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João Gabriel Galdea
Publicado em 29 de março de 2026 às 15:00
Em 1806, Napoleão Bonaparte redesenhava o mapa da Europa, enquanto algumas de suas fragatas faziam o rascunho de futuros domínios a oeste, incluindo este novo mundo. Na manhã de 2 de abril – portanto, completando 220 aninhos –, uma esquadra de navios pretos e cinzentos adentrou a Baía de Todos os Santos, se aproximou da Cidade Baixa e aportou num ponto equidistante entre os atuais Rio Sena e Terminal da França. >
Pelos mares e campos baianos, especialmente nas imediações da sagrada colina, todo mundo parou para ver quem vinha de lá, naquela insólita matinê de quarta-feira magra. “Até as escravas abandonaram suas penosas tarefas no interior das casas coloniais para ver desembarcar o príncipe, no Arsenal Real da Ribeira, rodeado de ajudantes que resplandeciam de ouro em seus brancos uniformes, ao som das marchas imperiais”, descreve na revista O Cruzeiro, em 1937, o cronista Jacintho Altamirano, citando fontes pretéritas.>
O príncipe era ninguém menos que Jerônimo Bonaparte, irmão rebelde e fanfarrão de Napoleão, recém-saído de uma batalha naval na qual quase foi capturado pelos arquirrivais ingleses, no atlântico africano. “Com as tripulações enfermas e os víveres esgotados, chegavam às costas brasileiras em demanda de auxílio”, após quatro meses de viagem, ainda com a pompa e circunstância intactas.>
Dá pra ver no pergaminho assinado pelo príncipe, que um oficial francês entregou ao governador Saldanha da Gama, diante da população apreensiva, na praia pré-Avenida Beira Mar.>
“Exmo. Sr. Governador, tenho a honra de prevenir-vos que acabo de chegar a esta Bahia com a segunda divisão naval de Sua Majestade Imperial [Napoleão]. Ao cabo de vários meses, toda a esquadra tem necessidade de água e provisões frescas. Eu espero achar num governo amigo do império francês todas as facilidades necessárias para remediar sua dificuldade. Rogo a Vossa Excelência, receba as expressões do meu mais alto reconhecimento. Jerônimo Bonaparte”.>
PERSONNALITÉ>
Antes de prosseguir sobre o rebucetet (confusão, em francês) do príncipe, é importante apresentar melhor o signatário. Jerônimo era uma espécie de Jesus Sangalo de Napoleão: mesmo com apoio e confiança do parente superstar, volta e meia dava umas derrapadas e, por teimosia e natureza, gostava de demonstrar independência.>
Após se desviar de missões militares francesas, viajou aos EUA e casou-se com uma americana. A união enfureceu Napoleão, que tinha planos de unir o irmão a uma nobre europeia, e torná-lo rei da Vestfália (na atual Alemanha).>
Para fazer o plano dar certo, o imperador mandou o próprio Papa cancelar o matrimônio, ignorando que a cunhada já estivesse de barriga. Voto vencido, Jero foi divorciado, natoralmente, e virou majestade um ano após a passagem pela Bahia. No trono, ganhou o apelido de “Rei Folgazão”, por conta do seu estilo de vida luxuoso e do plano de governo focado na libertinagem.>
HOSPITALITÉ>
A calorosa recepção dos soteropolitanos ao presidente francês, Emmanuel Macron, no ano passado, foi um autêntico déjà vu para a cidade, que vira cenas muito semelhantes durante o rolé aleatório do Bonaparte, assim que ele apresentou as credenciais na CBX.>
Segundo o jornalista e escritor Paulo Setúbal (1893-1937), “houve jantares e festas que fizeram época em S. Salvador”. E o primeiro buffet foi oferecido pelo príncipe: um banquete a bordo da fragata Veteran, para o qual foram convidados os figurões mais ilustres da cidade.>
“O jantar foi magnífico. Houve fartura de vinho Beychevelle e muito vinho branco de Anjou. Os criados, que eram os serviçais particulares do príncipe, vestiam librés adornadas, calças com botões de prata e meias de seda pretas”, detalha Setúbal, imortal da Academia Brasileira de Letras.>
“As brisas sopravam suavemente entre as palmeiras da praia, de onde chegavam melodias brasileiras lânguidas e apaixonadas; tudo parecia uma visão de encantamento”, complementa, sem incluir no cenário as cantoras Margareth Menezes e Daniela Mercury, que apareceriam em recepção equivalente dois séculos adiante.>
À LA CARTE>
Diante da cortesia francesa, o Jerônimo (Rodrigues) da época, governador Saldanha da Gama, viu-se obrigado a retribuir a gentileza. Montou um convescote majestoso na Cidade Alta, enquanto pensava numa forma de se explicar à Corte Portuguesa.>
Segundo a historiadora Gabriela Vieira, ele corria risco real de se complicar. “Portugal mantinha uma relação tradicional de aliança com a Inglaterra, e isso fazia frente direta aos interesses políticos de Napoleão”, delimita. “Para as elites políticas baianas, isso representava uma ameaça, pois demonstrava o quão vulnerável estava uma colônia portuguesa diante do avanço das investidas de dominação da França napoleônica”, conclui.>
Apesar disso, não dava para dizer não a quem podia suceder Napoleão. Ofereceu ao príncipe e seu oficialato um grande banquete no Palácio Rio Branco. Foi imenso o esforço para estar à altura do luxo e bom gosto do ilustre hóspede. “Roguei a Sua Alteza Imperial que viesse jantar comigo no dia 17... Organizeis, como pude, tudo o que havia de melhor”, explicou-se o líder baiano.>
ME DÁ UM DIÊRO AÍ>
O príncipe Bonaparte ficou encantado com a recepção e, por gratidão, deu de presente duas espadas de prata adornadas com águias: uma ao próprio Saldanha da Gama, governador civil e Conde da Ponte, e outra ao governador militar, o brigadeiro Vasconcellos. >
Apesar disso, Saldanha seguia desconfiado da estadia prolongada do futuro rei europeu, que após duas semanas, o convidou para um novo regabofe. >
A bordo da nau capitânia, a fragata Foudroyant, foi oferecida uma recepção em honra às senhoras. “As marquesas provincianas ficaram maravilhadas diante dos tapetes persas e das pinturas flamengas que decoravam a residência flutuante do irmão de Napoleão”, cita Altamirano. Setúbal lembra que a informalidade de Sua Alteza também surpreendeu a todos.>
No dia 21, finalmente, a hora do adeus ficou agendada para o dia seguinte. Mas o último ato da frota francesa, que chegou à nossa capital com mais de 500 doentes (alguns dos curados decidiram fixar residência), ainda guardava uma nova surpresa.>
Saldanha da Gama foi abordado pelo almirante Willaumez, que fez um pedido de empréstimo, na cara dura, em nome dos Bonaparte: solicitava dois cofres reais, contendo o dinheiro necessário para custear os gastos da esquadra no retorno à Europa.>
O Conde da Ponte quase caiu pra trás, mas foi atrás: passou a sacolinha entre alguns membros da elite, coçou o bolso, e entregou o que foi possível. Não existe jantar grátis.>
RSVP>
O historiador e professor Fábio Batista encontrou um arquivo que explica as repercussões da aventura baiana do Bonaparte, um ano antes de virar rei.>
“Saldanha da Gama envia para Portugal um relato da passagem de Jerônimo por Salvador, e a resposta deste ofício chega em julho (1806), quando a Corte, em Mafra, acusa o recebimento, redigido pelo Visconde de Anadia, informando que o Conde da Ponte, aqui na Bahia, ‘obrou’, ou seja, atuou, agiu de maneira correta, evitando assim um incidente diplomático”, revela o professor.>
De volta à Europa, Jero foi coroado, em 1807, pelo irmão miseravão. Em 1808, a Família Real Portuguesa chega ao Brasil, através da mesma Ribeira, hoje boêmia como o príncipe maluco. C’est la vie.>
O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping.>