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Mariana Rios
Publicado em 28 de maio de 2026 às 20:30
Mudanças climáticas já estão cobrando um preço alto da saúde dos brasileiros. Um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) apontou que cerca de 6 mil pessoas morrem por ano no Brasil em decorrência de doenças respiratórias associadas a temperaturas extremas — tanto calor quanto frio intensos. A pesquisa analisou mais de 1 milhão de mortes registradas entre 2010 e 2020 em 646 municípios brasileiros e mostrou que o calor já supera o frio como principal fator de risco.>
Segundo o levantamento, publicado na revista científica PLOS Climate, aproximadamente 66 mil mortes por doenças respiratórias registradas no período tiveram relação direta com temperaturas fora da faixa considerada ideal para o corpo humano, estimada em 22,4°C. Desse total, 4,27% dos óbitos foram associados ao calor extremo, enquanto 1,81% tiveram relação com o frio. >
Os pesquisadores destacam que o cenário tende a piorar diante do avanço das mudanças climáticas. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mostram que o Brasil passou de uma média de sete dias de ondas de calor por ano para 52 dias anuais nas últimas décadas. Em partes do Nordeste, além de estados como Roraima e Mato Grosso do Sul, a temperatura máxima média já subiu até 3°C.>
O Nordeste aparece entre as regiões mais impactadas pelo calor. Segundo o estudo, 8,6% das mortes respiratórias registradas na região estão relacionadas às altas temperaturas. No Norte, o índice é ainda maior: 12,5%. Já no Sul, o frio continua sendo o principal fator climático associado às mortes respiratórias.>
De acordo com Guilherme Coelho, médico de família e primeiro autor da pesquisa, o calor age de forma rápida sobre o organismo. “O efeito do calor é muito mais imediato. Em poucos dias já há aumento do risco de agravamento e morte”, explicou o pesquisador da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas ao Jornal da Unicamp.>
Os cientistas apontam dois principais mecanismos para explicar o aumento das mortes: o impacto fisiológico das temperaturas extremas sobre o sistema respiratório e a maior circulação de vírus respiratórios em determinados cenários climáticos. O calor favorece desidratação e irritação das vias aéreas, enquanto o frio reduz as defesas naturais do organismo e aumenta o risco de infecções.>
A pesquisa também chama atenção para o peso das desigualdades sociais. Idosos concentram cerca de 75% das mortes associadas às temperaturas extremas, mas moradores de periferias e áreas com infraestrutura precária também estão entre os grupos mais vulneráveis. Casas pouco ventiladas, falta de climatização e ausência de áreas verdes ampliam os riscos durante ondas de calor.>
Os autores defendem medidas urgentes, como criação de sistemas regionais de alerta climático, ampliação de áreas verdes urbanas, adaptação de moradias e abertura de centros públicos climatizados em períodos de calor extremo. O estudo também cita iniciativas recentes do Ministério da Saúde voltadas à adaptação do SUS aos impactos das mudanças climáticas.>