento LGBT atual.

“Nasci homossexual, nunca fiquei em armário, não acredito em opção sexual e sempre me posicionei contra qualquer tipo de hipocrisia. Tem gente de movimento gay que não gosta de algumas coisas que digo, mas para esses eu falo que, antes deles chegarem, já existia Rogéria, meu amor”.

Altiva, a artista convive muito bem com a sua sui generis saga, incluindo as cicatrizes decorrentes de um acidente de carro, em 1981, que machucou muito o seu rosto.

“Ali tive medo, mas Pitanguy deu um jeito e resolvi tirar a cicatriz do lugar onde ela mais poderia me afetar, o coração. Menos de dois meses depois, eu estava em frente às câmeras de TV”, diz.

Fundamental no Brasil para que o travesti deixasse de ser associado sempre à prostituição, Rogéria espera vir lançar a biografia em Salvador, de onde guarda boas recordações: “Descia a ladeira do Pelourinho pegando geral nos anos 70, sobretudo os negões. Nunca tive racismo. Fazia a gringa. Baiano é muito sexy”.
 * O jornalista viajou a convite da Sextante

Leia também:
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