Você sabe onde estão os potenciais econômicos de Salvador?

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31.03.2021, 06:00:00
Atualizado: 31.03.2021, 06:21:28
(Foto: Sora Maia)

Você sabe onde estão os potenciais econômicos de Salvador?

Capital baiana tem oportunidades na economia criativa e circular; diversidade é diferencial para atrair empresas como Nubank

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Os nossos 472 anos de história legaram uma cidade pobre, desigual e excludente. A boa notícia é que também herdamos oportunidades que se bem trabalhadas abrem um novo caminho para o desenvolvimento da cidade e de sua gente. O atual retrato econômico da capital baiana mostra um município essencialmente focado no setor de serviços - que inclui, entre outros segmentos, comércio e hotelaria entre outros.

Segundo dados do PIB Municipal de 2018, os mais atuais divulgados pelo IBGE e citados pelo economista Guilherme Dietze, o setor tem uma participação de 72% na composição de todas as riquezas produzidas na cidade. Administração pública representa 15,5%,  Indústria 12,5%, e Agropecuária 0,1%. Nacionalmente, a participação do serviço no PIB é de 65%.

Dietze, consultor da Fecomércio- BA (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado da Bahia), deixa ainda mais claro a importância do setor para o município citando dados do último mês de janeiro do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged, do Ministério da Economia, que computa informações fornecidas pelas empresas sobre a contratação formal – com carteira assinada - e demissões de trabalhadores): das 561 mil pessoas empregadas com carteira na cidade, 354 mil estão em serviços (cerca de 63%).

Outro economista, Alex Gama Queiroz dos Santos, assessor técnico da diretoria de indicadores e estatística da Superintendência De Estudos Econômicos e Sociais (SEI), órgão ligada à Secretaria Estadual de Planejamento, destaca que os maiores salários estão no setor industrial, que geralmente emprega trabalhadores mais qualificados e que desenvolve atividades mais complexas e de alta produtividade. E que, em paralelo, a taxa de informalidade no mercado de trabalho na capital baiana atingia a marca de 42,4%, o equivalente a 651 mil trabalhadores. “O rendimento médio real dos trabalhadores soteropolitanos, com 14 anos ou mais de idade, foi de R$ 2.424 no ano de 2019, com base nos dados do IBGE (2020). Sendo que o rendimento dos homens em média foi de R$ 2.803 e das mulheres R$ 2.044”, afirma.

Mila Paes, titular da  Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda (SEMDEC), estrutura criada em janeiro pelo prefeito Bruno Reis, completa o raio-X da economia soteropolitana: “Salvador tem o 10º maior PIB municipal do país, mas quando o ranking é de PIB per capita (quando a riqueza é dividia pelo total da população), a cidade vai para 24ª posição entre as capitais”.

Pouca qualificação da mão de obra local, renda média baixa e informalidade alta são problemas que estão no centro das preocupações da SEMDEC, e Mila Paes afirma que a equipe da secretaria já trabalha em programas para revertê-los. “Historicamente, Salvador concentrou sua economia no setor de serviço e o eixo industrial foi transferido para a região metropolitana. Salvador é também uma cidade densamente povoada, não há mais espaço para atrair plantas industriais tradicionais”, diz. “Entre nossos desafios está o de criar uma nova economia na cidade para atrair mais empresas e recursos par cá”, completa.  

Qualificação
A ponte entre o presente e o futuro, segundo a secretária, está no aumento da qualificação dos trabalhadores. Para isso foi recentemente lançado o Programa Treinar para Empregar, que visa capacitar pessoas para trabalhar em atividades demandas pela chamada economia 4.0, que tem por base a indústria de tecnologia. As outras frentes trabalhadas pela secretaria são a melhoria no ambiente de negócios  - para favorecer a criação e a perenidade de empresas, inclusive as informais a a tal ponto de que o empreendedor informal sinta a necessidade de se formalizar -, e o desenvolvimento de potencialidades econômicas próprias de cada território da cidade.

“Existem forças econômicas diferentes no mapa da cidade. Vamos olhar os territórios, identificar essas forças e desenvolver projetos para formar essas cadeias produtivas próprias de cada lugar”, explica. A secretária, contudo, diz que desenvolver cadeias produtivas nos bairros não significa criar uma concorrência com as estruturas que já existem nas áreas centrais, o que é importante para resultados de curto prazo.

Alex dos Santos, da SEI, enxerga a infraestrutura e a mobilidade urbana como maiores gargalos para o desenvolvimento da cidade. “Muito estudos mostram impactos diretos entre a mobilidade e a renda da população, oportunidade de emprego, a produtividade no trabalho, acesso a ambientes educacionais, o lazer, as condições ao tratamento de saúde e o desequilíbrio ambiental”. O economista lembra que esse problema tem sido corretamente atacado com investimentos na ampliação do metrô, no VLT e no BRT. “Acredito que esses investimentos em transportes e infraestrutura logística poderão atrair muitas empresas gerando novos vetores de crescimento e dinamismo econômico para a cidade”, fala.  

Outro eixo importante para o crescimento econômico de Salvador, principalmente no curto prazo quando se faz necessária uma retomada vigorosa diante das consequências trazidas pela pandemia, é o turismo. “O seguimento de turismo tem todo o potencial para crescer rapidamente entre o fim deste ano e o início do próximo, quando a maioria da população estará vacinada”, aponta Guilherme Dietze.

“O turismo é a maior cadeia do setor de serviço, vai desde o transporte rodoviário atá a alimentação, passando pela hotelaria e entretenimento. E responde positiva e rapidamente a estímulos”, argumenta. “Existe uma demanda reprimida por viagens por causa das medidas de isolamento social. As pessoas querem viajar. Quando uma família viaja, gasta mais que quando em casa”, complementa. Segundo Alex dos Santos, o turismo representa 5,9% do PIB de Salvador, segundo dados da SEI.

Nubank vai implantar núcleo de inovação e diversidade em Salvador
Salvador vai ficar com grande parte dos R$ 20 milhões que o Nubank vai investir em ações de combate ao racismo estrutural. O maior banco digital do Brasil vai implantar na capital baiana o NuLab,  um hub de tecnologia e experiência do cliente que servirá como polo de atração de talentos com perfil mais diverso.  É um exemplo de como a economia 4.0 pode ajudar a cidade.

A baiana Monique Evelle – empresária e jornalista listada pela Forbes, em 2017, como uma das jovens com menos de 30 anos mais promissoras do país -  foi contratada como consultora para ajudar na criação do hub. “Salvador é uma cidade com potencial incrível, com talentos brilhantes que estão sendo desenvolvidos e vão florescer cada vez mais, não faz sentido nenhum ir para uma outra cidade quando o assunto é inovação e diversidade”, garante.

Para ela, a experiência do Nubank vai fazer com que empresas locais também reflitam sobre diversidade e inovação. “A ideia é que a gente influencie positivamente outras empresas e garantir o desenvolvimento de pessoas que estão desempregadas ou que estão na informalidade, para que cheguem no futuro do trabalho, e o futuro do trabalho é tecnológico”, completa.

Monique também afirma que Salvador tem “talentos incríveis”, “desde trançadeiras até startups de tecnologia e inovação”. E que o trabalho coletivo pode colocar a cidade no mapa global de inovação e de diversidade. “é o que já está começando a acontecer com algumas startups, como a Afrosaúde, healthtech com profissionais negros, criando tecnologia para profissionais negros. Temos Vale do Dendê , Traz Favelas, temos referências de novos negócios, novos talentos acontecendo. Se é para recomeçar o Brasil, que recomece aqui”, conclui.

Economias criativa e circular apontam caminho do desenvolvimento
As oportunidades para a capital baiana se desenvolver não estão restritas a indústrias de base tecnológica e à diversidade como ativo para atração de empresas. Duas outras formas de economia também são alvo de investimentos para melhorar as condições de vida dos habitantes da cidade: a circular e a criativa.

Mila Paes, secretária municipal de desenvolvimento econômico, esclarece que criação de softwares, aplicativos e satartups estão dentro do guarda-chuva da economia criativa, que é aquela quem tem por base a criação humana. E embora esse segmento mereça um foco próprio, outros setores da economia criativa também estão sendo trabalhados desde a gestão do prefeito ACM Neto com a criação do Hub Salvador e a licitação do Doca 1.

Ela destaca ainda que o Museu da Música, que será inaugurado em breve, também será um equipamento utilizado para a realização de cursos e treinamento de mão de obra não só para a música, mas também para teatro, moda, cinema, televisão e gastronomia.

Já a economia circular – baseada na geração de trabalho e renda com a reciclagem e reutilização de materiais para poupar recursos ambientais – é apontada como forma de inclusão de pessoas nos bairros mais periféricos de Salvador. “Temos de olhar o potencial de cada região de Salvador, ter um diagnóstico econômico próprio de cada um desses locais”, esclarece.

O projeto de reurbanização do Rio Mané Dendê – que vai beneficiar cinco bairros -  será utilizado como piloto de um programa maior para identificar e potencializar cadeias econômicas próprias de cada território. “A SEMDEC vai contratar estudos para fazer o diagnóstico econômico da área e desenvolver programas para fortalecer essas forças econômicas. A economia circular é uma das vertentes a ser trabalhada”, fala.
 

O Aniversário de Salvador é uma realização do jornal Correio com o patrocínio da Wilson Sons, Jotagê e CF Refrigeração e o apoio da Sotero, Salvador Shopping, Salvador Norte Shopping, JVF e AJL.

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