Variações climáticas alteram rotina no campo e mexem no preço das prateleiras

economia
29.07.2019, 05:00:00
Atualizado: 29.07.2019, 10:04:50
((Foto: Leonardo Guimarães))

Variações climáticas alteram rotina no campo e mexem no preço das prateleiras

Chuvas antecipam colheita do café, retardam plantio do cacau e influenciam nos preços pagos pelo consumidor

As mudanças nos termômetros registradas nos ultimos dois meses na Bahia, acompanhadas de excesso ou escassez de chuva, estão chegando embutidas na mesa do consumidor. O impacto das variações climáticas já pode ser visto no preço de frutas e hortaliças. Em alguns casos trazem vantagem para quem compra, em outros, prejuízo. 

No Vale do São Francisco, no norte do estado, o efeito negativo foi parar nos cachos de uva. Eles ficaram mais caros na última semana. Agora custam até 9,9% a mais segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). Os dados divulgados pelos pesquisadores apontam que a elevação no preço teria sido provocada pela queda na produção do campo, que foi prejudicada pelas fortes chuvas do primeiro semestre e pela queda da temperatura que impediu a maturação dos frutos. O quadro de alta nos preços é favorável para as fazendas exportadoras, mas não beneficia o consumidor. O quilo da uva Vitória está saíndo do campo por R$ 5,17. No Ceasa de Simões Filho, ultrapassa os R$ 8. 

A chuva que prejudicou a uva, por outro lado, ajudou na produção do melão. Na outra ponta da prateleira regulada pelos fatores climáticos, o preço da fruta recuou 7% esta semana. 

Chuva

Muito além de mexer no bolso do consumidor, as variações estão alterando a rotina produtiva dos agricultores. 

A neblina intensa do amanhecer ainda encobre a serra, mas os produtores rurais de Piatã, na Chapada Diamantina, já estão em campo. Nem os sete graus marcados no termômetro impedem a ida ao cafezal.

Os agricultores têm pressa. Eles precisam colher o café que amadureceu antes do tempo. Os grãos maturaram quase três meses antes do previsto. Não esperaram setembro e chegaram ao ponto ideal de colheita em julho. Os agricultores apontam que foram as chuvas intensas e fora de hora que caíram na região entre abril e maio que provocaram a maturação prematura dos grãos.

Variação climática e chuva anteciparam maturação dos grãos de café em Piatã na Chapada Diamantina ( Foto: Glayco Barbosa divulgação)

O excesso de água também fez o cafezal florescer de uma só vez, ao contrário dos anos anteriores, quando a floração ocorre em até três etapas e permite o parcelamento da colheita.

“Ninguém esperava. Em menos de quinze dias ocorreu a maturação total e poucos produtores estavam preparados para colher tudo de uma só vez. Realmente bem atípico”, afirma Glayco Barbosa, secretário de agricultura de Piatã. 

A preocupação dos agricultores agora é para retirar os melhores grãos antes que eles caiam do pé. A seleção minuciosa, ainda nos galhos, é essencial para preservar a qualidade do produto, mas em muitas fazendas faltou até mão-de-obra para a colheita.

“Com todos os produtores colhendo ao mesmo tempo, faltou apanhadeira. Aqui, por exemplo, geralmente são necessárias trinta pessoas para colher, mas só consegui seis. E ainda falta colher 60% da safra”, conta o produtor rural Michael Alcântara.

A colheita foi intensificada na fazenda do produtor rural Michael Alcântara, em Piatã. Faltou até mão-de-obra para retirar os grãos (Foto: acervo pessoal)

Os cafés de Piatã estão entre os melhores do mundo. Ano passado, os cafeicultores do município colheram cerca de 16 mil sacas. Mas este ano a produção não deve passar das 12 mil.

“A redução no volume geral produzido já era prevista. A planta do café é bianual. Um ano ela produz muito, no outro ela prepara para a safra seguinte. Este já era o ano de menor produção”, completa Glayco.

Frio e estiagem

No Baixo Sul da Bahia, a combinação de frio acentuado, pouca luz, estiagem, sol intenso e névoa forte tem sido inusitada para esta época do ano. Nesta região, o comum seriam temperaturas menos baixas e chuva constante ao longo do inverno.

As condições climáticas inesperadas estão influenciando principalmente no cultivo do cacau. Os agricultores já deveriam estar plantando novas áreas ou replantando as antigas. Mas o sol intenso, o frio, e os cerca de vinte dias de estiagem registrados em julho estão atrasando o andamento do calendário agrícola.

“Aqui sempre esfriou, mas nem tanto. E esta estiagem não é característica. O cacau muito novo é sensível ao sol, então não adianta plantar nestas condições. Isso acaba reduzindo a nossa janela de plantio, porque em agosto as chuvas vão reduzir mais e em setembro o sol volta mais forte”, afirma Leonardo Guimarães, produtor rural em Teolândia.

Em Teolândia, no baixo sul da Bahia, névoa intensa e rara estiagem de inverno estão alterando calendário de plantio (Foto: Leonardo Guimarães)

As variações climáticas também estão afetando o cultivo da banana da terra. “Com o tempo nublado, o frio e a pouca luz, a banana demora de ficar de vez, não ganha peso e amadurece mais lentamente. Então significa perda de produtividade”, completa o agricultor.

Prateleiras

O tempo frio vem interferindo também nos preços finais de algumas frutas e hortaliças. Um levantamento divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostrou que as frutas de maior consumo, como laranja, melancia e maçã apresentaram quedas nos preços no último mês. Segundo a pesquisa, a oferta dos produtos aumentou nas prateleiras e isso puxou os preços para baixo. “O tempo frio e a chegada das férias reduzem a demanda pelos produtos e influenciam nos valores cobrados nas Centrais de Abastecimento (Ceasas)”, aponta a pesquisa.

No Vale do São Francisco os preços da uva também subiram influenciados pelo clima. A região está com poucas frutas devido às chuvas ocorridas no primeiro semestre e às temperaturas que alteraram o ritmo de maturação. Nesta semana, as cotações subiram entre 2,3% e 9,9% em relação à semana passada. De acordo com o Cepea, o quadro é favorável para as empresas exportadoras. O quilo da uva BRS Vitória está custando R$ 5,17 na região. 

Já entre as hortaliças, o destaque é a oscilação constante registrada nos preços da batata. Na Ceasa de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, a saca que chegou a custar R$ 200 há duas semanas agora está saíndo por R$ 130.

O principal fator foi o vai e vem das chuvas na região da Chapada Diamantina. Nos dias de chuva forte os produtores ficam impedidos de fazer a colheita e reduzem o abastecimento. Além disso, no primeiro semestre do ano, a oferta da batata esteve bem menor do que no ano passado devido a problemas nas safras do Sul do país.

“Houve um descompasso na safra nacional, que é ofertada por São Paulo, Minas Gerais e Goiás. As chuvas permaneceram por mais tempo e atrasaram o plantio. Depois provocaram queda na qualidade das lavouras e contribuíram para uma menor oferta nos mercados”, afirma Evilásio Fraga, representante do Agropolo de Mucugê e Ibicoara, na Bahia.

Cafeicultores da Chapada Diamantina anteciparam a colheita por causa da maturação precoce dos grãos. Em muitas fazendas o período já é de secagem

(Foto: Glayco Barbosa divulgação) 

Outro produto que vem registrado grande variação de preços na Bahia é a cebola. Nos principais pontos de vendas da capital baiana, a cotação chegou a despencar no início de junho, voltou a subir na segunda quinzena do mesmo mês e agora em julho oscilou para baixo novamente. Em Salvador, o quilo da cebola branca que chegou a custar R$ 6,99 agora pode ser encontrado por R$ 4,99. A chuva moderada beneficia o produto, mas em excesso prejudica a secagem do alimento. E as duas situações vem se alternando com frequência nos principais municípios produtores.

De acordo com os especialistas, as oscilações são maiores entre as hortaliças por que são cultivos de ciclo curto, mais vulneráveis às variações climáticas e de mercado. Eles afirmam ainda que o clima também tem tido uma influência maior no comportamento dos preços este ano em relação aos anos anteriores.

"De forma geral os preços das hortaliças têm registrado cotações mais altas porque o clima não está tão favorável em relação aos dois anos anteriores. Houve redução de área cultivada e também de produtividade, isso resulta em menor oferta e preços mais altos", aponta João Paulo Bernardes Deleo, pesquisador do Cepea e especialista na área de hortaliças.

Para o consumidor uma boa notícia. A tendência é de mais equilíbrio no segundo semestre.

"É comum termos produtividades menores no primeiro semestre por causa do clima mais quente e mais chuvoso, que provoca baixa produtividade e aumento do custo de produção. Mas no segundo semestre, com o clima mais seco, a produtividade é maior, a oferta aumenta e os preços recuam. Eles devem cair entre agosto e setembro quando acontece o pico da safra de inverno na maioria dos estados", completa o Deleo.

Meteorologia

Não é apenas uma sensação. As estações meteorológicas do Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) confirmam o registro de baixas temperaturas em algumas partes da Bahia. Os termômetros chegaram a atingir até 13 graus na região de Valença, no Baixo sul, uma área que tradicionalmente registra temperaturas bem mais elevadas.

“As mínimas ficaram levemente abaixo da média, e as máximas ficaram acima da média também. Isso principalmente devido a atuação de duas frentes frias que vieram do Sul do país e permaneceram sobre o estado ao longo do mês de julho. Aliado a isso houve também a circulação de ventos do Sul e Sudeste, que chegaram até o recôncavo e o centro sul da Bahia. Eles contribuíram para provocar pancadas de chuva na faixa leste”, explica Aldírio Almeida, meteorologista do Inema.

No oeste da Bahia, onde os agricultores estão em plena colheita do algodão, o ar seco tem mantido a temperatura alta durante a tarde e baixa à noite.

Em Correntina, pleno cerrado, em apenas um dia a temperatura oscilou dos 9.7 graus, durante a madrugada, até os 33.1 graus ao longo do dia. As variações são consideradas normais para a região. Já os nevoeiros, que prejudicam a visibilidade, são resultado de uma combinação de fatores.

“Em algumas regiões, como baixo sul e a chapada diamantina, em dias com céu aberto e pouco vento, é comum haver formação de nevoeiro, principalmente em áreas próximas de baixadas ou em pontos mais altos”, afirma Aldírio.

O meteorologista também diz que nos próximos meses a situação deve se normalizar.

“Não tem previsão de incursão de nenhum sistema que provoque quedas bruscas, mas a tendência é de que as temperaturas permaneçam baixas em agosto, próximas da normalidade para este período. Já a partir de setembro os modelos indicam condições de temperatura acima da média”, acrescenta o meteorologista.

Chuva

As condições meteorológicas também devem ficar dentro do previsto na região Nordeste do estado, no município de Pedro Alexandre, onde fortes chuvas provocaram o rompimento de uma barragem no início do mês. A economia da região é marcada pela pecuária extensiva, com animal criado solto no pasto. A agropecuária serve de renda para mais de 65% dos 17 mil moradores do município.

As chuvas fortes atingiram as lavouras que ficam às margens do Rio do Peixe, mas não afetaram a maior parte das plantações localizadas nas terras mais altas. Segundo a prefeitura do município, os prejuízos ainda estão sendo contabilizados. “Os maiores problemas estão sendo registrados no escoamento da produção de leite, ainda prejudicado por causa das condições das estradas de acesso que foram danificadas. Mas 30% delas já foram recuperadas. A criação de peixe nas comunidades vizinhas à barragem também vai precisar ser restaurada”, afirma Pedro Gomes Filho, prefeito de Pedro Alexandre.

Por outro lado, as lavouras de milho, beneficiadas pela chuva e mantidas pela maioria dos agricultores da região, devem registrar a maior safra dos últimos cinco anos.

Ciência

Ora chuva demais, ora sol intenso. Dias com muito frio, outros com calor marcante. Nesse vai e vem do clima, os preços de algumas frutas sobem assustadoramente, ou caem vertiginosamente.

Mas não é apenas a falta ou o excesso de chuva, as altas ou baixas temperaturas, que influenciam na produção dos alimentos.

O engenheiro agrônomo e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Mandioca e Fruticultura (Embrapa) Maurício Antônio Coelho Filho explica abaixo a influência de diversos fatores climáticos no desenvolvimento de frutos comuns na mesa do consumidor.

O pesquisador da Embrapa, Maurício Antônio Coelho Filho, tira dúvidas sobre a influência das variações climáticas no desenvolvimento dos frutos (Foto: Ascom Embrapa)

Até que ponto a temperatura baixa influencia no desenvolvimento de alguns alimentos?

A planta é fortemente influenciada pelo ambiente. Desde o solo que disponibiliza água e nutrientes, até elementos da atmosfera como a radiação solar, a umidade do ar, a velocidade do vento e a chuva. Eles são responsáveis pela disponibilidade energética que afeta o crescimento das plantas em diferentes fases. Por isso as plantas modificam, por exemplo, a duração dos ciclos de frutificação, a depender da região e da época em que o alimento é produzido. É muito difícil isolar os efeitos destes fatores na qualidade dos alimentos. Assim as plantas ficam sujeitas à variabilidade dos elementos que indicam riscos para produção, como geadas, temperaturas extremas, veranicos, secas prolongadas e umidade excessiva.

Estas variações podem modificar o sabor das frutas?

Sim. Encontramos frutos ácidos de laranjas associadas ao frio, e frutos mais doces ligados aos climas quentes, que favorecem a produção de açúcar. Já a coloração é muito dependente da luminosidade e da temperatura do ar. Geralmente frutos mais expostos a luz são mais coloridos. Por isso alguns produtores podam as mangueiras na fase de maturação dos frutos. Outro exemplo são as frutas cítricas, como as laranjeiras e as tangerineiras. No Recôncavo baiano, uma região quente ao longo do ano, os frutos permanecem com a casca esverdeada, mesmo ao atingir a maturação da polpa. Porém, se estas frutas forem da Chapada Diamantina, que fica acima de 1.000 metros de altitude, além da maturação interna, o fruto fica com uma coloração alaranjada. Isso acontece em função de fatores como as elevadas amplitudes térmicas da região e o frio registrado no período noturno.

O momento em que a fruta é colhida pode influenciar?

Sim. Há frutas que, mesmo depois de colhidas, continuam a maturação até atingirem o ponto ideal de consumo. É o caso da banana, mamão, manga, tomate, maçã e o abacate. Essa característica vai implicar no valor nutritivo e na aparência, como coloração da casca. Por isso, esses frutos devem ser colhidos ainda verdes para ampliar o tempo de conservação até o consumo. Há outros frutos que mantêm a qualidade semelhante ao momento em que foram colhidos. É o caso da laranja, do limão, da uva e do morango. Isso implica que a colheita deve ser realizada quando elas estiverem no ponto de consumo. Se a colheita for realizada antecipadamente, o fruto chega com qualidade inferior ao consumidor e essa condição não se modifica.

Quais são as frutas que têm o desenvolvimento beneficiado pelas baixas temperaturas?

O frio é importantíssimo para uniformizar a floração de frutíferas de clima temperado, como maça, pêssego e pêra. Estas frutas necessitam de um número mínimo de horas acumuladas de frio para quebrar a dormência. No mínimo 400 horas com temperaturas inferiores a 7 graus. Isso explica a dificuldade de se produzir comercialmente esses frutos nas condições naturais da Bahia. Elas são menos sensíveis às baixas temperaturas, comparadas com as espécies tropicais que geralmente não toleram geadas. O ciclo de frutificação também pode ser afetado pela temperatura. É o que ocorre na frutificação de banana d’água, por exemplo. No semiárido ela necessita de aproximadamente 90 dias, da floração à colheita. Já nas regiões produtoras do Sul do Brasil, onde ela é produzida no inverno, este tempo supera os 200 dias.


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