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Juliana Rodrigues
Publicado em 2 de abril de 2026 às 07:00
A manutenção de Geraldo Alckmin (PSB) como vice na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para 2026 indica a conversão de uma rivalidade histórica em um projeto de sobrevivência mútua. Ao sinalizar o que antes era impensável, o Planalto prioriza o pragmatismo político sobre as feridas do passado, utilizando a aliança como escudo institucional e ponte com o centro para tentar viabilizar mais quatro anos de poder no cenário político nacional.
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Para dimensionar essa reviravolta, é preciso revisitar a disputa de 2006, quando a relação entre os dois não era de oposição, mas de forte antagonismo. Naquele momento, o PT intensificava críticas ao então candidato tucano, enquanto Alckmin rebatia associando a gestão petista a irregularidades investigadas no escândalo do Mensalão, em uma campanha marcada por ataques duros e forte polarização.
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Hoje, os sorrisos e brindes nos salões do Planalto contrastam com o nível de confronto político que marcou a relação entre os dois no passado, reconfigurado ao longo dos anos pelo pragmatismo do poder.
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A engenharia por trás dessa coalizão, contudo, esteve longe de ser simples. Em setores do Partido dos Trabalhadores, a ascensão de Alckmin foi recebida com resistência e interpretada como uma afronta ideológica.
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Enquanto setores mais à esquerda e correntes internas do Partido dos Trabalhadores defendiam uma chapa puro-sangue, sob o temor de que a presença de um vice com trajetória no PSDB enfraquecesse pautas progressistas, o receio predominante era de natureza mais pragmática.
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Havia nas discussões a referência recorrente ao papel de Michel Temer na crise política de 2016, com o receio de abrigar no Palácio um vice que, em um cenário de instabilidade, pudesse assumir protagonismo em uma eventual ruptura institucional, à luz do processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff.
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Nem mesmo o constrangimento causado por vídeos de ataques mútuos que circularam em grupos de mensagens foi capaz de comprometer o pragmatismo da aliança. Na prática, o arranjo se consolidou em 2022, quando Geraldo Alckmin atuou como elemento de moderação para Luiz Inácio Lula da Silva, contribuindo para reduzir a resistência do mercado e ampliar a penetração em redutos conservadores. A vitória apertada nas urnas serviu como evidência de que converter o adversário de ontem no aliado de hoje pode ser decisivo para a governabilidade. Ao sinalizar a repetição da dobradinha em 2026, o Planalto reforça que, na disputa pelo poder, as divergências do passado cedem espaço à construção de viabilidade política.
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