Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Thais Borges
Publicado em 16 de fevereiro de 2016 às 07:58
- Atualizado há 3 anos
Para dar uma ideia (aos homens) do que as mulheres passam — e sentem — ao sofrer um assédio, CORREIO fez um experimento por cerca de 40 minutos pelas ruas de Salvador. Já que a rua é o principal lugar onde as mulheres são assediadas, acompanhamos a repórter Iasmin Sobral em andanças pela Barroquinha e pelo Comércio.>
A rua foi o resultado encontrado a partir dos relatos no mapa da campanha Chega de Fiu Fiu, quando identificamos os locais onde as mulheres mais são assediadas. Em dezembro, ainda como parte do especial O Silêncio das Inocentes, o CORREIO anunciou uma parceria com a Chega de Fiu Fiu, da ONG Think Olga. Mapa da campanha Chega de Fiu FiuDesde então, o mapa da campanha, que reúne cerca de 3 mil denúncias de assédio sexual no país, está também em nosso site. A rua aparece em 1.405 denúncias — fora aquelas que citam a “calçada” (243 casos), “esquinas” (160) ou “avenidas” (140).>
Logo em seguida vem “casa” – 1.011 assédios envolvem esse local. No ônibus, foram 931 vezes. Por isso, quando recebe um assédio — uma cantada, um “fiu fiu” — enquanto anda na rua, a maior parte das mulheres sente medo e não vê como elogio.>
“O que gera o medo do assédio é o medo do estupro. Existe uma relação muito próxima, porque é uma violência que nós nos sentimos sujeitas”, explica a gerente de conteúdo da campanha, Luíse Bello. Segundo uma pesquisa realizada pela Think Olga em 2013, 83% das mulheres não gostam de receber cantada.>
Ao longo de todo esse período, gravamos — com três câmeras, simultaneamente — o percurso feito por Iasmin. Foram muitos olhares, viradas de pescoço e até homens que davam alguns passos para tentar acompanhar a repórter por mais tempo.>
“Quando passei, dei três passos e todos os caras olharam para mim. Alguns fizeram uma gracinha, mas, no geral, olhavam feio. Parecia que estavam tirando sua roupa. Você se sente constrangida”, contou Iasmin.>
Assista ao vídeo 'Um dia pelas ruas de Salvador'>
Alguns chegaram a falar com ela, usando termos como “bonita”, “linda” e “princesa”. “Linda”, inclusive, é um dos adjetivos mais utilizados nos assédios na rua, também segundo as denúncias ao Chega de Fiu Fiu. Ao todo, foram 128 ocorrências. Só perde para “gostosa”, que foi o que 341 mulheres escutaram. O terceiro lugar é ainda mais indigesto: “puta”, a palavra escutada em 62 situações de assédio.>
Para a coordenadora do Observatório da Lei Maria da Penha, Márcia Tavares, o assédio sofrido pela repórter é um reflexo de uma cultura que não percebe a mulher como sujeito. “Ela é percebida como objeto. O corpo da mulher é visto como um objeto sem a possibilidade de dizer sim ou não”, explicou.>
Colaboraram Amanda Palma, Iasmin Sobral e Giulia Marquezini>